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Peptídeos

Peptídeos viram tendência, mas acendem novo alerta

Substâncias divulgadas para longevidade, estética e performance física ganham espaço nas redes sociais, mas Anvisa alerta para riscos e falta de comprovação científica
Por O Correio de Hoje
17/06/2026 | 13:17

A popularização dos peptídeos nas redes sociais, em clínicas de estética e em grupos voltados à longevidade, performance física e emagrecimento tem despertado preocupação entre especialistas e autoridades sanitárias. Apresentados frequentemente como soluções capazes de retardar o envelhecimento, acelerar a recuperação muscular, melhorar a qualidade da pele e promover mudanças na composição corporal, muitos desses produtos vêm sendo comercializados sem aprovação regulatória e sem evidências científicas robustas que comprovem sua eficácia e segurança. As informações constam em reportagem da Folha de S.Paulo.

O tema ganhou ainda mais visibilidade após a divulgação de um vídeo da criadora de conteúdo e divulgadora científica Mari Krüger. Na publicação, que ultrapassou 5,6 milhões de visualizações, a influenciadora utiliza humor para abordar a crescente oferta de peptídeos voltados para fins estéticos e de performance. Segundo ela, o objetivo foi chamar atenção para os riscos envolvidos no uso indiscriminado dessas substâncias.

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Popularização de peptídeos sem aprovação regulatória preocupa especialistas e autoridades sanitárias - Foto: Freepik

“Eu fiz o vídeo em um formato que já é conhecido no meu perfil que é o dos Anjos e Deus, em que eu mostro em tom de humor como as notícias, os absurdos da Terra chegam ao céu. A repercussão desse vídeo foi completamente inesperada. Não é uma bobagem, é um assunto muito sério. A gente trouxe o humor sem tirar a seriedade do assunto para conseguir explicar isso melhor para as pessoas. Esse perigo [do uso indiscriminado] e o quão urgente é falar sobre isso”, diz Mari.

Os peptídeos são moléculas formadas por pequenas cadeias de aminoácidos, os mesmos elementos que constituem as proteínas. A diferença está na complexidade e no tamanho dessas estruturas. Produzidos naturalmente pelo organismo, desempenham funções fundamentais na comunicação celular, na regulação hormonal, na cicatrização, no metabolismo, no crescimento e na resposta imunológica.

“Esses peptídeos, resumindo, funcionam como mensageiros biológicos e enviam uma mensagem para a célula realizar determinada função”, explica Elisa Minami, cirurgiã plástica e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a desenvolver versões sintéticas dessas moléculas para reproduzir ou potencializar funções naturais do organismo. Alguns desses compostos deram origem a medicamentos amplamente utilizados e aprovados por órgãos reguladores em todo o mundo. Entre os exemplos mais conhecidos está a insulina, considerada o primeiro peptídeo descoberto e utilizada no tratamento do diabetes. Outro grupo que ganhou notoriedade nos últimos anos é o dos agonistas do receptor GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, substâncias presentes em medicamentos indicados para diabetes e obesidade. Esses fármacos passaram por extensos testes clínicos antes de receberem autorização para comercialização.

No Brasil, a Anvisa autoriza o uso de medicamentos peptídicos como insulina, semaglutida, liraglutida e tirzepatida, além de cosméticos tópicos que utilizam peptídeos em suas formulações. No entanto, a agência alerta que existe um mercado paralelo composto por substâncias injetáveis e produtos vendidos como suplementos que não possuem aprovação regulatória nem comprovação científica suficiente.

Entre os peptídeos mais difundidos nesse mercado estão GHK-Cu, BPC-157 e TB-500. Essas moléculas são frequentemente anunciadas como capazes de estimular a produção de colágeno, acelerar a cicatrização de tecidos, reduzir inflamações, combater rugas e até reverter sinais do envelhecimento. Contudo, especialistas destacam que a maior parte das alegações está baseada em pesquisas preliminares realizadas em laboratório ou em modelos animais.

Em nota, a Anvisa afirma que esses produtos não possuem regularização para nenhuma finalidade em saúde.

“Estes produtos não estão regularizados na Anvisa em nenhuma categoria, sendo ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético. Produtos como estes não têm qualquer garantia de segurança, origem e composição”, informou a agência.

O GHK-Cu, conhecido como peptídeo de cobre, ilustra bem essa distinção. Embora possa ser utilizado em cremes e séruns para a pele, seu uso injetável não é autorizado devido à falta de estudos que garantam segurança e eficácia. O mesmo ocorre com BPC-157 e TB-500, cujos resultados positivos observados em animais ainda não foram confirmados por pesquisas robustas em seres humanos.

“Embora existam estudos laboratoriais e em animais mostrando resultados interessantes, as evidências clínicas em seres humanos ainda são limitadas. Isso significa que precisamos seguir estudando e informar a nossos pacientes sobre este tipo de medicina sempre com segurança”, diz Patricia Erazo, Coordenadora Científica Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e membro da Federação Ibero Latinoamericana de Cirurgia Plástica (FILACP).

A própria Anvisa reforça que não localizou registros de medicamentos contendo esses princípios ativos.

“Os produtos que se apresentam como ‘peptídeos’ denominados ‘GHK-CU, BPC-157, TB500’, que prometem melhoras estéticas, não se encontram registrados perante a Anvisa. Da mesma forma não foram localizados registros de medicamentos contendo estes princípios ativos. Portanto, não há informações sobre a segurança de uso desses supostos produtos”, afirmou o órgão.

A agência também esclarece que produtos aplicados por injeção não podem ser classificados como cosméticos.

“Apesar de suposta finalidade estética, esses produtos também não são cosméticos. Produtos cosméticos são unicamente para uso externo. Não existem cosméticos injetáveis e se o produto for oferecido desta forma, trata-se, com certeza, de produto irregular”, acrescentou a Anvisa.

Os especialistas alertam que a ausência de regulamentação representa mais do que uma questão burocrática. Ela indica que os benefícios alegados ainda não superaram, cientificamente, os riscos potenciais envolvidos.

“Os riscos dos injetados são muito sérios. Pode haver contaminação, reação inflamatória ou infecção. A pessoa não sabe usar a dose certa, então usa a dose errada e também há ausência de estudos robustos e segurança. Por isso são ilegais”.