A proposta do governo federal de elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina abriu uma nova frente de tensão com a indústria automotiva. Entidades que representam montadoras, fabricantes de motocicletas e fornecedores de autopeças passaram a pressionar o governo por testes complementares e por maior debate técnico antes da implementação da medida, prevista para ser analisada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
A mudança, inicialmente prevista para ser deliberada nesta quinta-feira 7, foi adiada para a próxima segunda-feira 11. O objetivo do governo é reduzir a dependência de importação de gasolina em meio à alta internacional dos preços dos combustíveis provocada pela guerra no Oriente Médio. Segundo estimativa da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), o custo de importação da gasolina subiu 61% desde o início do conflito.

O Ministério de Minas e Energia (MME) calcula que a adoção temporária do chamado E32 poderá reduzir em aproximadamente 454 milhões de litros a necessidade de importação de gasolina ao longo de 180 dias, além de diminuir as emissões em cerca de 552 mil toneladas de CO₂. A medida conta com apoio do Ministério da Agricultura e Pecuária e do Ministério do Meio Ambiente.
Apesar disso, o setor automotivo questiona a ausência de validações técnicas para concentrações mais elevadas de etanol. Segundo representantes da indústria, a ampliação para 32% exigiria testes de funcionamento em misturas que alcancem até 34%, considerando as margens de tolerância previstas pelas normas técnicas do setor. Esses ensaios, porém, não teriam sido realizados.
Em carta enviada ao Ministério de Minas e Energia, Anfavea, Abeifa e Sindipeças afirmam apoiar o uso do etanol na gasolina, mas alertam que “teores acima de 30% trazem desafios de engenharia que demandam validação rigorosa, uma vez que a frota circulante não foi desenvolvida considerando elevados teores de biocombustível”. O documento também aponta riscos de desgaste prematuro em mangueiras, vedações e componentes metálicos dos sistemas de combustível.
As entidades afirmam ainda que o aumento da concentração de etanol pode elevar riscos de corrosão e comprometer a durabilidade de equipamentos não projetados para esse padrão de mistura. “Uma vez aprovado o uso do E32, que, considerando a tolerância de especificação, poderá atingir até 34% de etanol no mercado, elevam-se os riscos para as tecnologias dedicadas exclusivamente à gasolina”, diz o ofício encaminhado ao governo.
O diretor da Abraciclo, Sergio Oliveira, afirmou que o setor de motocicletas não foi consultado previamente sobre a mudança. Segundo ele, embora a entidade seja favorável ao uso do etanol, há preocupação com os impactos técnicos sobre veículos movidos exclusivamente a gasolina. Oliveira citou falhas de dirigibilidade observadas em avaliações anteriores do E30, incluindo dificuldades em aceleração e partidas a frio.
Hoje, a frota nacional supera 60 milhões de veículos e motocicletas. Desse total, aproximadamente 12% dos automóveis e 70% das motocicletas utilizam exclusivamente gasolina, segundo dados apresentados pelas entidades do setor.
O governo argumenta que testes com misturas E30 e E32 foram realizados em 2025 pelo Instituto Mauá de Tecnologia, envolvendo veículos leves e motocicletas, tanto flex quanto movidos apenas a gasolina. As associações da indústria, porém, afirmam que os ensaios realizados tiveram foco restrito em desempenho e dirigibilidade, sem incluir avaliações completas de emissões, autonomia e desgaste prolongado para concentrações equivalentes ao E34.
O debate ocorre em um momento em que o Brasil já opera com um dos maiores percentuais de etanol misturado à gasolina no mundo. Nos Estados Unidos, predomina a gasolina E10, enquanto a União Europeia utiliza principalmente E5 e E10. No Mercosul, Argentina e Uruguai operam com misturas próximas a E12 e E10, respectivamente.