O primeiro álbum da Taj Ma House ainda nem chegou às plataformas digitais, mas já vai começar a circular pelos palcos. Antes do lançamento de Vitral, previsto para setembro, a banda natalense estreia a nova turnê no dia 6 de agosto, no Sesc Pompeia, em São Paulo. Os ingressos para a apresentação online se esgotaram em apenas duas horas. Depois, o grupo segue para um show no Rio de Janeiro e prepara novas datas em Natal.
Em pouco mais de três anos de existência, a banda acumula uma turnê pela Europa, apresentações em diferentes países, três prêmios Hangar de Música e agora chega ao primeiro disco completo. O álbum reúne onze faixas e foi concebido como uma experiência contínua, reproduzindo a lógica de um DJ set, em que uma música conduz naturalmente à outra.

Segundo Pajux, a decisão de apresentar as novas músicas primeiro ao vivo faz parte da própria identidade da banda. “A gente encontrou uma forma de ser coerente com a trajetória da banda. Muitas das músicas foram construídas ao longo do nosso processo ao vivo. A gente começou como uma banda ao vivo. Para o lançamento do disco, para a gente é bem coerente primeiro ter a experiência de pista de dança, para depois ter a experiência de fone de ouvido.”
Essa relação com a pista antecede até a formação oficial do grupo. A Taj Ma House surgiu quase por acaso, durante uma sequência de apresentações de DJs na festa Houssaca. O encontro entre Pajux, Elisa Bacche, Clara Luz e Janvita acabou se transformando em uma banda dedicada à house music produzida em Natal.
Mais do que um gênero musical, a house aparece como ponto de encontro de uma comunidade. Para Elisa, a inquietação que deu origem ao projeto nasceu da necessidade de fortalecer uma cena já existente. “Esse abraço da house music, desse abraço do que a gente faz, do que as pessoas da pista nos trazem também. Então é realmente levantar mais ainda a casinha dessa comunidade.”

Pajux afirma que a banda é resultado direto da cena eletrônica natalense, que considera consolidada, embora ainda pouco conhecida fora do circuito especializado. “Natal tem uma cena de house music alternativa, underground, muito forte e que às vezes é desconhecida pela própria cidade. Natal tem casas de música eletrônica reconhecidas no Brasil e no mundo inteiro. Tem festas que estão entrando definitivamente para o mapa da música brasileira.”
Na visão dele, a sonoridade da Taj Ma House também dialoga com referências locais que vão além da música eletrônica. “A gente tem muita referência do axé, da Banda Grafith, do Chiclete com Banana, dessa psicodelia junto com percussões. É por aí que o nosso som vai caminhando.”
Álbum
Embora a banda tenha lançado anteriormente um EP e um single, Pajux afirma que o plano sempre foi produzir um álbum completo. “O disco sempre teve um conceito muito claro. A gente quer registrar essa sensação de estar numa pista de dança em Natal, Rio Grande do Norte.”
Elisa define a relação entre o EP e o novo trabalho como um “plano sequência”. Para ela, não houve ruptura estética, mas aprofundamento. “É um plano sequência de mais intensidade em cada faixa.”
Entre as músicas inéditas, a banda destaca “Sinto o Groove”, inspirada no Clube Frisson e em um antigo jingle de rádio dos anos 1990, como uma das faixas pelas quais demonstra maior expectativa.
Reconhecimento
A experiência internacional serviu para confirmar que a identidade construída em Natal encontra espaço também em outros países. Na primeira turnê pela Europa, a banda encontrou brasileiros em praticamente todas as cidades por onde passou, apresentou referências locais — como um cover de Chiclete com Banana — e viu o público estrangeiro responder mesmo sem compreender as letras. “Você consegue levar essa energia para um outro lugar, onde as pessoas nem estão entendendo sua língua, mas estão entendendo a sua linguagem.”
Segundo Elisa, a recepção confirmou que o esforço vale a pena. “O que a gente está fazendo só confirma que vale a pena todo o esforço, sair do trabalho e trabalhar mais ainda no terceiro turno.”
Apesar do reconhecimento conquistado dentro e fora do Brasil, os integrantes afirmam que o cenário cultural potiguar ainda enfrenta obstáculos estruturais. Para Elisa, falta incentivo para que artistas locais consigam crescer. “Se a gente não começar a olhar para o cenário, para a cultura daqui, para o que a gente tem dos nossos daqui, a gente não vai conseguir levar os nossos para fora. Falta muito incentivo.”

Pajux amplia a crítica e afirma que as políticas públicas de cultura não acompanham a produção artística existente. “Falta política pública. Esse é um ponto crucial.” Segundo ele, a concentração de recursos em grandes eventos não fortalece a produção cotidiana da cidade.
“Você tem uma classe artística que está sustentando a cultura dessa cidade cotidianamente, que faz a economia girar ao longo do ano, mas não existem investimentos diretos.”
O músico também cita a dificuldade enfrentada por jovens artistas independentes e defende programas permanentes de incentivo. “Todo mundo que conheço que trabalha com arte e cultura tem três, quatro empregos e ainda consegue fazer coisas incríveis.”
Ribeira como símbolo
Ao longo da conversa, a Ribeira aparece como uma síntese do que a banda defende para Natal: uma cidade que reconheça sua produção cultural para além dos cartões-postais. Pajux afirma que espaços como Clube Frisson, Ribeira Music e Galpão 292 mantêm viva a cena independente. “A Ribeira está na UTI. É diferente de dizer que está morta. Tem enfermeiros, médicos e trabalhadores mantendo isso.”
Para ele, fortalecer esses espaços significa fortalecer também a identidade cultural da cidade. “Falta fazer uma cidade para as pessoas que moram aqui. Aí, sim, ela vai ser interessante de verdade para quem visita.”
A banda mantém o foco na estrada. Depois da estreia em São Paulo e da apresentação no Rio de Janeiro, a expectativa é anunciar novas datas da Vitral Tour em Natal. O objetivo, segundo os integrantes, continua o mesmo que deu origem ao projeto: fazer a música produzida na capital potiguar circular sem perder a ligação com a cidade onde nasceu.