BUSCAR
BUSCAR
Atividades

Atividades manuais reduzem estresse

Estudos e relatos mostram que práticas como crochê estimulam o cérebro e promovem relaxamento
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
22/04/2026 | 15:25

Em um cotidiano atravessado por pressa, estímulos constantes e uma sensação permanente de urgência, parar deixou de ser natural. Tornou-se, em muitos casos, uma necessidade negligenciada. É nesse cenário que atividades manuais como crochê, bordado e cerâmica voltam a ocupar espaço — não apenas como passatempo, mas como uma forma concreta de cuidado com a mente.
O movimento é visível, sobretudo entre jovens adultos, que encontram nessas práticas uma alternativa à hiperconexão digital. O que antes era visto como algo doméstico ou artesanal, hoje se revela como um gesto terapêutico.

Do ponto de vista psicológico e neurobiológico, há explicações consistentes para esse efeito. A psicóloga clínica Renata Myrrha aponta que essas atividades ativam um estado de atenção focada semelhante ao observado em práticas de meditação.

croche
Crochê, cerâmica e bordado estimulam o cérebro e ajudam na concentração; artesanato combina foco, criatividade e bem-estar emocional. Foto: Arquivo Pessoal
image
Psicóloga Renata Myrrha

“Do ponto de vista psicológico e neurobiológico, atividades manuais como o crochê promovem um estado de atenção focada e regulação emocional semelhante ao observado em práticas meditativas. A repetição dos movimentos, aliada ao foco no presente, induz um estado de mindfulness espontâneo, reduzindo a ativação do sistema de estresse”, explica.

A resposta do corpo acompanha esse processo. Há redução do cortisol, o hormônio do estresse, e aumento de neurotransmissores como a serotonina, associados ao bem-estar. “O ritmo constante e previsível atua sobre o sistema nervoso autônomo, favorecendo respostas de relaxamento, com redução da frequência cardíaca e da tensão corporal”, afirma.

Em outras palavras, ao repetir um ponto de crochê ou um movimento de bordado, o cérebro encontra uma pausa — uma forma de sair do estado de alerta contínuo. Esse efeito se intensifica em momentos de crise. “Cada vez mais são utilizadas como recurso terapêutico complementar. Em situações de crise, o crochê atua em três níveis: regulação fisiológica, distração cognitiva saudável e sensação de controle”, afirma Myrrha.

Há, portanto, uma reorganização simultânea: o corpo desacelera, a mente encontra foco e o indivíduo recupera uma sensação de previsibilidade — algo raro em contextos de ansiedade.

Na prática, esse impacto é facilmente reconhecido. A jornalista Ester Costa, de 23 anos, descreve a experiência como um contraponto direto à rotina acelerada. “Me sinto em paz. Trabalhar na área de comunicação faz com que o meu cérebro esteja com 200 abas abertas simultaneamente, mas o crochê me permite focar em apenas uma coisa”, conta.

ester
Ester Costa faz crochê

Ela começou a prática em 2024, aprendendo sozinha por meio de vídeos nas redes sociais. “Me ajuda muito, principalmente na minha ansiedade. Faço há dois anos e pretendo levar esse hobby para a vida toda.”

Para ela, o crochê representa também uma forma de resistência. “Estamos vivendo em uma sociedade extremamente capitalista e imediatista, que transforma o nosso tempo em apenas consumo e trabalho. Parar para trabalhar outras habilidades como é possível com o crochê é fundamental para viver”, afirma.

Essa percepção ecoa em outras experiências. A psicóloga Andressa Carvalho, que borda desde a infância, descreve o processo como uma construção emocional e sensorial. “Eu adoro bordar, sinto uma espécie de satisfação quando vejo algo sendo construído com minhas mãos, é muito prazeroso. O bordado também me ajuda a relaxar e já me auxiliou em momentos de ansiedade. Sinto que ele ajuda a centrar e recuperar o foco, manter-se no presente.”

andressa
Andressa Carvalho faz bordado

Há, segundo especialistas, um fator estrutural por trás disso: a repetição. “Tarefas simples oferecem previsibilidade, controle e ritmo. A repetição permite uma espécie de ‘costura psíquica’, na qual o sujeito vai, ponto a ponto, organizando afetos e pensamentos”, explica Myrrha.

A metáfora não é apenas simbólica — ela se materializa no fazer. Cada ponto, cada movimento, cada repetição funciona como uma tentativa de organizar o que, internamente, muitas vezes está disperso.

Na cerâmica, essa relação com o processo ganha outra forma. A estudante Tainan Gomes, de 21 anos, descreve a prática como uma reconexão com o tempo — e com a própria infância.

Tainan
Tainan Gomes faz cerâmica

“É como uma válvula de escape das obrigações de trabalho e da vida adulta como um todo. Parece que volto naquele momento da infância em que era divertido criar por querer, por imaginar, nunca por obrigação.”

“É como uma válvula de escape das obrigações de trabalho e da vida adulta como um todo. Parece que volto naquele momento da infância em que era divertido criar por querer, por imaginar, nunca por obrigação.”

Em um contexto que valoriza produtividade e desempenho, atividades manuais oferecem um espaço onde o erro não é falha — é parte da construção. Esse deslocamento é, por si só, terapêutico.

Além disso, essas práticas estimulam a neuroplasticidade, fortalecem a sensação de propósito e contribuem para a autoestima. Elas devolvem ao indivíduo algo que muitas vezes se perde na rotina digital: a experiência concreta de criar algo com as próprias mãos.

Há também um movimento social em curso. Segundo Andressa, jovens têm resgatado essas práticas, muitas vezes vistas como menores ou ultrapassadas. “Tenho percebido que pessoas mais jovens têm se interessado pelo bordado, têm resgatado essa tradição. Vejo esse retorno de forma muito positiva.”

Esse retorno não é apenas nostálgico — é funcional. Em um cenário de hiperestimulação e fadiga cognitiva, o simples passa a ser necessário. “A aceleração constante mantém o organismo em estado de alerta prolongado, associado à ansiedade crônica, fadiga mental, dificuldade de concentração e esgotamento emocional”, afirma Myrrha.

Nesse contexto, atividades manuais funcionam como uma pausa reguladora — um espaço onde o cérebro pode sair do modo de urgência e entrar em um estado mais equilibrado. Há, ainda, uma dimensão pessoal que atravessa essa experiência.

Eu mesma comecei a fazer crochê há pouco mais de um ano. Desde então, ele se tornou um momento de paz — um respiro das telas. Escolher as cores das próximas peças, pensar em quem será presenteado, criar algo único com as próprias mãos traz uma sensação de conquista difícil de encontrar em outras atividades.

Aprendi sozinha, incentivada por uma amiga, e hoje vejo no crochê não apenas um hobby, mas um espaço de conexão. Um tempo em que a pressa não entra. Um momento em que a mente desacelera e encontra, no ritmo repetitivo dos pontos, uma forma de se organizar.

Espero levar essa prática por muitos anos — e, mais do que isso, incentivar outras pessoas a encontrar o seu próprio caminho criativo. Porque nunca é tarde para começar. E, muitas vezes, é justamente nesse começo — simples, lento, manual — que encontramos algo que a rotina acelerada insiste em tirar. Um instante de calma. Um espaço de presença. Um retorno, ainda que breve, para dentro de si.