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Saúde

Canetas exigem atenção em idosos

Pesquisa com cerca de 55 mil pessoas acima de 65 anos indica maior ocorrência de desnutrição, desidratação e perda de massa muscular entre usuários do medicamento
Por O Correio de Hoje
20/07/2026 | 17:57

Um estudo realizado nos Estados Unidos identificou que idosos em tratamento com tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, apresentaram maior frequência de sinais de fragilidade, como desnutrição, desidratação, perda de massa muscular e redução da força física. Segundo os pesquisadores, essas condições estiveram associadas a maior risco de hospitalização, internação em unidades de terapia intensiva (UTI) e morte, principalmente entre pacientes de idade mais avançada.

A pesquisa foi conduzida por uma empresa norte-americana de análise de dados e publicada na plataforma Preprints.org, onde ainda aguarda revisão por pares. Os pesquisadores analisaram registros de aproximadamente 55 mil adultos com 65 anos ou mais. Desse total, cerca de 30 mil utilizavam tirzepatida para tratamento da obesidade, quase 19 mil faziam uso de medicamentos para diabetes tipo 2 que não pertencem à classe dos agonistas do GLP-1 e aproximadamente 6 mil haviam sido submetidos à cirurgia bariátrica.

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Pesquisadores agora defendem monitoramento do estado nutricional, da força muscular e da hidratação de idosos em tratamento com as chamadas “canetas emagrecedoras” - Foto: Magnific

A análise dos prontuários apontou redução progressiva da massa e da função muscular em 0,16% dos pacientes, desnutrição em 1,6%, desidratação em 3% e perda de apetite em 4,75%. Os pesquisadores observaram que a probabilidade desses eventos aumentava conforme a idade avançava, especialmente entre pessoas com múltiplas doenças associadas e perdas de peso superiores a 20% do peso corporal.

Embora esses problemas tenham sido registrados em todos os grupos avaliados, os pesquisadores verificaram que os pacientes tratados com tirzepatida apresentaram maior risco de evolução desfavorável quando desenvolveram essas condições. Entre os usuários do medicamento que apresentaram desnutrição, por exemplo, o risco de morte relacionado ao quadro foi aproximadamente 25 vezes maior durante os 18 meses de acompanhamento em comparação com pacientes que utilizavam tirzepatida, mas não desenvolveram desnutrição.

Nos pacientes que utilizavam outros medicamentos para diabetes, a desnutrição esteve associada a um aumento de aproximadamente sete vezes no risco de morte. Entre aqueles submetidos à cirurgia bariátrica, esse aumento foi de cerca de duas vezes.

Resultados semelhantes foram observados em relação à desidratação. Entre os usuários de tirzepatida que desenvolveram esse problema, o risco de morte foi cerca de seis vezes maior. O índice chegou a quatro vezes entre usuários de outros medicamentos para diabetes e a aproximadamente duas vezes e meia entre pacientes que haviam realizado cirurgia bariátrica.

A perda de massa muscular também apresentou impacto importante. Segundo a pesquisa, idosos em uso de tirzepatida que desenvolveram esse quadro tiveram risco de morte aproximadamente 12 vezes maior. Entre usuários de outros medicamentos para diabetes, o aumento foi de cerca de seis vezes, enquanto nos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica o risco dobrou.

Os pesquisadores observaram ainda que os riscos de hospitalização e de internação em UTI seguiram tendência semelhante, com maior probabilidade entre os pacientes tratados com tirzepatida que apresentaram sinais de fragilidade.

Apesar dos resultados, os autores ressaltam que essas complicações ocorreram em uma pequena parcela dos pacientes analisados e afirmam que o estudo não deve ser interpretado como motivo para interromper ou contraindicar o uso do medicamento em idosos.

Segundo os pesquisadores, os dados também não permitem concluir que a tirzepatida seja a causa direta desses desfechos. Eles avaliam que os sinais de fragilidade podem refletir doenças pré-existentes, redução da reserva fisiológica do organismo ou ingestão insuficiente de nutrientes durante o processo de perda de peso.

Ainda de acordo com o estudo, os primeiros sinais de fragilidade surgiram, em média, cerca de seis meses após o início do tratamento. Os autores defendem que pacientes idosos em uso da medicação sejam acompanhados de forma mais rigorosa para monitorar o estado nutricional, a força muscular e a evolução clínica.

As pesquisas foram financiadas por sistemas de saúde, investidores institucionais e empresas de capital de risco, sem participação de fabricantes de medicamentos.

A tirzepatida pertence à classe dos agonistas dos receptores GLP-1 e GIP, conhecida popularmente pelas chamadas “canetas emagrecedoras”. O medicamento promove perda de peso que pode ultrapassar 20% do peso corporal, além de contribuir para o controle da glicemia, apresentando resultados superiores aos da semaglutida em alguns estudos comparativos sobre redução de peso.