O avanço das mudanças climáticas já provoca efeitos perceptíveis no litoral leste potiguar, onde fica Natal, especialmente no aumento das temperaturas. A avaliação é do meteorologista Gilmar Bristot, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn), em entrevista concedida ao AGORA RN. Segundo ele, o crescimento urbano desordenado e a verticalização da capital potiguar contribuíram para elevar a temperatura média da cidade, que passou de 25,5 °C nas décadas de 1960 e 1970 para cerca de 27 °C nas últimas décadas.
“A temperatura média subiu, mas não foi por causa da máxima, que ainda gira em torno de 31 a 32 graus. Foi a mínima que aumentou, e isso é mais preocupante. Nos meses mais frios, como junho, julho e agosto, a mínima ficava entre 19 e 21 graus. Hoje, dificilmente se registra abaixo de 23 graus”, destacou Bristot.

Essa elevação da temperatura está associada à redução da cobertura vegetal e à impermeabilização do solo em Natal. “Estamos virando uma nova Recife, toda impermeabilizada. A água da chuva já não infiltra no solo e causa alagamentos com volumes muito pequenos. Uma chuva de 10 milímetros já alaga a cidade”, afirmou.
Bristot alerta para os impactos do fenômeno no Nordeste. A elevação da temperatura dos oceanos, provocada em parte pelo derretimento das calotas polares, tem alterado o comportamento das chuvas. “Nos últimos anos, o Atlântico Norte e Sul apresentaram temperaturas muito acima da média. Isso influencia diretamente o regime de chuvas na nossa região”, explicou.
O especialista ressalta que, diferente da temperatura, as chuvas no Nordeste são determinadas por fatores externos, principalmente as condições dos oceanos Atlântico e Pacífico. “A variabilidade pluviométrica aqui é definida por padrões planetários. El Niño dificulta as chuvas; La Niña facilita. O Atlântico Sul, quando está mais quente, também favorece a formação de chuvas”, apontou.
Contudo, ele observa que as precipitações vêm se concentrando em curtos períodos, o que causa mais transtornos nas cidades. “O que se percebe é uma mudança no padrão. As chuvas ocorrem com mais intensidade e em menos tempo, o que sobrecarrega o sistema de drenagem urbana”, disse.
Além dos efeitos nas cidades, a mudança climática tem reflexos diretos na agricultura e no abastecimento hídrico. No interior do RN, regiões como o Seridó sofrem com a escassez de água desde 2012. “A massa hídrica não tem se recuperado. As temperaturas mínimas também subiram no Seridó, o que acelera a evaporação e impede a recarga dos reservatórios. Sem adutoras ou água da transposição do São Francisco, o abastecimento está comprometido”, alertou.
O aumento da temperatura média também impacta a produção agrícola. Bristot explica que culturas como milho e feijão, comuns na agricultura familiar do Estado, demandam um ciclo de 90 dias com disponibilidade de água. Com a aceleração do ciclo hidrológico, esse tempo tende a diminuir. “Se a temperatura subir dois graus, talvez só haja água por 70 dias. A planta vai precisar se desenvolver mais rápido, o que exige pesquisa e novas variedades adaptadas. Isso é um problema sério”, afirmou.
O meteorologista também fez um alerta sobre os impactos ambientais de empreendimentos considerados sustentáveis, como os parques eólicos. “A energia eólica não é tão limpa quanto parece. A instalação das turbinas exige a retirada da vegetação nativa, o que interfere na produção agrícola e aumenta a vulnerabilidade das áreas ao escoamento da água”, disse, citando exemplos nas regiões de Serra do Mel e Lajes.
Diante desse cenário, Bristot defende a adoção de políticas públicas voltadas para a adaptação às mudanças climáticas, com foco em saneamento, urbanismo e educação ambiental. “Precisamos tratar melhor o esgoto. Isso influencia até na qualidade da água que bebemos. Em Natal, os poços têm alto teor de nitrato por causa do esgoto lançado no solo. É preciso pensar o enfrentamento da crise climática de baixo para cima, começando pelo básico”, concluiu.
Mudanças climáticas exigem nova postura do poder público, alerta coordenadora do Idema-RN
O agravamento das mudanças climáticas no Rio Grande do Norte já compromete a capacidade de prever cenários meteorológicos, impacta a produção agrícola e evidencia a vulnerabilidade das populações mais pobres. A avaliação é de Wanessa Dunga, doutora em Engenharia Civil e Ambiental e atual coordenadora de Mudanças do Clima e Desertificação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema-RN). Em entrevista ao AGORA RN, ela fez um alerta sobre a urgência de políticas públicas de adaptação no Estado.
“Os cenários meteorológicos são cada vez mais fragilizados pelas mudanças climáticas. A gente já não consegue prever com a mesma certeza de antes. Temperaturas médias estão mais altas e as ondas de calor são mais frequentes”, afirmou. Essa instabilidade afeta especialmente o pequeno agricultor, que depende de previsões confiáveis para planejar o plantio. “Viver da agricultura nunca foi fácil, mas agora ficou ainda mais difícil prever”, reforçou.
Wanessa explicou que os impactos se manifestam de formas distintas nas diversas regiões do RN. Enquanto o litoral sofre com o avanço do nível do mar e a erosão de falésias, as cidades enfrentam alagamentos por chuvas intensas e concentradas. No interior, 90% do território está no semiárido e já vive situações recorrentes de escassez hídrica, sobretudo no Seridó, no Alto Oeste e no Sertão Central. “São áreas suscetíveis à desertificação, com safras fragilizadas e impactos severos sobre pequenos agricultores e criadores”, afirmou.
Ela ressaltou que o agravamento da crise climática é um processo já bem documentado e que não se trata apenas de um novo ciclo climático. “Muitos ainda tentam negar, dizendo que é apenas mais um ciclo natural. Mas nossa realidade foi modificada há décadas. Não temos mais a mesma capacidade de regeneração de antes. Não se trata mais de reverter, mas de mitigar”, enfatizou.
Segundo Wanessa, é essencial compreender que é preciso mudar a consciência para reverter o quadro de mudanças climáticas. “Não é negando que pequenas ações causam mudanças. É o contrário: são as grandes ações, conduzidas pelo setor produtivo e poder público, que podem provocar impactos significativos. Precisamos cobrar os decisores que têm condições reais de mudar a realidade”, disse.
A coordenadora defendeu a necessidade de proteger os mais vulneráveis, como agricultores familiares, pescadores e comunidades tradicionais, que têm menor capacidade de adaptação. Para ela, é preciso reorientar o modelo de produção e consumo, com decisões mais conscientes. “O setor produtivo precisa ser mais limpo e incluir critérios ambientais em todos os seus processos. Essa mudança tem que vir desde a base”, afirmou.
Wanessa também destacou que o Rio Grande do Norte ainda não possui uma política estadual de mudanças climáticas, mas o Idema está trabalhando para reverter esse cenário. “Estamos lutando para que essa política seja publicada, para podermos elaborar um plano de adaptação. Precisamos entender como o estado deve se posicionar diante da agenda climática”, explicou.
Entre as medidas em curso está a criação de critérios climáticos nos processos de licenciamento ambiental. “Não dá para continuar licenciando como antes. É necessário considerar aspectos como o grau de desertificação das áreas. Temos que saber quais impactos diretos a mudança do clima pode trazer para uma unidade de conservação, por exemplo”, pontuou.
A estrutura voltada à questão climática dentro do Idema é recente — o setor foi criado há apenas seis meses —, mas já há iniciativas em andamento, como a elaboração do primeiro inventário estadual de gases de efeito estufa. O documento está disponível no site do órgão e detalha os principais setores emissores no estado. “Usamos como base o sistema que gerou o inventário nacional e fizemos um recorte para o RN. A partir das próximas atualizações, vamos incorporar mais detalhes e incluir outros gases para estudo”, finalizou.