A entrada do Rio Grande do Norte no mercado internacional de exportação de bovinos vivos abre uma nova frente comercial para a pecuária do Estado, mas também amplia as exigências sobre vigilância sanitária. A retomada parcial das importações de gado mexicano pelos Estados Unidos, depois de mais de um ano de suspensão provocada pelo avanço da bicheira, mostra como uma ocorrência sanitária pode interromper fluxos comerciais, elevar custos e obrigar governos a reforçar barreiras de controle.
O alerta coincide com a preparação do Porto de Natal para receber operações com animais vivos. O terminal foi habilitado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para esse tipo de movimentação e uma das operações previstas envolve cerca de 3,3 mil bovinos com destino ao Líbano. O governo potiguar pretende ampliar a atividade gradualmente e alcançar até 10% do mercado brasileiro, equivalente a aproximadamente 100 mil animais por ano.

A ampliação coloca no centro da discussão não apenas a capacidade logística do porto, mas a estrutura existente desde as propriedades de origem até o embarque. No Brasil, a exportação de bovinos vivos está submetida a procedimentos definidos pelo Serviço Veterinário Oficial (SVO), formado pelo Mapa e pelos serviços estaduais de defesa agropecuária.
Antes da exportação, os animais precisam passar por Estabelecimentos de Pré-Embarque (EPE), unidades habilitadas pelo Mapa nas quais são reunidos e submetidos aos procedimentos sanitários exigidos pelo país comprador. As regras incluem quarentena, fiscalização veterinária, exames, documentação e identificação dos animais.
No Rio Grande do Norte, a fiscalização também envolve o Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do Rio Grande do Norte (Idiarn). No ponto de saída do País, atua o Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro), responsável pela fiscalização do trânsito internacional de animais e produtos agropecuários e pela prevenção da entrada e disseminação de doenças e pragas.
A regulamentação determina que o EPE disponha de procedimentos para animais doentes ou mortos, isolamento, limpeza e desinfecção, destinação de animais reagentes a testes e contingências excepcionais. Os animais aptos devem seguir em caminhões lacrados até o ponto de saída, acompanhados da Guia de Trânsito Animal (GTA), com controle individual e registros da operação.
Alerta externo
O episódio mexicano oferece uma dimensão econômica do risco. Os Estados Unidos começaram em agosto uma reabertura gradual da fronteira para bovinos mexicanos após mais de um ano de restrições relacionadas à Cochliomyia hominivorax, mosca responsável pela bicheira do Novo Mundo. A doença é provocada quando larvas infestam feridas de animais de sangue quente e se alimentam de tecido vivo.
Segundo a Reuters, o Estado mexicano de Chihuahua havia contabilizado 183 casos confirmados desde julho. Sonora também registrou ocorrências e acionou medidas emergenciais de vigilância e contenção. Casos foram identificados ainda no Texas e no Novo México.
A reabertura americana foi desenhada de forma escalonada. As autoridades mantiveram a possibilidade de interromper novamente a entrada de animais caso o quadro epidemiológico se deteriore. Entre os mecanismos de controle estão inspeções, identificação eletrônica e monitoramento sanitário.
México e Estados Unidos também recorreram à técnica do inseto estéril, que consiste na produção e liberação de grandes quantidades de moscas esterilizadas para reduzir a reprodução do parasita. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) prevê colocar em funcionamento no Texas, em 2027, uma nova unidade para ampliar essa capacidade.
O impacto potencial ajuda a explicar o nível de precaução. Autoridades americanas estimaram que uma disseminação da bicheira poderia provocar perdas de até US$ 1 bilhão somente para a pecuária do Texas. Ao mesmo tempo, a reabertura dos pontos de fronteira poderia permitir ao México exportar até 200 mil bovinos em 2026, movimentando cerca de US$ 420 milhões.
Para o Rio Grande do Norte, a experiência reforça a necessidade de rastrear o animal desde a propriedade de origem. Quanto maior o volume movimentado, maior é a importância de identificar rapidamente por onde passou determinado lote caso uma doença seja detectada.
Controle sanitário
As normas brasileiras já estabelecem mecanismos para esse acompanhamento. Antes da aquisição dos animais, o exportador deve verificar as exigências sanitárias do país de destino. A quarentena é aberta sob fiscalização veterinária e os bovinos permanecem supervisionados enquanto são realizados exames e demais procedimentos exigidos pelo Certificado Zoossanitário Internacional (CZI).
No encerramento, somente animais considerados aptos podem seguir para exportação. A documentação inclui resultados laboratoriais e registros individuais. Durante o transporte terrestre, os caminhões devem permanecer lacrados entre o EPE e o porto, e ocorrências capazes de afetar a certificação ou o bem-estar precisam ser comunicadas imediatamente ao Serviço Veterinário Oficial. Depois de cada operação, instalações devem passar por limpeza e desinfecção.
O crescimento da atividade também abre outra discussão: o bem-estar durante viagens marítimas que podem durar semanas. A organização não governamental Mercy For Animals (MFA), contrária à exportação de animais vivos para abate, afirma que confinamento, calor, umidade, fezes, urina e concentração de amônia podem provocar estresse térmico, problemas respiratórios, lesões e mortes durante o transporte.
George Sturaro, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da entidade, chama atenção ainda para os riscos relacionados às embarcações e às operações portuárias. A organização participa atualmente de uma mobilização pelo fim da exportação marítima de animais vivos, tema que também é objeto de diferentes projetos em tramitação no Congresso Nacional.
Para o Rio Grande do Norte, a questão passa a ser como transformar as exigências previstas nas normas em capacidade operacional compatível com a expansão pretendida. Isso envolve fiscalização das propriedades fornecedoras, controle de trânsito, quarentena, identificação individual, destinação de resíduos, acompanhamento veterinário e planos de contingência.
A habilitação do Porto de Natal abre uma oportunidade comercial, mas o episódio entre México e Estados Unidos demonstra que sanidade animal e comércio exterior são partes do mesmo negócio. Se o Estado pretende chegar a 100 mil bovinos exportados anualmente, a infraestrutura de vigilância terá de crescer na mesma proporção da movimentação. Em mercados de animais vivos, uma falha sanitária não fica restrita à propriedade onde começa: pode fechar fronteiras, interromper contratos e transformar rapidamente um problema veterinário em prejuízo econômico.