O Fundo Monetário Internacional revisou para cima as projeções para a dívida pública brasileira e passou a estimar que o indicador deve alcançar 96,5% do Produto Interno Bruto (PIB) ao fim de 2026, ultrapassando a marca de 100% já em 2027. As estimativas constam no relatório Monitor Fiscal divulgado nesta quarta-feira e indicam uma trajetória de alta contínua até atingir 106,5% do PIB em 2031.
A nova projeção representa uma deterioração em relação ao cenário traçado em outubro do ano passado. Naquele momento, o Fundo previa que a dívida bruta do Brasil encerraria 2026 em 95% do PIB e não ultrapassaria o patamar de 100% nos anos seguintes, com estabilidade próxima a 98% a partir de 2028. A revisão reflete expectativas mais negativas para o desempenho das contas públicas, especialmente no resultado primário e nominal.

De acordo com o relatório, o Brasil encerrou o último ano com dívida bruta equivalente a 93,3% do PIB. Para os próximos anos, o FMI projeta um déficit primário de 0,5% do PIB em 2026, com melhora marginal para 0,1% em 2027 e avanço para superávit de 0,6% apenas no horizonte de cinco anos. No relatório anterior, a expectativa era de uma recuperação mais consistente, com superávits progressivos a partir de 2027.
No comparativo internacional, o nível de endividamento brasileiro permanece acima da média das economias emergentes, estimada em 78,9% do PIB neste ano. Em um grupo de 36 países analisados, o Brasil aparece com a quarta maior dívida bruta projetada, atrás apenas de Bahrein, Ucrânia e China. O relatório também aponta que países como Argentina e Índia tendem a estabilizar ou reduzir suas dívidas, impulsionados por crescimento nominal mais forte e ajustes fiscais.
O Fundo destaca que, apesar de avanços institucionais nas últimas décadas — como a adoção de regimes de metas de inflação, maior independência de bancos centrais e fortalecimento de marcos fiscais —, muitos países emergentes ainda precisarão reforçar seus compromissos com o equilíbrio estrutural das contas públicas. No caso brasileiro, a recomendação é de aprimoramento das regras fiscais, com a adoção de âncoras de médio prazo mais robustas para conter pressões pró-cíclicas e ampliar a credibilidade.
O endividamento bruto é um dos principais indicadores de solvência de um país e segue sendo monitorado por investidores e analistas. O FMI utiliza metodologia distinta da adotada pelo governo brasileiro, ao incluir na conta títulos do Tesouro Nacional na carteira do Banco Central. Pelos critérios nacionais, a dívida bruta fechou 2025 em 78,7% do PIB e atingiu 79,2% em fevereiro deste ano, maior nível desde novembro de 2021.