O percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 80,4% em março, o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O índice avançou 0,2 ponto percentual em relação a fevereiro e 3,3 pontos percentuais na comparação anual.
A escalada do endividamento ocorre em um ambiente de crédito caro e pressão inflacionária, agravado pela alta dos combustíveis e pelas incertezas externas, especialmente ligadas ao conflito no Oriente Médio. Para a CNC, o cenário acende um alerta para os próximos meses, mesmo com o início do ciclo de redução de juros.

“O cenário já é reconhecido pelo governo federal como um problema que precisa de solução imediata, enquanto a CNC destaca que o endividamento continuará avançando até os efeitos da flexibilização da política monetária chegarem efetivamente ao consumidor final”, afirmou a entidade em nota.
Em março, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Apesar do corte, o nível permanece elevado, o que encarece o crédito e mantém a pressão sobre o orçamento das famílias.
“A elevada taxa Selic é, há meses, um desafio para quem empreende e para quem consome”, disse José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac. “A redução gradativa dos juros começou, mas ainda vemos um aumento do nível de famílias endividadas, pois levaremos meses até que o alívio do aperto monetário faça efeito.”
Além dos juros, a CNC aponta que o aumento nos preços do diesel e de outros combustíveis tem ampliado as incertezas sobre a inflação. O encarecimento do transporte pressiona custos das empresas, que tendem a repassar os aumentos ao consumidor, reduzindo o poder de compra e estimulando o uso do crédito para despesas básicas.
Diante desse cenário, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara um novo programa de refinanciamento de dívidas, com foco em famílias de menor renda. A proposta em discussão prevê a unificação de débitos — como cartão de crédito e crédito pessoal — em uma única dívida, com juros mais baixos e possibilidade de descontos no principal que podem chegar a 80%.
O plano também prevê que a renegociação seja feita diretamente com os bancos, com o objetivo de acelerar o processo. Para viabilizar os descontos, as instituições financeiras poderão contar com garantias do Fundo de Garantia de Operações (FGO), reduzindo o risco de inadimplência.
A iniciativa deve ter como público prioritário famílias com renda de até três salários mínimos e integra a estratégia do governo para mitigar os efeitos da inflação e do aumento do custo de vida, em um contexto em que, segundo relatos do próprio Executivo, as dívidas já comprometem grande parte da renda mensal dos brasileiros.