A indústria brasileira passou a projetar queda das exportações nos próximos seis meses, em um movimento inédito em 2026. O resultado aparece na Sondagem Industrial divulgada nesta terça-feira 23, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e reflete a crescente preocupação dos empresários com o ambiente externo, especialmente após a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros.
O índice de expectativa de quantidade exportada recuou de 51,2 pontos em maio para 49,7 pontos em junho, cruzando a linha dos 50 pontos que separa perspectivas de crescimento e retração. Trata-se da primeira vez neste ano que o indicador aponta expectativa de redução das vendas externas da indústria. Como os Estados Unidos são o principal destino dos produtos manufaturados brasileiros, a possibilidade de elevação de barreiras comerciais passou a influenciar diretamente o sentimento dos empresários.

“Embora a taxação proposta ainda não esteja confirmada, a possibilidade de isso ocorrer mexe com as expectativas dos empresários em relação às exportações, uma vez que os Estados Unidos são o principal destino dos produtos industriais brasileiros”, afirmou Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI.
A deterioração das expectativas não ficou restrita ao mercado externo. Os índices relacionados à demanda doméstica e à compra de insumos também registraram queda em junho. O indicador de expectativa de demanda por produtos industriais passou de 53,4 para 52,7 pontos, enquanto o índice de compra de matérias-primas caiu de 52,6 para 51,7 pontos. Apesar do recuo, ambos permanecem acima da linha de 50 pontos, indicando que os empresários ainda projetam crescimento da atividade, embora de forma mais moderada do que nos meses anteriores.
A cautela também se refletiu nos planos de investimento. O índice de intenção de investimento recuou 1,3 ponto, passando de 54,8 para 53,5 pontos. O resultado interrompe a recuperação observada em maio, quando o indicador havia avançado 1,1 ponto. Ainda assim, a intenção de investir segue acima da média histórica da série, mantendo-se 0,9 ponto superior ao padrão observado ao longo dos anos.
Por outro lado, as expectativas para o mercado de trabalho permaneceram praticamente estáveis. O índice de expectativa de número de empregados passou de 50,4 para 50,5 pontos, sugerindo uma perspectiva moderada de contratação nos próximos meses. O resultado indica que, apesar da piora do cenário externo, as empresas ainda não projetam mudanças significativas em seus quadros de pessoal.
Os dados sobre o desempenho recente da atividade industrial, contudo, continuam mostrando um ambiente de crescimento limitado. Em maio, o índice de evolução da produção industrial subiu 2,2 pontos e atingiu 48,9 pontos. Apesar da melhora em relação a abril, o indicador permaneceu abaixo da linha de 50 pontos, sinalizando retração da produção. Nos cinco primeiros meses de 2026, a indústria registrou expansão apenas em março.
O mercado de trabalho industrial apresentou comportamento semelhante. O índice de evolução do número de empregados caiu 0,3 ponto, para 48,4 pontos, indicando redução do quadro de trabalhadores em relação ao mês anterior. O indicador permanece abaixo dos 50 pontos há 16 meses consecutivos, evidenciando uma trajetória prolongada de ajuste no emprego industrial.
A utilização da capacidade instalada mostrou leve recuperação. O indicador passou de 68% para 69% em maio, avanço de um ponto percentual em relação ao mês anterior. Apesar da alta, o nível de ocupação das fábricas continua abaixo do registrado no mesmo período de 2025, sinalizando que ainda existe capacidade ociosa relevante em parte da indústria brasileira.
Outro dado acompanhado pelo setor é o nível de estoques. O índice que compara os estoques efetivos com os planejados pelos empresários avançou de 48,9 para 49,4 pontos. O resultado mostra aproximação do patamar considerado adequado pelas empresas, embora os estoques ainda permaneçam ligeiramente abaixo do nível desejado.