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Música

Rolling Stones voltam às raízes em novo álbum

Foreign Tongues, 25º disco de estúdio da banda, mistura blues, country e rock em um trabalho marcado por nostalgia, urgência criativa e participações especiais
Por O Correio de Hoje
07/05/2026 | 12:29

Em um evento reservado realizado em Nova York para apresentar o novo álbum dos The Rolling Stones, os integrantes Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood falaram menos sobre futuro e mais sobre memória, legado e reencontro artístico. A conversa com o humorista e apresentador Conan O’Brien girou em torno do processo de gravação de Foreign Tongues, 25º disco de estúdio da banda, previsto para chegar ao mercado em 10 de julho.

A noite começou de forma descontraída, com Conan O’Brien comparando o blazer usado por Mick Jagger ao figurino de Willy Wonka. A brincadeira abriu espaço para reflexões sobre envelhecimento, permanência e resistência artística. Aos 82 anos, Jagger comentou como conseguiu preservar a voz após décadas de carreira marcadas pelos excessos dos anos 1960. Segundo ele, hoje o cuidado vocal depende muito mais de disciplina e prática constante.

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Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood falaram sobre memória, raízes e criatividade Foto: Reprodução

A gravação do álbum aconteceu em apenas um mês no Metropolis Studios, em West London. Segundo Jagger, a escolha do local teve relação direta com o ambiente criativo proporcionado pela cidade. “Era um estúdio pequeno em que, olhando à volta, a gente via rostos familiares, bem de perto”, contou o cantor.

O’Brien observou que o novo trabalho transmite sensação de urgência, diferente da longa elaboração que costumava marcar os discos clássicos da banda. Jagger concordou e afirmou que o processo desta vez foi mais direto e intuitivo. Keith Richards também destacou o caráter espontâneo da produção. “Desta vez foi mais espontâneo”, disse Richards. “Nós ouvíamos e decidíamos no momento se a música funcionava ou se crescia dentro da gente.”

Ronnie Wood afirmou que havia uma espécie de “árbitro” dentro do estúdio: o produtor Andrew Watt, responsável também por Hackney Diamonds, álbum lançado pelos Stones em 2023. Watt foi citado pelos músicos como peça central para manter a dinâmica criativa fluindo sem excesso de deliberação.

Durante o evento, Conan O’Brien comparou Foreign Tongues ao clássico Exile on Main St., lançado em 1972. Para o professor de musicologia Victor Coelho, os discos lançados entre 1968 e 1972 — Beggars Banquet, Let It Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main St. — formam o núcleo central da identidade artística dos Rolling Stones.

Foi nesse período que a banda mergulhou de forma mais intensa nas tradições do blues do Delta do Mississippi, do country rural norte-americano e das influências afro-americanas que moldaram sua sonoridade. Segundo Coelho, é justamente essa herança que reaparece em Foreign Tongues mais de seis décadas depois da formação do grupo.

O repertório do novo álbum passeia por blues, country, baladas, rock e faixas com forte influência da música americana tradicional. Jagger citou o cantor Hank Williams como influência permanente e descreveu essa relação como “uma declaração de amor à América”. Ronnie Wood reforçou a ideia dizendo: “Eles nunca esqueceram das raízes.”

As músicas já divulgadas apontam para um disco marcado por contrastes entre euforia sonora e letras sombrias. A faixa Rough and Twisted, lançada anteriormente em edição limitada em vinil, apresenta imagens de paraíso tropical que rapidamente se transformam em cenários de degradação, controle e desencanto. Já In the Stars, divulgada nesta semana, aborda um mundo contaminado por burocracia, opressão e decadência, mas sustentado por melodias vibrantes e refrões coletivos.

A tensão entre crise e prazer, desilusão e dança, aparece como um eixo central do disco — algo que remete diretamente ao período mais influente da trajetória da banda na virada dos anos 1960 para os 1970. Mesmo após mais de seis décadas de carreira, Conan O’Brien observou que os Stones já não precisam provar mais nada como banda de rock. Jagger concordou parcialmente, mas destacou que Foreign Tongues não está preso a um único estilo musical. Segundo ele, o álbum revisita diferentes momentos da própria trajetória da banda.

A capa do disco, criada pelo artista norte-americano Nathaniel Mary Quinn, também reforça essa ideia. A pintura funde os rostos de Jagger, Richards e Wood em uma única figura distorcida e fragmentada. No evento, Quinn definiu a obra como “uma amálgama” da carreira e da “jornada da banda”. Além do trio principal, o álbum reúne participações de peso, incluindo Paul McCartney, Steve Winwood, Robert Smith, da banda The Cure, e Chad Smith, do Red Hot Chili Peppers.

Ronnie Wood contou que Paul McCartney aceitou participar imediatamente do projeto. “Agora posso dizer que toquei com os Stones”, brincou Wood, imitando o ex-Beatle. O disco também inclui uma das últimas sessões gravadas pelo baterista Charlie Watts, que morreu em agosto de 2021. Antes do lançamento oficial, os Rolling Stones promoveram uma campanha misteriosa para divulgar Rough and Twisted.

O single saiu sob o pseudônimo “The Cockroaches”, apelido usado pela banda desde os anos 1970 em apresentações secretas. Apenas mil cópias numeradas em vinil de 12 polegadas foram distribuídas em lojas independentes ao redor do mundo, sem lançamento digital inicial. A ação incluiu cartazes espalhados por Londres, QR Codes, coordenadas geográficas escondidas em sites e vídeos publicados no Instagram pela conta “thecockroaches2026”, acompanhados da frase “64 & Counting”, referência aos 64 anos de atividade da banda.

As cópias se esgotaram rapidamente e passaram a ser revendidas por valores entre US$ 800 e US$ 2.200, reforçando o tamanho do interesse em torno daquele que pode ser mais um capítulo histórico da trajetória dos Rolling Stones.