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Disco

Robbie Williams retorna ao Brasil após quase 20 anos

Cantor britânico lança o álbum “Britpop”, conquista o 16º disco no topo das paradas do Reino Unido e fará show único em São Paulo em outubro
Por O Correio de Hoje
03/06/2026 | 13:04

A pós mais de três décadas de carreira, Robbie Williams continua ampliando sua coleção de recordes na música britânica. Aos 52 anos, o cantor voltou ao topo das paradas do Reino Unido com o álbum “Britpop”, consolidando-se mais uma vez entre os artistas mais populares do país. O novo trabalho também marca uma fase de reflexões sobre envelhecimento, fama, tecnologia e legado, temas abordados pelo músico em entrevista ao jornal O Globo.

O lançamento do disco coincide com o anúncio de sua volta ao Brasil. Robbie Williams fará uma apresentação única no país no dia 13 de outubro, no Allianz Parque, em São Paulo. Será o retorno do artista ao público brasileiro após quase duas décadas de ausência. Sua única passagem pelo Brasil ocorreu em 2006, quando se apresentou na Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro.

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Aos 52 anos, Robbie Williams voltou ao topo das paradas britânicas com o álbum “Britpop” - Foto: Reprodução

Mesmo aos 52 anos, Williams afirma não se sentir distante da juventude.

“É muito estranho ainda ter 16 anos, mas também ter a mesma idade que os idosos. Sabe, eu me sinto um adolescente! Meu corpo, obviamente, não. É confuso estar aqui e não me sentir assim. Não tenho medo de envelhecer, estou ficando mais feliz à medida que envelheço”, afirmou.

O título do novo álbum também carrega uma provocação. Embora seja uma das figuras mais conhecidas da música pop britânica, Robbie nunca integrou oficialmente o movimento Britpop, fenômeno cultural dos anos 1990 liderado por bandas como Oasis e Blur.

“Primeiramente, foi porque sou britânico e faço música pop. E também porque eu não fazia parte do movimento Britpop, não me deixaram entrar. É uma provocação, porque sei que haverá homens brancos da minha idade que ficarão irritados por eu ter escolhido chamar meu álbum de ‘Britpop’.”

Antes da carreira solo, Williams ganhou notoriedade como integrante da boy band Take That, um dos grupos de maior sucesso da música britânica. Para ele, os anos 1990 permanecem como um período singular da cultura popular.

“Provavelmente a última década em que as coisas tinham algum significado.”

Segundo o cantor, a velocidade atual do consumo de informação transformou completamente a forma como as pessoas se relacionam com a cultura.

“Tínhamos tempo para absorver as coisas antes que o mundo as esquecesse. Hoje em dia, o mundo passa para a coisa seguinte meio segundo depois. Então, estou muito feliz por ter vivido os anos 1990.”

Ao mesmo tempo, ele reconhece que aquela década também esteve associada aos momentos mais difíceis de sua vida.

“Costumo dizer que eles foram uma ótima época para se ter um tempo ruim. E foi a época que moldou não só a mim, mas também a minha ruína.”

Durante aquele período, Robbie enfrentou problemas relacionados ao consumo de álcool e drogas, uma realidade que marcou parte de sua trajetória após o sucesso meteórico alcançado ainda muito jovem.

Ao analisar a nostalgia que muitos jovens demonstram pelos anos 1990, o artista considera que esse movimento é natural.

“Nos 90, nós pensávamos em como teria sido divertido viver nos anos 60, porque tinha havido uma revolução sexual e as pessoas tinham guitarras. Hoje, os 90 provavelmente parecem estar a 100 anos de distância para esses jovens, em termos de compreensão do que ainda não existia, como a internet.”

O cantor também comentou o fenômeno global do BTS, grupo sul-coreano que se tornou um dos maiores nomes da música pop contemporânea. Embora admire o profissionalismo e o nível de produção da banda, ele diz sentir falta da espontaneidade que caracterizava gerações anteriores.

“Eles são tão refinados, a coreografia é incrível e tão complexa, os visuais são belíssimos, o figurino é impecável… parece que não tem ninguém feio, ou gordo, ou que não saiba cantar ou dançar direito.”

Ao mesmo tempo, faz uma provocação.

“Por um lado, admiro muito a perfeição deles e, por outro, sinto falta de ver as imperfeições. Adoro aqueles três minutos e meio de beleza estonteante, mas depois fico tipo ‘OK, onde estão os humanos?’.”

A busca por uma estética menos idealizada aparece inclusive na capa de “Britpop”. O álbum traz uma releitura artística de uma fotografia feita durante o Festival de Glastonbury, em 1995, quando Williams apareceu com um dente faltando.

“Para mim, é um dos meus momentos mais icônicos!”

Outro tema abordado pelo cantor foi a mudança na forma como administra sua carreira. Williams revelou que, apesar de décadas de sucesso, apenas recentemente passou a assumir maior controle sobre seus negócios.

“Entrei para uma boy band aos 16 anos e fiquei famoso aos 17. Sempre tive meus adultos cuidando de tudo.”

Segundo ele, a transformação ocorreu após refletir sobre sua vida familiar.

“E nunca questionei muito até o ano passado, quando, já com quatro filhos, percebi que precisava entender o que estava acontecendo com meus negócios.”

A partir dessa decisão, passou a acompanhar mais de perto os rumos da própria carreira.

“Nunca sei o que vou fazer no dia seguinte. Sempre acordo e vou direto para onde tenho que ir. Às vezes, nem sei para qual país estou indo! Então, o que estou dizendo é que eu não estava no controle. Mas agora estou!”

Nos palcos, Williams afirma ter encontrado uma razão permanente para continuar criando e se apresentando.

“Parece que tudo o que eu criei está em uma escala gigantesca, algo que jamais teria sido possível para alguém como eu, que vem de onde eu venho, com o talento que eu tenho.”

Ele destaca que sua permanência na indústria da música continua sendo motivo de surpresa.

“O mais incrível é que eu ainda esteja aqui. O mais incrível é que eles colocam minha foto no cartaz, mas mesmo assim o público continua vindo me ver.”

O sucesso recente trouxe outro marco importante. Com “Britpop”, Robbie Williams alcançou seu 16º álbum no topo das paradas britânicas, ultrapassando os Beatles nesse indicador.

“Primeiramente, sinto vergonha. Em segundo lugar, gratidão.”

Para ele, o verdadeiro benefício da fama não está ligado ao aspecto financeiro.

“Entendi que o privilégio do meu sucesso não é necessariamente financeiro, é o tempo que ganhei para mergulhar na expressão de mim mesmo.”

Além da música, Williams afirma que hoje pode se dedicar a outras formas de criação, incluindo pintura, desenho, ensaios e literatura.

O novo álbum também traz uma homenagem a um dos seus grandes ídolos, Morrissey, ex-vocalista do The Smiths. A faixa que leva o nome do cantor foi escrita há vários anos e busca apresentar uma visão diferente sobre o artista.

“Acho que a música em si é uma homenagem ao Morrissey, mas também é a antítese dele. Ela é chiclete, leve e descartável. Acho que ela é importante justamente por não ser importante.”

Segundo Robbie, os dois mantêm contato esporádico por e-mail.

“Tenho estado em contato com Morrissey por email, mas nunca tratamos realmente da música. É apenas uma forma de estar em contato com ele sem passar vergonha.”

Fã declarado de futebol e autor de “Desire”, primeiro hino oficial da Fifa, Williams também comentou a proximidade da Copa do Mundo e a relação emocional que mantém com o torneio.

“Adoro assistir à Copa, mas já fomos decepcionados tantas vezes que é inevitável se perguntar: será que eu, como ser humano, consigo embarcar nessa jornada novamente e me proteger das minhas próprias esperanças e sonhos?”

Apesar das frustrações esportivas, ele acredita que a competição representa uma metáfora da própria condição humana.

“A Copa reflete a condição humana e é fantástica, não importa o que aconteça.”

Ao falar sobre o presente e o futuro, Robbie Williams demonstra fascínio e preocupação com as transformações provocadas pela tecnologia e pela internet.

“Estamos vivendo algo mais importante e grandioso do que a Revolução Industrial.”

Para ele, a humanidade atravessa um momento decisivo.

“Estamos vivos para ver isso, essa era da internet, essa nova evolução do ser humano e a perda simultânea da nossa humanidade… para onde isso vai? Em quem nos transformaremos? Será este o nosso fim?”

Ainda que enxergue elementos distópicos nesse processo, o cantor acredita que há algo extraordinário acontecendo.

“É assustador e distópico, mas, ao mesmo tempo, é fantástico.”

No fim, Robbie prefere voltar sua atenção para aquilo que considera permanente.

“Hoje, nos perdemos em divagações políticas e em nossas posições no espectro das guerras sociais e culturais. Mas aquelas folhas ainda estão verdes, aquela árvore ainda cresce, a chuva ainda cai e depois o Sol aparece. Isso é o que está acontecendo.”