Um estudo publicado nesta sexta-feira na Revista Bioética revelou que 92% dos médicos jovens brasileiros afirmam não concluir a graduação preparados para comunicar más notícias aos pacientes. A pesquisa, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também mostrou que quase quatro em cada dez profissionais não receberam treinamento específico sobre esse tipo de comunicação durante a formação acadêmica.
O levantamento ouviu 2.418 médicos candidatos a programas de residência da Unifesp. Os participantes tinham idade média de 27 anos e responderam a um questionário cerca de uma hora antes da prova. Do total, 48,7% haviam se formado em universidades públicas, 51,3% em instituições privadas e 37,5% já tinham realizado outro programa de residência, acumulando maior experiência na prática médica.

Os resultados apontam que apenas 61,2% relataram ter recebido aulas sobre comunicação de más notícias durante a graduação e 61,8% disseram ter participado de treinamentos específicos sobre o tema.
“A má notícia nunca vai virar uma boa notícia, mas existem formas de acolher e de ajudar esse paciente, de forma compassiva, a enfrentar aquele problema e aquela condição que ele vai vivenciar”, afirma Daniel Alveno, fisioterapeuta, professor universitário e um dos autores da pesquisa, que atua há cerca de 15 anos com cuidados paliativos na Unifesp, em entrevista à Agência Bori.
A pesquisa também identificou que 83,9% dos entrevistados consideram que a comunicação de más notícias deve envolver outros profissionais da saúde, como psicólogos e enfermeiros. Apesar disso, apenas 3,6% afirmaram nunca ter precisado transmitir esse tipo de informação durante a atuação profissional.
No artigo científico, os pesquisadores afirmam que os resultados evidenciam deficiências na formação médica.
“Os achados deste estudo reforçam a existência de lacunas na formação médica quanto à comunicação de más notícias, evidenciadas pela ausência de treinamento específico na graduação e pela percepção generalizada de que os profissionais não concluem sua formação devidamente preparados para essa prática. (…) Diante desses achados, destaca-se a necessidade de reformulação dos currículos médicos de modo que incluam treinamento estruturado em comunicação de más notícias, com abordagem tanto de aspectos técnicos quanto emocionais”, defendem os autores.
Outro dado que chamou a atenção foi uma contradição entre a percepção dos participantes como médicos e como pacientes. Quase 99% afirmaram que, se estivessem do outro lado da consulta, gostariam de receber diretamente todas as informações sobre seu estado de saúde, sozinhos ou acompanhados por um familiar, e mais de 90% disseram preferir uma comunicação completa. Ainda assim, mais de 30% admitiram que concordariam com a chamada “conspiração do silêncio”, prática em que informações são omitidas do paciente a pedido da família.
“Não adianta ter conhecimento se não souber fazer esse conhecimento chegar ao paciente. Isso também precisa ser ensinado. Não é um dom, algo inato. Estudar tecnicamente comunicação é parte da formação como profissional de saúde”, acrescenta Daniel Alveno.