A popularização do tarô nas redes sociais, especialmente no TikTok, tem impulsionado não apenas a prática entre novos públicos, mas também o mercado editorial, que passou a investir em lançamentos temáticos e produtos voltados ao universo esotérico. A tendência, que ganhou força nos últimos anos, acompanha o aumento do interesse por conteúdos ligados ao autoconhecimento, espiritualidade e bem-estar.
Um dos exemplos desse movimento é o de Sávio Queiroz Jacynto, de 30 anos, que iniciou o contato com o tarô por curiosidade, apesar de se definir como cético. A aproximação ocorreu por influência de um amigo, em um momento de mudança pessoal, sem que ele imaginasse que a atividade se tornaria sua principal fonte de renda. Atualmente, ele mantém um dos perfis mais populares sobre o tema no TikTok, com mais de 140 mil seguidores e cerca de 3 milhões de curtidas.

Na plataforma, o criador publica conteúdos periódicos com leituras voltadas aos signos, em um formato que atrai seguidores interessados não apenas em previsões, mas também em reflexões sobre comportamento e rotina. Com a consolidação da audiência, Sávio deixou o emprego no comércio e passou a viver exclusivamente da atividade como tarólogo. “Eu recebo por volta de R$ 3 a 5 mil, depende muito do mês. Consulente (nome de quem busca uma sessão de tarô) para mim não falta”, conta.
O crescimento desse tipo de conteúdo integra um fenômeno conhecido como “Tarotok”, nicho que reúne mais de um milhão de publicações na rede social e conecta, principalmente, um público jovem interessado em práticas que dialogam com autocuidado e desenvolvimento pessoal. Ainda que o tarô tenha origem em tradições esotéricas, sua presença digital tem ampliado o alcance e ressignificado a forma de consumo.
Segundo especialistas do setor editorial, o aumento do interesse pelo tema está relacionado a contextos recentes de instabilidade. “Tradicionalmente, há maior interesse e procura por artes divinatórias em momentos históricos marcados por transformações, incertezas e anseio por sentido”, avaliam Marcia Heloisa e Nilsen Silva.
As editoras passaram a acompanhar essa demanda com uma oferta diversificada de produtos, que inclui desde livros introdutórios até baralhos ilustrados com referências da cultura pop. A Darkside Books, por exemplo, tem investido em decks inspirados em personagens e universos ficcionais, ampliando o diálogo com leitores de diferentes perfis e faixas etárias.
A estratégia não se limita ao público jovem. Segundo os editores, a proposta é atender leitores e colecionadores com vínculos afetivos variados. “Nossa curadoria parte da ideia de que o tarô é plural e pode dialogar com diferentes sensibilidades, referências culturais e momentos de vida. Por isso, buscamos baralhos variados”, afirmam.
Outras casas editoriais também passaram a explorar o tema sob novas abordagens. A Editora Arqueiro lançou recentemente a trilogia “Academia Arcana”, da escritora Elise Kova, que incorpora o tarô como elemento central da narrativa. A obra foi disponibilizada em diferentes formatos, incluindo edições especiais que acompanham cartas colecionáveis, estimulando o engajamento dos leitores com o universo simbólico do tarô.
A movimentação reflete uma tentativa do mercado de inovar em produtos e formatos. “Ficamos de olho em livros que possam falar sobre o tema de forma diferente. Muito foi dito, muito é dito e muito ainda continuará a ser dito sobre o tarô. Então, como trazer algo que seja diferenciado ao leitor?”, afirma Frini Georgakopoulos.
No ambiente digital, o crescimento do tarô também se conecta à busca por respostas em um cenário marcado por mudanças sociais e econômicas. Para profissionais da área, a adaptação às novas plataformas tem sido decisiva para ampliar o alcance da prática. “Quem não inova para no tempo. O mundo físico e espiritual é feito de transformações constantes. Ficar parado é não acreditar na evolução”, afirma Michaele Menezes Parente.
A presença do tarô nas redes sociais, aliada à expansão de produtos editoriais e ao interesse por práticas de autoconhecimento, indica uma consolidação da tendência. Ao mesmo tempo, o fenômeno evidencia como conteúdos tradicionais podem ser ressignificados em ambientes digitais e incorporados a novos hábitos de consumo cultural.