Três décadas após revolucionar a animação e redefinir os rumos da Pixar, a franquia Toy Story retorna aos cinemas com uma proposta que dialoga diretamente com uma transformação vivida pelas novas gerações: a crescente presença das telas na infância. Em “Toy Story 5”, a saga dos brinquedos ganha uma nova camada ao explorar o impacto da tecnologia sobre o universo das brincadeiras, sem abandonar os personagens que se tornaram parte da memória afetiva de milhões de espectadores ao redor do mundo.
A ideia que deu origem ao novo longa surgiu a partir de uma observação simples, mas carregada de significado para os roteiristas. Bonnie, a menina que herdou os brinquedos de Andy ao final de “Toy Story 3”, agora vive em uma realidade diferente daquela que moldou os primeiros filmes da franquia. Em seu quarto, há um tablet.

Foi justamente essa presença cotidiana da tecnologia que serviu como ponto de partida para a nova narrativa. “Havia um tablet no quarto de Bonnie. E foi a partir dessa imagem — simples, corriqueira, quase inevitável — que Toy Story 5 começou a tomar forma dentro da Pixar”, explicou Lindsey Collins, produtora do filme.
Segundo ela, a equipe criativa buscava entender quais seriam os novos desafios enfrentados pelos brinquedos em um mundo profundamente transformado pela tecnologia. “Quando pensamos no que é novo no mundo para os brinquedos, o que eles estão enfrentando, a resposta óbvia era a tecnologia. Isso nos deu um ponto de entrada imediato para a história”.
A escolha, porém, trouxe uma responsabilidade adicional. Toy Story não é apenas uma franquia de sucesso. Trata-se do projeto que ajudou a construir a identidade da Pixar desde o lançamento do primeiro filme, em 1995.
“Toy Story é o DNA do estúdio”, resume Collins. “Somos os maiores protetores dessas histórias, os que sentimos mais amor por elas. Há pessoas trabalhando neste filme que trabalharam nos outros quatro”.
No novo longa, Bonnie aparece como uma das poucas crianças de sua vizinhança que ainda mantém uma relação próxima com os brinquedos tradicionais. Ao seu redor, a realidade já é dominada por dispositivos digitais.
A mudança se intensifica quando ela recebe Lilypad, um tablet interativo desenvolvido para crianças. Pouco a pouco, o novo aparelho passa a ocupar o espaço antes reservado a Woody, Buzz Lightyear, Jessie e os demais brinquedos, que observam com preocupação a transformação dos hábitos de sua dona.
A presença de Lilypad cria um dos principais conflitos da história. No entanto, a produção afirma que o objetivo nunca foi transformar a tecnologia em uma antagonista simplista.
“Não estamos dizendo que a tecnologia deveria desaparecer. Tratamos Lilypad como um personagem. Ela tem falhas, tem um arco. Temos que nos importar com ela ao final. Esse sempre foi o objetivo: não pregar, mas contar uma história”, contextualiza Collins.
Essa abordagem permitiu que a equipe desenvolvesse uma narrativa mais complexa, evitando discursos moralizantes sobre o uso de tecnologia por crianças. Em vez disso, o filme busca refletir sobre o equilíbrio entre os recursos digitais e a imaginação infantil.
“A imaginação e o tempo de brincar são a resposta”, afirma a produtora. “Tentamos criar uma representação realmente bonita disso no filme, porque acreditamos que é o que a tecnologia está sufocando”.
Além da discussão sobre tecnologia, Toy Story 5 promove uma mudança importante na estrutura narrativa da franquia. Pela primeira vez, Jessie assume o papel de protagonista principal. Introduzida em “Toy Story 2”, a personagem sempre teve grande relevância emocional dentro da saga, mas nunca ocupou o centro absoluto da história. Agora, a Pixar aposta em aprofundar sua trajetória.
“Jessie merecia essa história. Este filme é, de certa forma, uma peça complementar de Toy Story 2 para ela — e eu acho que damos a ela a resolução que faltava”, afirma Collins.
A decisão também está ligada à renovação das equipes criativas do estúdio. A codiretora McKenna Harris pertence a uma geração que cresceu assistindo aos filmes da franquia e que possui uma relação afetiva particular com Jessie. Segundo Collins, essa nova perspectiva influenciou diretamente a construção da narrativa.
“A codiretora McKenna Harris, que comanda o filme ao lado de Andrew Stanton, cresceu assistindo a Toy Story 2. Ela chegou à Pixar por causa de Jessie. Isso traz uma perspectiva completamente diferente. Quase como uma ‘ficção de fã’ bem fundamentada”.
Apesar do foco em Jessie, os personagens clássicos continuam presentes. Woody retorna à história mesmo após o encerramento aparentemente definitivo de seu arco narrativo em “Toy Story 4”. Buzz Lightyear também integra a nova aventura.
Para a produtora, a volta dos personagens não representa uma revisão das decisões anteriores, mas uma oportunidade de explorar como eles continuam evoluindo ao lado do público.
“Os personagens envelhecem junto com cada geração de público. Cada criança tem sua versão diferente deles”.
Nos bastidores, Toy Story 5 também simboliza uma mudança geracional dentro da própria Pixar. Hoje, parte da equipe responsável pelo filme cresceu assistindo aos capítulos anteriores da franquia.
“Agora temos gerações dentro do estúdio que chegam aqui como fãs da franquia”, diz Collins. “Isso traz uma energia que nós, que estamos há 30 anos aqui, não temos mais da mesma forma. A piada do Woody ficando careca? Veio de um artista de 25 anos”.
A tecnologia representada por Lilypad também trouxe desafios inéditos para os animadores. Segundo Collins, cada cena envolvendo o tablet exigiu um processo duplo de animação: uma etapa para o aparelho em si e outra para todos os elementos exibidos em sua tela.
“Foi muito trabalho”, admite Collins. “E depois ainda tivemos que pensar no que é divertido narrativamente quando você tem um dispositivo que conecta lugares. Os brinquedos odeiam a tecnologia, mas e se ela puder ser útil para alguém tentar voltar para Bonnie?”.
A solução encontrada pela equipe foi utilizar a própria tecnologia como elemento narrativo, ampliando as possibilidades de aventura dos personagens sem transformá-la em uma ameaça absoluta.
Ao mesmo tempo, o filme investe em sequências visuais voltadas à imaginação de Bonnie. Essas cenas apresentam uma estética inspirada em linguagens visuais contemporâneas da animação, aproximando-se da liberdade criativa vista em produções como “Homem-Aranha no Aranhaverso”.
O resultado é um Toy Story que busca dialogar com os dilemas da infância atual sem abandonar os temas que sempre definiram a franquia: amizade, pertencimento, crescimento e a relação afetiva entre crianças e brinquedos. Trinta anos após seu surgimento, a série criada pela Pixar volta a questionar qual é o lugar dos brinquedos em um mundo em constante transformação.