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Tensão

Xi e Trump tentam conter tensão gerada no Estreito de Ormuz

Cúpula entre China e Estados Unidos ocorre em meio a conflitos no Oriente Médio, disputa tecnológica e guerra comercial
Por O Correio de Hoje
13/05/2026 | 13:03

Os presidentes Xi Jinping e Donald Trump iniciam nesta semana, em Pequim, uma rodada de negociações considerada decisiva para a administração da rivalidade entre as duas maiores economias do mundo. O encontro marca a primeira reunião presencial entre os dois líderes em mais de seis meses e ocorre em meio a tensões envolvendo comércio internacional, guerra no Oriente Médio, inteligência artificial e minerais estratégicos.

Trump desembarca na China pela primeira vez em nove anos pressionado por queda de popularidade doméstica e pela necessidade de apresentar resultados econômicos e diplomáticos ao eleitorado americano. A agenda oficial prevê cerimônia de boas-vindas, reunião bilateral, visita ao Templo do Céu e banquete de Estado nesta quinta-feira, 14, além de um almoço reservado entre os líderes antes do retorno do presidente americano a Washington.

Trump e Xi Jinping Copia
Donald Trump e Xi Jinping vão discutir desde o tarifaço à escalada da guerra contra o Irã no Oriente Médio Foto: Reprodução/Internet

O contexto geopolítico do encontro mudou significativamente desde o planejamento inicial da cúpula, originalmente prevista para março. O adiamento ocorreu após Trump priorizar a gestão do conflito envolvendo o Irã, tema que agora se tornou um dos principais pontos de atrito entre Washington e Pequim.

Segundo analistas, a guerra ampliou a influência estratégica da China na região e fragilizou a posição americana. A China é atualmente a principal compradora de petróleo iraniano, absorvendo cerca de 1,4 milhão de barris por dia — aproximadamente 90% das exportações totais do Irã.

Para o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, Feliciano de Sá Guimarães, o conflito acabou fortalecendo a posição chinesa. “Os americanos afetaram diretamente um supridor fundamental de petróleo para a China”, afirmou. O especialista também destacou a relevância do Paquistão como ator estratégico na mediação regional devido à forte dependência militar e econômica do país em relação à China.

Na frente econômica, os dois governos devem discutir a extensão da atual trégua comercial firmada em outubro do ano passado. Analistas avaliam, no entanto, que Pequim buscará avanços pragmáticos e limitados, sem expectativa de normalização ampla das relações bilaterais.

As tensões tarifárias permanecem elevadas após as medidas adotadas por Trump contra produtos chineses. Em resposta, a China utilizou dois instrumentos considerados estratégicos: a venda de títulos do Tesouro americano e o controle sobre o mercado de terras raras, minerais essenciais para semicondutores, armamentos e ligas metálicas.

Segundo Vinicius Vieira, da Fundação Armando Alvares Penteado e da Fundação Getulio Vargas, a China controla entre 80% e 90% da capacidade global de processamento de terras raras e passou a usar o setor como ferramenta de pressão geopolítica.

Do lado americano, Trump tenta obter concessões comerciais que possam beneficiar setores estratégicos para sua base eleitoral, especialmente o agronegócio. Analistas avaliam que o presidente pode pressionar Xi para ampliar novamente as compras chinesas de produtos agrícolas americanos, incluindo soja.

Esse movimento pode gerar efeitos indiretos para o Brasil, que consolidou posição como principal fornecedor de soja para a China nos últimos anos ao ocupar parte do espaço perdido pelos Estados Unidos durante a guerra comercial.

Especialistas também relacionam a recente reunião entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao interesse americano nas reservas brasileiras de terras raras. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses minerais e vem sendo visto por Washington como alternativa à dependência chinesa.

Outro tema central da cúpula será a disputa tecnológica envolvendo inteligência artificial. Analistas apontam que a corrida pela liderança global em IA pode abrir espaço para algum nível de entendimento entre os dois países, especialmente diante do avanço recente de empresas chinesas no setor.

Trump viaja acompanhado por empresários do setor de tecnologia, incluindo Elon Musk, da Tesla e da SpaceX, além de Tim Cook, da Apple.

Para Feliciano de Sá Guimarães, um eventual acordo sobre limites e princípios éticos relacionados à inteligência artificial representaria um dos principais avanços possíveis do encontro. “O símbolo desse encontro é a administração da rivalidade, não é o fim nem a aceleração, porque ela é estrutural e não tem como mudar”, afirmou.

A avaliação predominante entre especialistas é que a cúpula deve produzir avanços pontuais, mas não alterar a lógica de competição estratégica entre Estados Unidos e China. Enquanto Xi busca consolidar um plano de longo prazo para ampliar a influência global chinesa, Trump enfrenta pressões eleitorais imediatas ligadas às eleições legislativas de meio de mandato previstas para novembro.