O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Robério Paulino (Psol) defendeu, nesta terça-feira 11, a criação de um amplo programa de industrialização, inspirado em experiências de países como China, Japão e Coreia do Sul. Durante sabatina no Fórum Caminhos do RN, promovido pela Federação das Indústrias (Fiern) e pelo Sindicato das Empresas de Rádio, Televisão, Jornais, Portais e Revistas (Midiacom-RN), o professor universitário afirmou que o poder público deve participar ativamente do planejamento econômico e apoiar o surgimento de empresas potiguares.
“Um dos sonhos meus é fazer um processo profundo de industrialização do nosso Estado”, declarou Robério. Professor da UFRN e economista, ele colocou o fortalecimento da indústria no centro de seu projeto para geração de empregos, ampliação da arrecadação e desenvolvimento regional.

O candidato sustentou que o crescimento do setor de serviços não elimina a necessidade de fabricar bens. “Não tem futuro no País sem indústria. Eu não quero aqui fazer demagogia com os senhores. Não tem. Nós estamos vivendo em uma economia de serviços”, afirmou.
Robério citou processos históricos de industrialização conduzidos com participação estatal. Segundo ele, França, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e China utilizaram planejamento, financiamento público e transferência de tecnologia para desenvolver suas empresas.
“A Alemanha estava muito atrasada e, pela mão do Estado, junto com o empresariado, resolveu se industrializar”, disse. Ele também apontou a China como referência contemporânea. “Não existe empresa, industrialização, economia sem apoio, sem orientação do Estado”, declarou.
Para o candidato, a capacidade chinesa de planejar e estimular setores estratégicos explica parte do avanço econômico do País. “A China está lá na frente e o Ocidente está ficando lá para trás, pela capacidade do Estado chinês de planejar, de impulsionar, de alavancar o desenvolvimento”, afirmou.
Relação com setor privado
Apesar de se apresentar como um político de esquerda, Robério prometeu manter uma relação de diálogo com empresários e entidades produtivas. Segundo ele, a divergência ideológica não impedirá a construção de projetos conjuntos.
“Vocês sabem que eu sou de esquerda. Não tem problema”, disse aos representantes do setor industrial. “Daríamos uma parceria respeitosa com os senhores, de chamá-los todos a conversar, ver quais são os apoios que é possível dar”, acrescentou.
O candidato afirmou que o Rio Grande do Norte não deve daepender exclusivamente da atração de grandes grupos externos. Sua proposta é identificar empresas locais que possam crescer com apoio técnico, infraestrutura, crédito e planejamento.
“Eu não concordo com essa lógica em que nós só podemos estar atraindo empresas de fora. Essa lógica é insuficiente. Nós podemos construir nossas próprias empresas”, declarou.
Robério citou a Toyota como exemplo de companhia que começou pequena e se tornou uma multinacional com o apoio do Estado japonês. Também mencionou Samsung e LG, da Coreia do Sul, para sustentar que empresas potiguares podem crescer quando inseridas em uma política industrial consistente.
“Isso é possível fazer começando com nossas próprias empresas e acabar com essa lógica de que, para industrializar, precisa atrair empresas de fora. Nós podemos fazer nossas próprias empresas, mesmo que comecem pequenas, como a Toyota começou desse tamanho e hoje é a gigante que é”, afirmou.
Uma das propostas é implantar centros industriais modulares em cidades de médio porte. Esses espaços reuniriam galpões menores destinados a novos empreendimentos, que poderiam iniciar a produção sem assumir imediatamente custos elevados com terreno, construção e aluguel.
Robério explicou que as empresas aumentariam suas instalações conforme expandissem a produção. Os polos também poderiam acolher projetos desenvolvidos por estudantes, pesquisadores e pequenos empresários.
“Vamos dar força, vamos fazer centros industriais modulares, para que a empresa comece pequena e vá crescendo”, disse. O governo estadual, segundo ele, ficaria responsável por oferecer a estrutura inicial necessária.
O programa de industrialização seria baseado na substituição de importações. A ideia é identificar produtos consumidos no Rio Grande do Norte, mas fabricados em outros estados, para avaliar quais poderiam ser produzidos localmente.
Robério afirmou que costuma observar a procedência dos itens vendidos nos supermercados. “Eu entro no mercado aqui, no Nordestão, entro no Favorito, onde eu faço compras semanais, e me dou a olhar o rótulo de onde vêm esses produtos. Noventa por cento vêm de fora”, declarou.
O candidato questionou a necessidade de importar mercadorias consideradas simples. “Tem sentido importar pão de queijo? Tem sentido importar água sanitária?”, perguntou. Também citou pizzas congeladas fabricadas em Santa Catarina e vendidas no RN.
“Diversificação industrial” seria, de acordo com Robério, produzir no Estado tudo aquilo para o qual já existem matéria-prima, mercado consumidor e capacidade técnica. “A diversificação teria que ser pela identificação de tudo que pode ser produzido aqui, pelo processo de substituição de importações”, afirmou.
O candidato defendeu o envolvimento das universidades estaduais e federais no projeto. A intenção é reunir pesquisadores, engenheiros, professores e estudantes para desenvolver produtos, tecnologias e processos industriais.
“Nós vamos chamar as universidades todas, tirar essa velha política do governo, fisiológica, de chegar ao Governo do Estado e retalhar as secretarias entre os meus aliados políticos”, declarou. Segundo ele, a estrutura administrativa precisa ser orientada por conhecimento técnico, em vez de ser repartida entre grupos partidários.
Mobilidade elétrica
Na área tecnológica, Robério defendeu que o RN inicie uma produção voltada à mobilidade elétrica. O candidato reconheceu que o Estado talvez não consiga começar fabricando automóveis completos, mas afirmou que pode desenvolver modelos menores, componentes e outras soluções.
Ele citou uma empresa instalada em Parnamirim que teria desenvolvido um pequeno veículo elétrico, mas não encontrou apoio para transformar o projeto em produção industrial. Também recordou o encerramento das atividades da fabricante brasileira Gurgel.
“O Estado brasileiro não dá apoio. Sabe o que o Japão faz com suas indústrias? Dinheiro do Estado para as indústrias. É o que a China faz. Deixou a Gurgel morrer. Isso é coisa de uma estupidez total”, afirmou.
A industrialização da produção agrícola também integra o projeto. Robério criticou o desperdício de frutas pela ausência de fábricas capazes de processar safras de manga e caju.
O candidato recordou um estudo segundo o qual 70% da safra de caju e 50% da produção de manga são perdidas. “Por que não vamos industrializar isso, gente? A Ásia precisando de alimento, faltando merenda escolar, produzir suco, geleias, um monte de coisas com essas frutas que nós já temos. Isso gera emprego”, declarou.
Segundo Robério, o fortalecimento da indústria produziria efeitos sobre os demais setores. “A indústria está no começo da cadeia. Se você aumenta a indústria, você aumenta o comércio, você aumenta os serviços, você gera emprego”, afirmou.