Um estudo apresentado no Congresso Internacional de Obesidade (ICO 2026), promovido pela Federação Mundial de Obesidade (WOF), associou o consumo de alimentos ultraprocessados ao aumento de casos de doenças cardiovasculares e mortes no Canadá. Publicada na revista científica The American Journal of Preventive Medicine, a pesquisa estima que esses produtos estiveram relacionados a pelo menos 25% dos óbitos por doenças cardíacas registrados em um ano no país.
Segundo os pesquisadores, embora os números possam variar entre as populações, resultados semelhantes podem ser observados em outros países de alta renda, onde os alimentos ultraprocessados representam parcela expressiva da dieta da população.

“O consumo de alimentos ultraprocessados pode ser um fator substancial e potencialmente evitável que contribui para a carga de doenças cardiovasculares no Canadá. Essas descobertas reforçam a necessidade de intervenções clínicas e de saúde pública voltadas para a redução da ingestão de alimentos ultraprocessados como um componente fundamental da prevenção de doenças cardiovasculares”, afirmam os autores.
Para chegar às estimativas, a equipe utilizou um modelo computacional baseado em informações sobre hábitos alimentares e registros de mortalidade de canadenses com mais de 20 anos.
Os pesquisadores verificaram que, em 2015, os alimentos ultraprocessados representavam 43% da ingestão diária de energia entre adultos canadenses. Com base em um método de avaliação comparativa de risco, o estudo estimou que entre 23% e 38% de todos os eventos cardiovasculares registrados em 2019 estiveram relacionados ao consumo desses produtos.
Esse percentual corresponde a aproximadamente 58,2 mil a 96 mil novos casos de doenças cardiovasculares, incluindo doença coronariana e acidente vascular cerebral (AVC), além de 10,6 mil a 17,4 mil mortes e entre 235,8 mil e 388,7 mil anos de vida perdidos por incapacidade.
Os pesquisadores também simularam o impacto de uma redução de 50% no consumo de alimentos ultraprocessados. Segundo as estimativas, essa mudança poderia ter evitado entre 27,3 mil e 45,9 mil novos casos de doenças cardiovasculares, de 5 mil a 8,3 mil mortes relacionadas a essas doenças e entre 110,9 mil e 185,2 mil anos de vida perdidos por incapacidade apenas em 2019.
“Nossos resultados indicam um forte potencial de mudança nos padrões alimentares para prevenir e melhorar os desfechos cardiometabólicos. Ensaios semelhantes poderiam investigar até que ponto a redução da ingestão de alimentos ultraprocessados na dieta poderia reverter ou prevenir precursores e fatores de risco de doenças cardiovasculares, incluindo hipertensão, colesterol alto, diabetes e obesidade”, destacam os autores.
Como exemplo de políticas públicas para reduzir o consumo desses produtos, os pesquisadores citam a experiência do México, onde a adoção de um imposto de 10% sobre bebidas açucaradas foi associada a uma redução de 6,3% no consumo de alimentos ultraprocessados.