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Crédito rural

Agricultura familiar já fica com 72% do crédito rural do RN e movimenta R$ 716,77 milhões em 12 meses

Pronaf cresceu 31% no período, enquanto o conjunto do crédito rural potiguar avançou 9%
Agora RN
03/09/2026 | 19:25

Sete de cada dez reais liberados para o campo potiguar nos 12 meses fechados em julho de 2026 foram para a agricultura familiar. Os números vêm do Banco Central e reúnem contratações feitas tanto em bancos públicos quanto privados: as operações do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) chegaram a R$ 716,77 milhões, ou 72% de tudo o que o Rio Grande do Norte recebeu em crédito rural no período.

No ciclo anterior, o mesmo programa havia movimentado R$ 546,57 milhões. O salto, portanto, foi de 31% — e ocorreu em ritmo bem superior ao do conjunto do crédito rural potiguar.

Agricultor trabalhando em plantação no interior do Rio Grande do Norte
Agricultura familiar absorve a maior parte da demanda por crédito no agro do RN, com a maior fatia dos recursos saindo do Banco do Nordeste. Crédito: José Aldenir

O restante do crédito rural cresceu bem menos. Reunidas todas as modalidades, as concessões no Estado subiram 9% — saíram de R$ 910 milhões e chegaram a R$ 991 milhões. Basta comparar as duas taxas para entender o que aconteceu: a agricultura familiar não apenas puxou a expansão do período como abocanhou uma fatia maior do total.

Esse peso diz alguma coisa sobre a estrutura produtiva do campo no Estado. Dos R$ 991 milhões que o sistema financeiro liberou, a maior parte foi para operações enquadradas no Pronaf — ou seja, o financiamento rural potiguar está concentrado nas linhas desenhadas para o pequeno produtor, e é ali que o dinheiro tem crescido. A distância entre os 31% do programa e os 9% do crédito rural como um todo é a medida desse ganho de participação.

Quem é o agricultor que toma esse dinheiro

A superintendência do Banco do Nordeste (BNB) no Estado localiza esse público: ele está majoritariamente no Pronaf Grupo B, faixa atendida pelo Agroamigo, braço de microfinança rural da instituição.

Duas coisas empurraram as operações para cima, na avaliação do banco. Cresceu o número de produtores atendidos — e, sobretudo, cresceram os limites disponíveis para contratação de financiamento. O segundo fator, segundo a instituição, pesou mais que o primeiro.

“Hoje, uma família devidamente regularizada no Cadastro Nacional da Agricultura Familiar, o CAF, que é o documento oficial de identificação e qualificação do Pronaf B, pode tomar até R$ 69 mil junto ao Agroamigo”, afirma Jeová Lins, superintendente do BNB no Rio Grande do Norte.

O CAF é o cadastro que identifica e qualifica quem tem direito de acessar as políticas públicas destinadas ao segmento. Sem ele regularizado, o produtor não chega ao balcão.

Quanto mais alto o enquadramento, maior o teto. Famílias com renda anual de até R$ 360 mil entram no Pronaf V, cujo financiamento pode alcançar R$ 100 mil. Fora do Agroamigo, o Banco do Nordeste opera ainda o Pronaf A, voltado a quem foi assentado pela Reforma Agrária. O valor sobe até R$ 58 mil, e dentro dele R$ 3 mil ficam carimbados para assistência técnica.

As linhas menores também subiram

Outras modalidades cresceram no período, embora partindo de bases pequenas.

Pelo Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF/FTRA) passaram R$ 4,90 milhões até julho de 2026, contra R$ 3,40 milhões um ciclo antes. A diferença nominal é de R$ 1,5 milhão, algo em torno de 44%.

Em termos proporcionais, quem cresceu mais foi o Funcafé. Os recursos saltaram de R$ 1,80 milhão para R$ 4,50 milhões, um acréscimo de R$ 2,7 milhões — expansão maior, em percentual, que a do crédito fundiário.

Nem um nem outro, porém, chega perto do volume que o Pronaf movimenta no Estado. Apesar do crescimento, crédito fundiário e Funcafé continuam com participação reduzida no bolo do financiamento rural potiguar.

Estiagem de um lado, inadimplência baixa do outro

Todo esse avanço acontece num ambiente que não é fácil. A produção rural do Estado convive com as limitações climáticas do Semiárido, e o Banco do Nordeste avalia que a falta de chuva obriga a investir mais em tecnologias de convivência com o que a região tem de próprio. O crédito, nessa leitura, é justamente o que dá ao produtor condição de investir e de manter a atividade de pé.

Mesmo diante desse cenário, o calote é pequeno. O BNB registra atraso de pagamento em torno de 2% entre quem toma dinheiro pelo Agroamigo — o que, virando a conta do avesso, dá mais de 98% de contratos em dia dentro do braço de microfinança do banco.

“Nossa adimplência com o Agroamigo supera os 98%. O agricultor familiar, como toda pessoa humilde, é um bom pagador. Já disseram que quem tem pouco, gosta de zelar o pouco que tem. E ter o nome limpo é valioso para os agricultores”, diz Lins.

Limites maiores, mais gente atendida e pouca inadimplência: é o encontro desses três fatores que sustenta o avanço do programa no Rio Grande do Norte.

Com R$ 716,77 milhões contratados em um ano, quase três quartos do crédito rural liberado no Estado têm agora um único endereço: a agricultura familiar. É para lá que vai a maior parte do dinheiro que banca a produção no campo potiguar.

Os dados foram publicados na edição desta quinta-feira 3 de O Correio de Hoje: Pronaf concentra crédito rural no RN.