BUSCAR
BUSCAR
Saúde

Estudo encontra microplásticos no pulmão de 70% dos pacientes e concentração maior entre os com câncer

Foram 232 partículas identificadas, sobretudo polipropileno e polietileno, mas os autores avisam que a associação encontrada não prova causa e efeito
Agora RN
09/09/2026 | 20:49

Partículas de plástico pequenas o bastante para circular pelo ar também estão chegando ao pulmão humano. Um estudo com pacientes que passaram por exames do aparelho respiratório achou microplástico em 70% deles — e viu essas partículas em quantidade maior justamente entre quem recebeu diagnóstico de câncer de pulmão. Os resultados serão apresentados na Espanha, em outubro, no Congresso da Sociedade Respiratória Europeia, e acrescentam dados a um campo que ainda tenta medir até onde a exposição diária ao plástico alcança os pulmões.

A pesquisa acompanhou 100 pessoas que procuraram um hospital na Grécia para investigar sintoma pulmonar. Concluída a bateria de testes, metade delas recebeu diagnóstico de câncer de pulmão. Foi então que os cientistas foram atrás de plástico nas amostras colhidas durante a investigação. O resultado: em 70% dos pacientes, ao menos uma dessas amostras trazia microplástico detectável. E, entre os que receberam o diagnóstico de câncer, as partículas apareceram com mais frequência e também em maior quantidade.

Mão segurando fragmentos coloridos de microplástico
Imagem ilustrativa de microplásticos

Vale saber como esse material chegou às mãos dos pesquisadores. A coleta se deu principalmente por broncoscopia. É o exame em que um aparelho entra pelas vias respiratórias e cumpre duas funções ao mesmo tempo: permite enxergar o interior do pulmão e permite retirar amostra de lá de dentro. Numa parcela dos pacientes, os pesquisadores foram além e analisaram também pequenos fragmentos de tecido pulmonar.

Somadas todas as amostras, chegou-se a 232 partículas de microplástico identificadas. Polipropileno e polietileno estavam entre os materiais que mais apareceram. São dois plásticos de uso corriqueiro, daqueles que se encontram em embalagem, em tecido e numa lista extensa de produtos que passam pela mão de qualquer pessoa todos os dias.

Um detalhe do achado chama atenção: o plástico não se distribuiu da mesma maneira em todos os pacientes examinados. Em algumas amostras a concentração maior estava nas vias aéreas; em outras, o acúmulo aparecia no próprio tecido do pulmão. Essa diferença levanta perguntas novas sobre o trajeto que a partícula percorre depois de inalada.

O que se sabe é que microplástico presente no ambiente pode entrar no organismo pelo ar. O que ainda não se sabe é quanto tempo ele permanece nos pulmões, de que maneira é eliminado e que efeitos biológicos consegue produzir.

O resultado, porém, exige interpretação cuidadosa. Encontrar mais plástico em quem tem câncer não significa que o plástico tenha causado o câncer. O estudo não demonstrou nada disso. E também não autoriza a conclusão inversa, de que pessoas com maior quantidade dessas partículas no organismo corram risco maior de desenvolver a doença.

A questão em aberto é a direção dessa relação. O microplástico pode tomar parte em processos que favorecem alteração no pulmão — mas o inverso também é possível: um pulmão já comprometido pela doença talvez retenha com mais facilidade o que foi inalado. O que existe, então, é uma associação a ser testada em investigações maiores, desenhadas para seguir o paciente durante anos. Ter plástico no corpo, sozinho, não prova que ele causou o tumor.

Os cientistas já abriram, de todo modo, uma etapa seguinte do trabalho. Há experimentos em curso para observar de que modo cada tipo de plástico interage com a célula pulmonar, buscando entender que resposta biológica a exposição desencadeia. O grupo também examina amostras de gente que vive com doença respiratória crônica — a comparação deve ajudar a esclarecer se o acúmulo maior é próprio do câncer ou se aparece igualmente em pulmões afetados por outras condições.

Por ora, as 232 partículas encontradas servem como mais uma evidência de que resíduo plástico não fica confinado a oceano, alimento ou objeto descartado. Partícula microscópica pode ser inalada, alcançar as estruturas respiratórias e permanecer no corpo — ainda que o efeito desse acúmulo sobre a saúde continue sob investigação.