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Defesa

Guerra expõe limites militares dos EUA com orçamento trilionário

Pentágono pede orçamento de US$ 1,5 trilhão para 2027 em meio à necessidade de ampliar a produção e recompor estoques de munições
Por O Correio de Hoje
11/08/2026 | 14:01

O uso intensivo de mísseis na guerra contra o Irã expôs dificuldades dos Estados Unidos para sustentar conflitos prolongados e, ao mesmo tempo, preservar capacidade de resposta diante de adversários como China e Rússia. O Pentágono admite a necessidade de acelerar a produção e pede ao Congresso um orçamento recorde de US$ 1,5 trilhão para 2027.

Ao defender a proposta, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que “a melhor maneira de criar a paz é preparar-se para a guerra”. O plano inclui investimentos em inteligência artificial, operações espaciais, drones e ampliação da indústria bélica. Também prevê recursos para repor equipamentos e munições usados nas operações recentes.

Esquadra EUA
Consumo elevado de mísseis no Irã pressiona estoques americanos - Foto: Reprodução / Internet

O orçamento solicitado supera a soma dos gastos militares dos oito países seguintes no ranking mundial, segundo Benjamin Freeman, diretor do programa de Democratização da Política Externa do Instituto Quincy. Para ele, a dificuldade não está apenas no volume de recursos, mas na forma como o dinheiro é direcionado. “Os planejadores militares não têm aplicado esses recursos de forma adequada em iniciativas que realmente contribuam para a segurança dos EUA e de aliados”, disse.

Parte do problema remonta ao período posterior à Guerra Fria. Com o fim da União Soviética, os Estados Unidos e seus aliados reduziram estoques e adaptaram suas forças a operações menores contra governos hostis e grupos armados. Linhas industriais foram fechadas ou mantidas em baixo ritmo, com encomendas incompatíveis com guerras convencionais de longa duração.

A anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, e a invasão da Ucrânia, em 2022, mostraram que conflitos de alta intensidade exigiriam grandes volumes de munições. O abastecimento de Kiev passou a disputar espaço com a preservação dos arsenais dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte, enquanto a Rússia direcionou sua indústria para a guerra e recebeu apoio do Irã e da Coreia do Norte.

A pressão aumentou com a ofensiva americana contra o Irã. Cálculos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais indicam que o estoque de interceptadores Patriot caiu de aproximadamente 2.330 unidades antes da guerra para uma faixa entre 759 e 827 em 27 de julho. A recomposição poderá se estender até 2029, enquanto os mísseis de cruzeiro Tomahawk podem levar de quatro a cinco anos para retornar ao patamar anterior.

A guerra também evidenciou o desequilíbrio de custos provocado pelos drones. Aeronaves não tripuladas de baixo preço podem exigir interceptadores avaliados em milhões de dólares. Relatório do Centro para uma Nova Segurança Americana já alertava, em 2025, que o país não estava preparado para enfrentar ataques em massa e que a China caminhava para formar a maior e mais avançada frota de drones do mundo.

A reposição não depende apenas da aprovação de mais recursos. A expansão exige fábricas, equipamentos, trabalhadores especializados e fornecedores capazes de elevar a produção de componentes. “Não basta simplesmente destinar mais recursos à compra de mísseis”, afirmou ao O Globo o coronel da reserva Paulo Filho, mestre em Ciências Militares.

Hegseth argumenta que o orçamento evitará “deficiências críticas” no pagamento de militares, na reposição de munições e na continuidade das operações. Freeman, porém, avalia que o aumento das despesas não compensa uma política externa baseada em intervenções sucessivas. “Quando se travam guerras por opção, fica-se menos preparado para guerras por necessidade”, afirmou.