O Rio Grande do Norte, estado acostumado a se apresentar como potência em energia renovável, começa a ver parte desse protagonismo escapar justamente no setor em que tem uma de suas maiores vantagens naturais. A energia solar, antes tratada como novo motor de investimentos, emprego e arrecadação, virou alvo de cobrança na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte nesta quarta-feira 6, quando o deputado Neilton Diógenes (PP) afirmou que o RN vive um “apagão” de investimentos e perde força por não conseguir destravar projetos já planejados.
Segundo o parlamentar, o problema não está na falta de sol nem na ausência de interesse privado. Está nos entraves que impedem os empreendimentos de saírem do papel. Neilton Diógenes disse que o Rio Grande do Norte deixou de avançar em 51 projetos de usinas solares, o que teria frustrado cerca de R$ 13 bilhões em investimentos. Para ele, o estado perde dinheiro, empregos, arrecadação e competitividade enquanto outros estados do Nordeste se tornam mais atraentes para o setor.

“Podemos dizer que estamos vivendo um apagão de 13 bilhões de reais de investimento quando se fala de energia solar”, afirmou o deputado. Na avaliação dele, o potencial potiguar poderia se transformar em renda para municípios, reforço de caixa para prefeituras, geração de empregos no interior e melhoria da qualidade de vida da população. O problema, segundo Neilton, é que o estado “devolveu mais do que instalou”.
Dados do setor ajudam a dimensionar a crítica. Levantamento com base em informações da Absolar apontou que o Rio Grande do Norte registrou devolução de 2,8 GW em outorgas de usinas solares fotovoltaicas entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026. O volume supera toda a capacidade de geração solar centralizada atualmente em operação no estado, estimada em 2,1 GW, e representa cerca de R$ 13 bilhões em investimentos frustrados.
A perda chama ainda mais atenção porque o mercado nacional segue em expansão, mesmo enfrentando dificuldades. A Absolar projeta para 2026 R$ 31,8 bilhões em investimentos no setor solar e a criação de 319,9 mil empregos, embora esses números representem queda em relação às expectativas de 2025. A energia solar já acumula no Brasil mais de R$ 300 bilhões em investimentos, mais de 2 milhões de empregos gerados na última década e 68,6 GW de capacidade instalada em operação, segundo dados divulgados pela Agência Brasil com base na associação do setor.
Para Neilton Diógenes, o RN assiste a esse movimento de fora por falta de planejamento e coordenação. O deputado citou gargalos de transmissão, insegurança jurídica, demora no licenciamento, devolução de outorgas e ausência de articulação mais forte entre Governo do Estado, Governo Federal, Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e investidores. “Nós temos o melhor sol, nós temos um grande potencial, mas temos entraves no nosso Rio Grande do Norte”, disse.
O problema da transmissão aparece como um dos pontos mais sensíveis. Reportagem da PV Magazine Brasil mostrou que a Agência Nacional de Energia Elétrica revogou recentemente autorizações de projetos fotovoltaicos com potencial de 3.572 MW, a pedido dos próprios empreendedores. A justificativa mais recorrente foi a falta de margem de escoamento para conexão das usinas, além dos cortes de geração. Em janeiro, a Agência Nacional de Energia Elétrica já havia revogado outorgas de usinas fotovoltaicas em estados como Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Norte por falta de escoamento no Sistema Interligado Nacional.
Essa dificuldade atinge diretamente a lógica de investimento. Sem linha de transmissão suficiente, uma usina pode até ser planejada, licenciada e financiada, mas não consegue entregar plenamente a energia produzida. O resultado é insegurança para o empreendedor e risco de perda financeira. Neilton Diógenes resumiu esse ponto ao afirmar que “não há ninguém que queira investir quando o seu investimento corre risco de não absorver rendimento”.
Outro fator que pesa contra o estado é o chamado curtailment, termo usado para os cortes de geração determinados quando o sistema não consegue absorver toda a energia disponível. Em 2025, o Rio Grande do Norte liderou o ranking de prejuízo estimado com esse tipo de restrição, com perdas de até R$ 2,24 bilhões para geradores de renováveis, segundo dados da consultoria Volt Robotics citados pela Tribuna do Norte. Bahia e Ceará vieram em seguida, com R$ 1,76 bilhão e R$ 849,73 milhões, respectivamente.
Na tribuna, Neilton Diógenes afirmou que a consequência é um “sinal de alerta negativo” ao mercado. Segundo ele, investidores de longo prazo passam a desviar rotas para estados vizinhos, como Paraíba, Pernambuco e Ceará, onde encontram mais segurança, regras mais claras e melhor condição de escoamento. O deputado defendeu que o RN acompanhe o que esses estados estão fazendo para não perder espaço de forma permanente.
Entre as medidas defendidas pelo parlamentar estão a criação de uma legislação estadual para o setor, redução do tempo médio de licenças, maior segurança jurídica, fomento à cadeia produtiva local, incentivos fiscais condicionados à instalação de fábricas e qualificação profissional. Neilton Diógenes também disse que pretende provocar Agência Nacional de Energia Elétrica, Ministério de Minas e Energia e demais órgãos federais sobre a necessidade de linhas de transmissão mais robustas no Rio Grande do Norte.
A cobrança expõe uma contradição incômoda. O RN tem uma das melhores condições naturais do país para produzir energia limpa, mas parte dessa vantagem se perde quando falta estrutura para transformar sol em investimento real. Sem destravar transmissão, licenciamento e segurança regulatória, o estado corre o risco de continuar sendo potência no discurso e perder dinheiro na prática.