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Economia

Conflito no Oriente Médio pressiona combustíveis e eleva risco inflacionário

Para Ricardo Valério, alta do diesel e dependência logística rodoviária ampliam impacto sobre preços no Brasil; cenário pode afetar oferta e fretes
Agora RN
27/03/2026 | 05:49

A escalada do conflito no Oriente Médio e a volatilidade do petróleo no mercado internacional já começam a pressionar os preços de combustíveis e ampliam o risco de inflação no Brasil, segundo avaliação do economista Ricardo Valério. Em entrevista à Rádio Mix 103 FM, ele afirmou que a forte dependência do país do transporte rodoviário torna a economia especialmente sensível à alta do diesel, com efeitos em cadeia sobre alimentos e fretes.

De acordo com Valério, o impacto já pode ser observado em regiões específicas, como o Rio Grande do Sul, onde o período de safra intensifica a demanda por combustíveis. “A gente já tem preços notadamente lá no Rio Grande do Sul passando de R$ 10,00”, disse. O economista ressalta que a variação tende a depender das condições locais de oferta e demanda, além da dinâmica internacional dos preços do petróleo.

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Brasil é autossuficiente em petróleo, mas não tem ainda capacidade de refinar todo óleo diesel e gasolina que consome, provocando dependência externa - Foto: Agência Petrobras

A pressão recente está associada à elevação das cotações do barril, que chegaram a US$ 115 antes de recuar para níveis próximos de US$ 100, em meio a sinais de possível trégua no conflito. Para Valério, o cenário ainda é incerto e pode evoluir rapidamente. “Nós não teremos nenhum ganhador dessa guerra. Só teremos perdedores, que é o mundo todo, que pode entrar ou ir para a inflação”, afirmou.

No Brasil, a situação é agravada por limitações estruturais. Apesar de ser produtor de petróleo, o país importa cerca de 30% do diesel consumido, devido à insuficiência da capacidade de refino. “É um erro estratégico. A gente tem que melhorar a nossa capacidade de refino e desenvolver programas como o biodiesel”, avaliou . Segundo ele, a dependência externa expõe o país a choques internacionais e aumenta a volatilidade interna de preços.

O economista também alerta para o risco de desabastecimento no curto prazo, caso o conflito se prolongue. Ele afirma que o Brasil conseguiria suportar cerca de 30 dias sem maiores rupturas, mas admite que a situação pode se deteriorar com a continuidade da crise. “Se isso durar mais de 30 dias, a gente pode realmente passar por problemas de desabastecimento”, disse.

A elevação do diesel já impacta diretamente o custo do transporte e tende a pressionar alimentos, como carnes e ovos, além de produtos industrializados. Valério destaca que, em uma economia baseada no modal rodoviário, o repasse de custos ocorre de forma rápida, enquanto a redução de preços é mais lenta. “O aumento vem na mesma velocidade do míssil. Quando vai cair, vem a passo de tartaruga”, afirmou .

No cenário macroeconômico, o economista avalia que o Brasil vinha em trajetória relativamente positiva, com desemprego baixo e expectativa de queda da taxa de juros, mas o novo contexto internacional pode alterar esse quadro. Ele aponta preocupação com o déficit público e os efeitos da crise sobre a inflação e a política monetária, especialmente em relação à taxa Selic.

Valério também chamou atenção para possíveis distorções no mercado internacional de petróleo, citando movimentações atípicas antes de anúncios políticos que podem indicar operações especulativas de grande porte. Para ele, episódios dessa natureza reforçam a instabilidade global e exigem monitoramento mais rigoroso.

Apesar dos riscos, o economista defende medidas estruturais para reduzir a vulnerabilidade brasileira, como ampliação da capacidade de refino, incentivo ao biodiesel e mecanismos que garantam que reduções tributárias cheguem ao consumidor final. Ele sugere, por exemplo, a adoção de modelos de devolução direta, como cashback, para evitar retenção de ganhos ao longo da cadeia.

A evolução do conflito e suas consequências sobre o mercado de energia seguem como principal variável para o comportamento dos preços no curto prazo, com potencial de repercussão direta sobre a inflação e o crescimento econômico no país.

Governo cria linha de R$ 15 bilhões para exportações da indústria

A destinação de R$ 15 bilhões para financiamento de micro, pequenas e médias empresas exportadoras foi bem recebida pela Confederação Nacional da Indústria, que avalia a medida como um instrumento relevante para sustentar a atividade industrial em um ambiente externo adverso. A iniciativa foi instituída por meio da Medida Provisória nº 1.345/2026, que cria o Plano Brasil Soberano 2, com recursos sob gestão do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social. A proposta amplia o acesso ao crédito em um momento de restrição financeira e incerteza global.

Segundo a entidade, a nova linha tende a mitigar os efeitos de um cenário internacional marcado pela desaceleração econômica, pelo aumento de tarifas comerciais dos Estados Unidos e pelas disrupções nas cadeias globais decorrentes de tensões geopolíticas, como a guerra no Oriente Médio. Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, a medida pode reduzir a pressão sobre empresas exportadoras e preservar a dinâmica produtiva. “A injeção de R$ 15 bilhões […] ajudará as empresas a evitar a disseminação de problemas financeiros ao longo das cadeias produtivas”, afirmou.

Os recursos serão provenientes do superávit financeiro do Fundo de Garantia à Exportação (FGE) e de outras fontes vinculadas ao Ministério da Fazenda. Terão acesso às linhas de crédito empresas exportadoras de bens industriais, seus fornecedores e companhias inseridas em setores estratégicos para o comércio exterior brasileiro. A política busca reforçar o financiamento em cadeias com maior exposição a choques externos e com peso relevante na balança comercial.

O Plano Brasil Soberano 2 contempla setores diretamente impactados por barreiras comerciais, como siderurgia, metalurgia e indústria automotiva, além de segmentos considerados estruturais, como farmacêutico, máquinas e equipamentos e eletrônicos. Os recursos poderão ser utilizados para capital de giro, aquisição de bens de capital, expansão da capacidade produtiva, inovação tecnológica e adaptação de processos, ampliando a competitividade das empresas no mercado internacional.

Para a CNI, a efetividade da medida dependerá da conversão da MP em lei, garantindo segurança jurídica e previsibilidade ao uso dos instrumentos de crédito à exportação. A entidade também destaca a importância da operacionalização do Fundo Garantidor de Operações de Comércio Exterior (FGCE), previsto na Lei nº 15.359/2026, como mecanismo de sustentação de risco. Na avaliação da indústria, o desenho institucional deve assegurar condições equivalentes às praticadas internacionalmente, permitindo que empresas brasileiras disputem mercados globais em bases competitivas.

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