A Polícia Federal afirma ter identificado uma estrutura digital usada por funcionários do Banco Master para produzir documentos que, segundo a investigação, dariam aparência de regularidade a créditos negociados com o Banco de Brasília (BRB).
De acordo com um relatório técnico-pericial, o grupo teria combinado dados reais de clientes, planilhas, mala direta do Word, programas para separar páginas de assinatura e edição de arquivos em PDF. A apuração trata das operações envolvendo a Tirreno Consultoria e créditos consignados.

Segundo a PF, a Tirreno teria sido usada para formalizar cessões fictícias de crédito ao Banco Master. Depois, essas carteiras sem lastro teriam sido vendidas ao BRB. As conclusões integram uma investigação em andamento e ainda serão analisadas no processo.
Como o esquema funcionava
O relatório aponta que dados cadastrais de clientes de operações antigas foram extraídos de sistemas internos do banco e organizados em planilhas. Entre as informações estavam nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe.
Para os investigadores, esses dados passaram a ser usados como base para gerar documentos em grande quantidade. A PF afirma que uma ferramenta de mala direta do Word permitiu a criação de 2.700 procurações em lote em junho de 2025.
Mensagens apreendidas pela investigação mostram que integrantes da área de tecnologia identificaram inconsistências na lista de CPFs utilizada. Mesmo assim, a operação teria continuado.
A perícia também descreve o uso de programas desenvolvidos em C# para extrair páginas de assinatura de documentos em PDF. Essas páginas, segundo a PF, poderiam ser reaproveitadas na montagem de novos arquivos.
Nas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), a investigação identificou situações em que a data escrita no documento era anterior à data registrada pela assinatura digital. Em um dos exemplos, a CCB trazia janeiro de 2025, enquanto a assinatura eletrônica indicava junho daquele ano.
O relatório cita ainda conversas em que funcionários discutiam a retirada de datas e horários dos Termos de Consentimento. Em uma mensagem, um dos envolvidos escreveu: “precisamos excluir a data”.
Depois das alterações, os documentos eram reunidos em um único PDF por operação, segundo a PF. Os dossiês incluíam CCBs, procurações e termos de consentimento e eram organizados em pastas internas relacionadas às demandas BRB-Tirreno.
A investigação também aponta tentativas de alterar comprovantes de transferências para ocultar informações como número do contrato, evento e histórico da operação. As mensagens mostram que havia dificuldade para repetir esse trabalho manualmente em milhares de arquivos.
De acordo com a PF, a documentação chegou a dirigentes do Banco Master. O relatório cita um pedido de Daniel Vorcaro por um “kit” de 300 operações com assinatura digital e o posterior envio de arquivos relacionados às CCBs, procurações e assinaturas.
Apesar das alterações apontadas, a perícia informou que registros digitais permitiram reconstruir parte da cronologia dos arquivos e identificar diferenças entre as datas exibidas nos documentos e as assinaturas eletrônicas.