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Olhos

Terapia tenta “rejuvenescer” olhos

Técnica baseada em reprogramação celular apresentou resultados promissores em animais e prepara primeiros testes em humanos
Por O Correio de Hoje
15/05/2026 | 13:09

Uma nova linha de pesquisa voltada ao rejuvenescimento celular da retina tem despertado atenção da comunidade científica internacional ao apresentar resultados considerados promissores no combate ao envelhecimento dos olhos e a doenças degenerativas da visão. A proposta é utilizar mecanismos de reprogramação celular para restaurar funções perdidas e recuperar tecidos danificados sem alterar a identidade das células.

O avanço representa uma possível mudança na forma de tratar doenças ligadas ao envelhecimento ocular, como glaucoma, degeneração macular e neuropatias ópticas. Diferentemente das abordagens convencionais, o método busca agir diretamente no processo biológico de envelhecimento das células da retina.

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Terapia experimental conduzida pelo IDOR e UFRJ busca recuperar funções da retina e combater doenças do envelhecimento da visão Foto: FreePik

Os estudos vêm sendo conduzidos por pesquisadores ligados ao Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), no Rio de Janeiro, em parceria com outras instituições brasileiras e internacionais. A técnica tem como base conhecimentos desenvolvidos a partir das pesquisas do cientista japonês Shinya Yamanaka, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina de 2012 por descobrir um conjunto de proteínas capazes de “reprogramar” células adultas.

Essas proteínas, conhecidas como fatores de Yamanaka, conseguem fazer com que células maduras retornem a um estado semelhante ao embrionário. A partir dessa descoberta, cientistas passaram a investigar se seria possível utilizar apenas parte desse processo para promover um rejuvenescimento celular controlado, sem apagar completamente as características originais das células.

Segundo os pesquisadores, os primeiros testes realizados em animais indicaram melhora da saúde celular e recuperação parcial da visão em casos de envelhecimento e danos na retina. Agora, o objetivo é avançar para estudos clínicos em humanos.

A pesquisadora Leda Castilho, ligada ao IDOR e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que a proposta não é criar um “tratamento milagroso”, mas compreender de que forma a biologia celular pode ser manipulada para restaurar funções perdidas ao longo do tempo.

“O futuro promissor desta terapia torna o olho humano ‘mais jovem’ iluminando a medicina do rejuvenescimento, da qual a reprogramação celular parcial é apenas uma das estratégias. É uma área tão promissora que tem atraído interesse e investimentos de gigantes do Vale do Silício como Sam Altman (OpenAI), Elon Musk (Jeff Bezos (Amazon).”

A especialista ressalta que os experimentos ainda estão em fase inicial e que será necessário avaliar a segurança e os impactos da técnica no longo prazo antes de qualquer aplicação ampla em pacientes.

Nos estudos mais recentes, cientistas observaram que células envelhecidas da retina podem recuperar parte de sua funcionalidade após estímulos específicos de reprogramação. Em alguns casos, houve regeneração de nervos ligados à visão e melhora da resposta celular ao dano provocado pelo envelhecimento.

Ainda assim, pesquisadores reconhecem que existem dúvidas importantes sobre os efeitos permanentes da técnica. Um dos principais desafios é impedir que a reprogramação celular provoque crescimento descontrolado de tecidos, o que poderia elevar o risco de tumores.

O neurocientista Michelly Louzada, do Laboratório de Neurociência Molecular da UFRJ, explica que a retina é considerada um alvo estratégico para esse tipo de terapia porque parte de seus neurônios não se divide ao longo da vida adulta, o que dificulta a regeneração natural do tecido.

“A retina é composta de neurônios que não se dividem na vida adulta, são muito vulneráveis a dano oxidativo e têm baixíssima capacidade regenerativa”, diz. “Recuperar células lesionadas é uma oportunidade relevante para interferir na renovação celular normal.”

Os cientistas também investigam a possibilidade de utilizar a técnica em outras áreas da medicina regenerativa. Há estudos em andamento voltados a doenças neurodegenerativas, envelhecimento muscular e até problemas metabólicos associados ao avanço da idade.

Outra frente da pesquisa tenta entender como controlar o chamado rejuvenescimento parcial das células, estratégia que busca recuperar funções perdidas sem fazer com que a célula volte completamente ao estágio embrionário. “O desafio é promover o rejuvenescimento sem perder a identidade celular”, explicam os pesquisadores envolvidos no projeto.

Apesar do entusiasmo em torno dos resultados iniciais, especialistas reforçam que a aplicação clínica em larga escala ainda depende de anos de testes e validações científicas. Os primeiros estudos em humanos deverão ocorrer de forma gradual, com acompanhamento rigoroso de segurança e eficácia.

A expectativa é que, no futuro, terapias desse tipo possam ajudar a reduzir casos de cegueira relacionados ao envelhecimento populacional, além de ampliar as possibilidades de tratamento para doenças que atualmente têm poucas alternativas terapêuticas.