O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Álvaro Dias (PL) voltou a defender o uso da ivermectina contra a Covid-19. Durante sabatina promovida pela Federação das Indústrias (Fiern) e pelo Sindicato das Empresas de Rádio, Televisão, Jornais, Portais e Revistas (Midiacom-RN), o ex-prefeito de Natal afirmou que a eficácia do vermífugo estaria sendo reconhecida agora, depois das críticas recebidas por ele durante a pandemia.
“Muitas das coisas que nós defendemos estão sendo agora reconhecidas, como a eficácia da ivermectina. Nós fomos condenados, criticados, e hoje está sendo aí reconhecida a sua eficácia no tratamento ou na prevenção do coronavírus”, declarou Álvaro sobre o medicamento.

A afirmação ocorreu dias depois de voltar a circular nas redes sociais uma alegação de que uma revisão de 106 estudos, com mais de 200 mil pacientes, teria comprovado uma eficácia de 70% da ivermectina contra a Covid-19. O conteúdo acumulou cerca de 1 milhão de visualizações no X.
A informação, porém, não representa uma mudança no entendimento das principais instituições científicas e sanitárias. A suposta taxa de 70% foi retirada de uma plataforma anônima que reúne estudos com metodologias e níveis de qualidade distintos. A análise mistura pesquisas limitadas, trabalhos observacionais e estudos questionados, sem seguir os critérios exigidos para uma revisão clínica robusta.
O Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a agência reguladora dos Estados Unidos não recomendam a ivermectina para prevenir ou tratar a Covid-19. A própria fabricante do medicamento, a Merck, informou que não encontrou base científica para um efeito terapêutico nem evidência significativa de eficácia clínica. Estudos controlados realizados com seres humanos não confirmaram o efeito inicialmente observado em culturas de células.
As diretrizes brasileiras recomendam que a ivermectina não seja utilizada contra nenhum grau da doença. Para pessoas com maior risco de agravamento e indicação médica, o protocolo do SUS prevê antivirais específicos, como a combinação de nirmatrelvir e ritonavir. A vacinação permanece como a principal medida de prevenção de internações, casos graves e mortes.
Condução da pandemia volta ao debate
Ao recuperar o tema, Álvaro traz a pandemia de Covid-19 de volta ao debate político do Rio Grande do Norte seis anos depois do início da emergência. Desde o início da pandemia, o Brasil já registrou mais de 39,3 milhões de casos confirmados e 716.626 mortes pela doença. No RN, o painel da Secretaria Estadual de Saúde (Sesap) registra 603.072 diagnósticos e 8.439 óbitos desde 2020.
A defesa da ivermectina também aproxima Álvaro de uma das principais bandeiras adotadas por Jair Bolsonaro (PL), seu aliado, durante a crise sanitária. O então presidente foi alvo de críticas de entidades científicas, profissionais da saúde, governadores e adversários políticos pela condução do governo federal. Em 2021, o Senado instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar ações e omissões da União no enfrentamento da doença.
Uma das condutas mais criticadas foi a minimização da gravidade do vírus. Antes da escalada de mortes, Bolsonaro afirmou que o poder destrutivo da doença estava “superdimensionado”. Depois, referiu-se à Covid-19 como uma “gripezinha” e alegou que, por possuir “histórico de atleta”, sofreria no máximo sintomas semelhantes aos de um resfriado.
O presidente também se opôs às medidas de distanciamento social adotadas por Estados e municípios, participou de aglomerações, manteve contato físico com apoiadores e apareceu repetidamente sem máscara. A postura contrariava as recomendações sanitárias destinadas a reduzir a transmissão em um período no qual ainda não existiam vacinas disponíveis.
Outra frente de críticas foi o incentivo ao chamado tratamento precoce. Bolsonaro promoveu medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, apesar da falta de evidências clínicas de benefício. Divergências sobre essas medidas estiveram entre os fatores de desgaste com os ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que deixaram o governo em 2020. A discussão permaneceu mesmo depois de estudos demonstrarem a ineficácia dos produtos contra a doença.
A aquisição das vacinas também se tornou um dos principais pontos de investigação. Em depoimento à CPI, um representante da Pfizer mostrou que propostas enviadas ao governo brasileiro a partir de agosto de 2020 ficaram sem resposta. A comissão classificou o atraso na compra dos imunizantes como uma das marcas da gestão federal da pandemia.
Bolsonaro ainda desestimulou publicamente a imunização ao questionar a segurança e os possíveis efeitos das vacinas. Afirmou que não tomaria o imunizante e, ao comentar o contrato da Pfizer, disse que a empresa não seria responsável por efeitos adversos. “Se você virar um jacaré, é problema de você”, declarou. Também entrou em conflito com o Governo de São Paulo sobre a CoronaVac, à qual se referia como “vacina chinesa”.
As falas diante do aumento das mortes foram igualmente criticadas. Em abril de 2020, ao ser questionado sobre o número de vítimas, respondeu: “Não sou coveiro, tá?”. Dias depois, diante de novo recorde, afirmou: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”. Em março de 2021, quando o País enfrentava colapso hospitalar, declarou: “Chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. Posteriormente, Bolsonaro admitiu ter “perdido a linha” e disse que retiraria a frase sobre não ser coveiro.
Histórico de Álvaro em Natal
Na condição de prefeito e médico, Álvaro tornou-se um dos principais defensores locais da ivermectina. Mesmo sem eficácia comprovada, a Prefeitura do Natal distribuiu o medicamento nas unidades de saúde e o incluiu entre as opções oferecidas à população, inclusive de maneira preventiva. A iniciativa foi contestada por infectologistas e deu origem a uma investigação do Ministério Público do Rio Grande do Norte.
Em janeiro de 2021, quando a vacinação começava, Álvaro afirmou que poderia esperar pelo imunizante porque se considerava protegido pelo vermífugo. “Eu digo que não tenho essa pressa para tomar a vacina porque estou tomando a ivermectina. Estou protegido, tomando na dosagem e no tempo certo”, declarou à 96 FM.
Na mesma entrevista, recomendou que pessoas ainda não incluídas nos primeiros grupos tomassem ivermectina a cada 15 dias. “Quero convocar que quem não estiver incluído no primeiro grupo que pode tomar a ivermectina dentro da dosagem preconizada, de 15 em 15 dias, que estará protegido e poderá aguardar as próximas doses da vacina com tranquilidade, porque se estará evitando o coronavírus”, afirmou. Não havia evidência de que o medicamento proporcionasse essa proteção.
Álvaro inicialmente anunciou que seria o primeiro a receber o imunizante em Natal, usando sua formação médica como justificativa. Após críticas de que poderia furar a fila dos profissionais que atuavam diretamente no atendimento, desistiu. “Eu estou protegido porque tomo a ivermectina. Então posso deixar para tomar a vacina numa etapa posterior”, declarou, na ocasião.
Estrutura de vacinação e atendimento
Apesar dessas posições, a administração municipal organizou uma ampla estrutura de imunização. A campanha começou em 20 de janeiro de 2021 com quatro pontos no sistema de drive-thru: Ginásio Nélio Dias, Via Direta, Palácio dos Esportes e Arena das Dunas. Álvaro participou do ato inicial e aplicou uma das doses destinadas aos profissionais da saúde. Posteriormente, o atendimento foi ampliado para as unidades básicas.
A abertura do Hospital de Campanha de Natal também é apresentada pelo candidato como um dos principais legados de sua gestão. Instalada no antigo Hotel Parque da Costeira, a unidade concentrou o atendimento de pacientes com Covid-19 e recebeu moradores de diferentes municípios, além de pessoas transferidas de Manaus durante o colapso hospitalar no Amazonas. A rede municipal ainda abriu centros de enfrentamento, ampliou leitos no Hospital Municipal e instalou um Hospital Dia.
Na sabatina da Fiern, Álvaro afirmou que a unidade de campanha foi preparada em 40 dias. “Nós salvamos milhares de vidas com o hospital de campanha durante a pandemia do coronavírus aqui de Natal”, declarou.
O hospital recebeu, em setembro de 2021, a visita do então ministro da Saúde Marcelo Queiroga, que classificou a estrutura como um modelo bem-sucedido de assistência aos pacientes graves. Com a redução das internações provocada pelo avanço da vacinação, a unidade também passou a receber pacientes com outras doenças para desafogar as unidades de pronto atendimento.
Álvaro usa esse balanço para apresentar a pandemia como prova de coragem e capacidade administrativa. Na sabatina, recordou que perdeu a mãe durante a crise e afirmou que não deixou de cumprir suas funções. Também acusou o Governo do Estado de omissão e disse que, durante aquele período, atuou “como prefeito de Natal e como governador do Rio Grande do Norte”.