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Fiscal

TCU aprova contas e faz alertas fiscais

Tribunal aponta riscos em empréstimos aos Correios, avanço de benefícios tributários e crescimento da dívida pública, apesar do cumprimento da meta fiscal em 2025
Por O Correio de Hoje
12/06/2026 | 12:37

O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou as contas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva referentes ao exercício de 2025, mas acompanhou o parecer favorável de uma série de ressalvas e alertas sobre a condução da política fiscal, a situação financeira de empresas estatais e o crescimento de mecanismos que podem pressionar as contas públicas nos próximos anos.

O relatório, elaborado pelo ministro Benjamin Zymler e aprovado por unanimidade pela Corte, será encaminhado ao Congresso Nacional, responsável pela decisão final sobre as contas do governo. Embora tenha reconhecido o cumprimento da meta fiscal do ano passado, o TCU avaliou que o resultado foi alcançado mediante exclusões relevantes de despesas e em um contexto de deterioração dos indicadores da dívida pública.

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Sede do TCU em Brasília, que aprovou contas de Lula com ressalvas - Foto: Assessoria / TCU

“Nós opinamos pela aprovação da execução orçamentária no exercício de 2025, mas apontamos uma lista de inconformidades que precisam ser sanadas”, afirmou Zymler durante a sessão.

Entre os principais pontos de preocupação está a concessão de garantia da União para um empréstimo de R$ 12 bilhões obtido pelos Correios em 2025. Segundo o tribunal, a operação foi realizada sem embasamento técnico suficiente. O TCU determinou que o governo revise os riscos associados ao financiamento e também ao novo empréstimo de R$ 6 bilhões previsto para ser contratado até 2027.

A Corte também chamou atenção para a situação das estatais não dependentes do Tesouro Nacional. De acordo com o relatório, diversas empresas apresentam projeções de prejuízos sucessivos até 2030 e poderão necessitar de aportes financeiros da União para manter suas operações. Na avaliação dos ministros, a ausência de monitoramento adequado pode resultar na transferência desses custos para toda a sociedade.

Outro alerta envolve o uso crescente de fundos públicos voltados à concessão de crédito. Embora essas operações não sejam contabilizadas diretamente nas regras fiscais, como a meta de resultado primário e o limite de despesas previsto pelo arcabouço fiscal, elas ampliam o endividamento do setor público. O TCU observou que o governo continuou expandindo esses mecanismos ao longo de 2026, ano marcado pelo calendário eleitoral.

A análise também apontou preocupações em relação à sustentabilidade da dívida pública. Segundo estimativas apresentadas pelo tribunal, existe um hiato fiscal de R$ 306,2 bilhões — diferença entre o esforço fiscal planejado e o resultado necessário para estabilizar a trajetória da dívida. Mesmo em um cenário de crescimento econômico e arrecadação recorde, a dívida bruta alcançou 78,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025.

O relatório destaca ainda uma aparente divergência entre as políticas fiscal e monetária. Enquanto o Banco Central do Brasil manteve a taxa Selic em 15% ao ano para conter pressões inflacionárias, o governo ampliou programas de crédito direcionado e linhas subsidiadas, aumentando a oferta de recursos na economia.

Embora a meta fiscal tenha sido formalmente cumprida, os técnicos do TCU observam que o resultado dependeu de ajustes relevantes. O governo registrou déficit primário de R$ 58,687 bilhões, equivalente a 0,46% do PIB. Para efeito de cumprimento da meta, entretanto, foram desconsideradas despesas que somaram R$ 48,7 bilhões. A meta estabelecida para 2025 previa equilíbrio fiscal, admitindo uma margem de déficit de até 0,25% do PIB.

Entre as ressalvas aprovadas pela Corte está também a atuação da PPSA, responsável pela comercialização da parcela de petróleo pertencente à União nos contratos de partilha do pré-sal. O tribunal questiona uma alteração legal aprovada no fim de 2024 que autorizou a empresa a descontar custos operacionais dos recursos repassados ao governo federal. Para a área técnica do TCU, a medida pode configurar uma forma indireta de execução de despesas fora do Orçamento.

O crescimento dos benefícios tributários, financeiros e creditícios também motivou críticas dos ministros. Em 2025, esses incentivos atingiram R$ 759 bilhões, valor equivalente a cerca de 6% do PIB e quase 13 vezes superior ao déficit primário registrado no período. Segundo o relatório, foram criados 21 novos mecanismos de renúncia fiscal, com impacto potencial de R$ 135,5 bilhões ao longo da próxima década.

A auditoria identificou ainda irregularidades em dez desses benefícios, que não atenderam integralmente às exigências legais para sua criação. O ministro Jorge Oliveira defendeu maior rigor na avaliação dessas políticas públicas.

“Em um cenário de forte deterioração fiscal, não é mais possível tratar benefícios tributários bilionários sem avaliação rigorosa sobre seus resultados e seus impactos para as contas públicas”, afirmou.

O parecer do TCU também incorporou ressalvas relacionadas à inclusão de novos projetos de investimento pelos ministérios das Cidades e do Desenvolvimento Regional sem a conclusão de obras já iniciadas, prática que pode contrariar dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Apesar da aprovação das contas, os apontamentos do tribunal indicam que a administração federal continuará sob monitoramento quanto à evolução da dívida pública, ao desempenho das estatais e à expansão de benefícios tributários e operações de crédito, temas que deverão permanecer no centro do debate fiscal nos próximos anos.