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Editorial

Populismo de curto prazo, custos de longo alcance

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 23
Editorial
23/06/2026 | 05:42

A aprovação, na Câmara dos Deputados, da proposta que reduz a jornada semanal de trabalho e extingue a escala 6×1 é mais um retrato preocupante da forma como parte da classe política brasileira vem conduzindo temas complexos e de profundo impacto econômico. Em vez de um debate técnico, amplo e responsável, o que se viu foi a transformação de uma discussão legítima sobre qualidade de vida do trabalhador em uma bandeira de forte apelo eleitoral, aprovada sob a lógica do aplauso imediato e da repercussão política.

Ninguém discute que jornadas exaustivas devam ser objeto de reflexão. Nenhuma sociedade moderna pode ignorar questões relacionadas ao equilíbrio entre trabalho, descanso, saúde mental e convivência familiar. O problema está na maneira como se pretende alcançar esse objetivo.

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Populismo de curto prazo, custos de longo alcance - Foto: Freepik

A economia opera sob regras que independem dos discursos políticos. Se um trabalhador passa a trabalhar menos horas recebendo a mesma remuneração, o custo da hora trabalhada aumenta. Em determinados setores, especialmente aqueles que exigem funcionamento contínuo, a conta aparece imediatamente. Empresas precisam contratar mais funcionários, reorganizar escalas ou absorver despesas adicionais. Quando isso não é possível, o resultado costuma ser conhecido: redução de vagas, aumento de preços, informalidade ou fechamento de negócios.

Os estudos apresentados até agora apontam justamente nessa direção. No Rio Grande do Norte, levantamento do Instituto Fecomércio RN e da Confederação Nacional do Comércio projeta impacto anual de R$ 3 bilhões sobre as empresas potiguares. A mesma análise estima a possível eliminação de 7.800 empregos formais e aumento de preços de até 13%. São números que mereceriam, por si só, uma discussão muito mais cautelosa do que a observada até aqui.

Mas os impactos não se limitam ao setor privado. Um novo estudo apresentado por entidades municipalistas amplia ainda mais a dimensão do problema. A Confederação Nacional de Municípios estima que as prefeituras precisarão contratar cerca de 25,8 mil novos servidores, gerando impacto direto de R$ 1,5 bilhão. Outro levantamento, elaborado para a Frente Nacional dos Prefeitos, projeta custos adicionais que podem alcançar R$ 34,5 bilhões para os municípios brasileiros.

A situação também preocupa estados e empresas estatais. Áreas como saúde, segurança pública, limpeza urbana, transporte coletivo, vigilância e atendimento ao cidadão dependem de funcionamento permanente. Menos horas de trabalho significam necessidade de reforço de equipes ou aumento dos gastos com terceirizações. Em um país que já enfrenta graves desequilíbrios fiscais, déficits recorrentes e crescimento contínuo da dívida pública, parece difícil compreender como mais essa despesa será absorvida sem consequências futuras.

O aspecto mais inquietante é que boa parte dos defensores da proposta evita enfrentar essa questão central. Afinal, quem pagará essa conta? Empresas repassarão custos aos preços. Governos ampliarão despesas. Em última instância, o custo recairá sobre a própria sociedade, seja como consumidor, contribuinte ou trabalhador.

A discussão também ignora uma característica fundamental da economia brasileira: sua baixa produtividade. Países que conseguiram reduzir jornadas de maneira sustentável normalmente percorreram um caminho diferente. Primeiro aumentaram produtividade, qualificação profissional, inovação e competitividade. Depois passaram a distribuir os ganhos obtidos. O Brasil, ao contrário, tenta frequentemente inverter essa lógica, apostando que a mudança legal produzirá resultados econômicos que ainda não foram construídos na realidade.

Há ainda um aspecto social raramente abordado. Em um país onde os salários médios permanecem baixos e onde milhões de famílias enfrentam dificuldades para fechar as contas no fim do mês, é razoável imaginar que muitos trabalhadores utilizarão o tempo livre adicional para buscar outra fonte de renda. Em vez de mais lazer, qualificação ou convivência familiar, o resultado pode ser mais informalidade, mais bicos e mais jornadas fragmentadas. Ou seja, exatamente o oposto do objetivo que inspira a proposta.

A Câmara dos Deputados, infelizmente, parece ter preferido o caminho mais fácil. Em vez de enfrentar discussões estruturais sobre produtividade, educação, qualificação profissional, simplificação tributária e melhoria do ambiente de negócios, optou por aprovar uma medida de forte apelo popular, mas cercada de dúvidas quanto às suas consequências práticas.

Resta agora ao Senado Federal a responsabilidade de promover uma análise mais profunda e menos contaminada pelo calendário político. O ideal seria que a discussão incorporasse mecanismos de transição, negociações setoriais, acordos coletivos e vinculação gradual a ganhos efetivos de produtividade. Caso contrário, o risco é que prevaleça apenas a lógica do populismo legislativo.

O Brasil precisa melhorar as condições de trabalho de sua população. Mas também precisa gerar riqueza, ampliar produtividade e criar empregos. Sem isso, toda promessa de progresso social corre o risco de se transformar apenas em mais uma boa intenção produzindo efeitos contrários aos desejados. O desenvolvimento de uma nação exige responsabilidade, planejamento e coragem para tomar decisões difíceis. Infelizmente, não foi isso que a Câmara demonstrou ao conduzir esse debate.