A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de suspender a comercialização de determinados lotes de produtos da Ypê transformou a empresa no mais recente alvo da polarização política no País. A medida, motivada por risco sanitário, desencadeou uma onda de manifestações de políticos e influenciadores conservadores, que acusaram a agência reguladora de agir por motivação ideológica, sem apresentar provas.
A controvérsia ganhou força no fim de semana, quando o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou nas redes sociais um vídeo anunciando parceria com a marca de chinelos Pé Direito, apresentada como uma alternativa “conservadora” às Havaianas.

No vídeo, o parlamentar associou o consumo a uma forma de militância política.
“Hoje, uma das formas mais poderosas de defender aquilo que acreditamos é escolher de quem a gente compra. Porque cada real que você gasta, ou fortalece os seus valores, ou financia quem quer te destruir”, afirmou.
A fala foi divulgada no mesmo momento em que apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a defender a Ypê após a suspensão pela Anvisa. A recomendação da agência federal foi respaldada pelo Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo, órgão subordinado à gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que é adversário do PT.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral indicam que integrantes da família Beira, controladora da empresa, fizeram doações que somaram R$ 1 milhão à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. Entre os doadores está Jorge Eduardo Beira, vice-presidente de operações da companhia.
Além disso, em 2024, a Química Amparo foi condenada pela Justiça do Trabalho por assédio eleitoral após a realização de uma live com o objetivo de influenciar o voto de funcionários em favor de Bolsonaro.
A reação bolsonarista incluiu publicações da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que compartilhou uma foto segurando um detergente da marca acompanhada da frase: “Que dia lindo”.
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) também criticou a atuação da agência. “Quero fazer um desafio para a Anvisa ir na casa de cada brasileiro e fiscalizar as buchas, isso é importante também. Essa empresa, a Ypê, doou para a campanha do Bolsonaro. É só coincidência?”, questionou.
O empresário Luciano Hang, dono da Havan, afirmou em vídeo que se solidarizava com a empresa. “O que eu mais entendo é de perseguição. Não tem um cara mais perseguido que o ‘Véio da Havan’. Cuidado, as eleições estão chegando, e quem está do lado certo vai ser perseguido”, disse, em gravação em que aparece lavando louça com detergente da Ypê.
Nos últimos anos, diversas marcas foram arrastadas para o debate político.
Em dezembro de 2025, um comercial da Havaianas com a atriz Fernanda Torres fez referência à expressão “pé direito”, o que motivou críticas de bolsonaristas.
Em 2024, a Avon foi alvo de ataques após rumores, posteriormente negados, de que teria encerrado parceria com a cantora Jojo Todynho por divergências ideológicas.
No ano anterior, uma campanha da marca Bis com o influenciador Felipe Neto provocou a hashtag #BisNuncaMais, impulsionada por parlamentares conservadores.
A polarização, porém, não se restringe à direita. No início do governo Bolsonaro, empresas como Riachuelo, Centauro e Smart Fit também enfrentaram campanhas de boicote promovidas por setores da esquerda.
Outras marcas, como a Havan e os restaurantes Coco Bambu e Madero, passaram a ser associadas ao bolsonarismo devido ao posicionamento público de seus proprietários, especialmente durante os debates sobre isolamento social na pandemia.