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Agronegócio

Casca de coco vira bioinsumo e abre nova frente para a agricultura no RN

Resíduo da indústria de água de coco é transformado em biochar no Vale do Açu; material pode aumentar a retenção de água e nutrientes no solo
Agora RN
15/09/2026 | 22:40

Um resíduo da indústria de água de coco começa a ser incorporado a uma nova cadeia produtiva no Rio Grande do Norte. No Vale do Açu, cascas descartadas pelo setor estão sendo transformadas em biochar, um insumo agrícola que pode melhorar características físicas, químicas e biológicas do solo. A produção ainda ocorre em pequena escala, de aproximadamente 10 toneladas por ano, mas já mobiliza produtores e instituições de pesquisa em diferentes regiões do Estado.

O projeto é desenvolvido por uma empresa privada há cerca de três anos, com apoio de programas do Sebrae-RN. A matéria-prima vem de uma agroindústria de água de coco, e o produto resultante retorna ao setor agrícola para aplicação no solo, inclusive em coqueirais.

Duas mãos peneiram biochar, material escuro e granulado, sobre uma peneira de madeira
Biochar produzido no Vale do Açu a partir de cascas de coco descartadas pela indústria de água de coco — Sandra Monteiro

“Eu chamo isso de uma simbiose agroindustrial, porque os rejeitos da indústria da produção de água de coco passam a ser insumos para a planta de pirólise e o que sai da planta, que é o biochar, volta para os coqueirais. As duas atividades passam a ser interdependentes”, afirma Xavier Mulliez, fundador e diretor-geral da empresa.

O biochar é obtido por pirólise, um processo termoquímico feito com pouco ou nenhum oxigênio. As cascas passam por trituração e homogeneização antes de serem submetidas a altas temperaturas em um reator. Parte dos gases produzidos é reutilizada para alimentar a própria operação, enquanto a fração sólida resulta no insumo.

A tecnologia ganha uma dimensão particular no semiárido potiguar. Em áreas onde a disponibilidade de água e as condições do solo interferem diretamente na produtividade, o biochar pode contribuir para aumentar a retenção de água e de nutrientes, melhorar a estrutura do solo e favorecer sua atividade biológica.

O material produzido no Vale do Açu já desperta interesse em Mossoró, Touros e na própria região do Açu. Entre usuários e potenciais usuários estão produtores de coco, algodão e manga. A empresa mantém ainda articulações com a Embrapa, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) para pesquisas e testes em diferentes condições.

A primeira parceria para fornecimento de matéria-prima surgiu de uma conexão feita pelo Sebrae-RN com uma agroindústria de água de coco. Atualmente, a empresa contabiliza 13 parcerias e realiza aplicações em áreas agrícolas, incluindo coqueirais.

A aproximação com produtores também acontece por meio de eventos. Segundo Franco Marinho, gestor de Fruticultura do Sebrae-RN, agricultores conheceram a unidade produtiva durante o Frut&Tec, realizado no Distrito de Irrigação do Baixo-Açu.

A empresa passou ainda pelos programas Impacta RN, de pré-aceleração, e Regenera, voltado a negócios de impacto socioambiental. Segundo Xavier, esse processo ajudou na estruturação inicial do empreendimento. “Encontrei no Sebrae contatos-chave para iniciar o negócio e, no programa de aceleração, tive acesso a muitas informações que foram enriquecedoras para estruturar minhas ideias e transformá-las em um negócio”, relata.

O próximo passo é aumentar a escala. Xavier estima que existam aproximadamente 400 unidades produtoras de água de coco no Brasil que poderiam adotar modelo semelhante. Antes de uma expansão nacional, porém, o plano é consolidar a operação potiguar e avançar para o Ceará, maior produtor brasileiro de água de coco.

“Meu sonho é chegar a toda a indústria de produção de água de coco. Seria uma usina de produção de biochar para cada cadeia, dentro desse conceito de simbiose agroindustrial, em que o resíduo de uma atividade vira insumo para outra. É essa escala que eu quero alcançar”, afirma.