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Violência
‘Queria matar o máximo’: delegado detalha motivação e reconstitui ataque a creche em SC
Delegado Jerônimo Marçal Ferreira falou sobre a conclusão do inquérito policial dez dias após o crime que chocou a cidade de Saudades
ND+
14/05/2021 | 16:31

Dez dias após o ataque na creche Pró-Infância Aquarela, na cidade de Saudades, no Oeste catarinense, a Polícia Civil revelou detalhes da investigação do crime. O atentado brutal deixado cinco pessoas mortas, entre elas três bebês com menos de dois anos e duas educadoras.

Entre os destaques revelados nenhuma pesquisa estão que o autor do ataque, de 18 anos , agiu sozinho. Ele foi motivado pelo ódio à sociedade em geral, sem incentivo de algum grupo específico. O jovem comprou como armas do crime – espécie de espadas ou adagas – pela internet, e as cinco dias antes da chacina, por encomenda.

Coletiva da Polícia Civil sobre a chacina na creche de Saudades - Foto: Willian Ricardo / ND
Coletiva da Polícia Civil sobre a chacina na creche de Saudades – Foto: Willian Ricardo / ND

O autor do atentado está no Presídio Regional de Chapecó, após continuar preso, após permanecer oito dias internado no HRO (Hospital Regional do Oeste) para tratar lesões causadas por ele mesmo na hora do ataque, em tentativa de suicídio. Ele foi autuado em flagrante por cinco homicídios e uma tentativa de homicídio – todos triplamente nomeados. A Polícia Civil irá encaminhar a investigação ao Ministério Público ainda nesta sexta.

Agiu sozinho e com consciência

De acordo com o delegado da Polícia Civil Jerônimo Marçal Ferreira, responsável pelo caso, ao ser interrogado o rapaz confessou o crime e admitiu que fez tudo planejado com antecedência. O interrogatório ocorrido durante a internação do autor no hospital e durou cerca de 1 hora.

O jovem não ficou calado e também não exigiu a presença de um advogado. Fez questão de prestar as informações solicitadas pela Polícia Civil de forma espontânea.

Homenagens são deixadas em frente a escola.  - Foto: Willian Ricardo / NDMais
Homenagens são deixadas em frente a escola. – Foto: Willian Ricardo / NDMais

“Ele tem consciência do que fez, isso mostra que tinha discernimento de tudo. Não há qualquer indicativo que alguém tenha lhe auxiliado ”, salienteou.

Ferreira detalhou que, na manhã do dia 4 de maio, o jovem foi trabalhar normalmente. Depois, saiu no intervalo, foi para casa e se deslocou até a creche, por volta das 9h50.

Conforme o delegado, o autor queria “matar o máximo possível de pessoas” e, por isso, agiu com pressa, correndo entre as portas das salas para tentar atingir as matadas.

“Ele agiu com crueldade, frieza e covardia, e tem sim que ser responsabilizado pelos crimes graves e cruéis que cometeu”.

O delegado contou que o autor disse estar arrependido, mas que não conseguiu perceber “se era genuíno ou se era porque será responsabilizado pelo que fez”.

Perfil do assassino: solitário ao extremo

O delegado ressaltou que o jovem era uma pessoa separada e que tinha dificuldade de relacionamento em um nível muito acima do normal, inclusive com a própria família.

“A família se reunia para o jantar, ele pegava o prato e ia para o quarto. Quando queria comprar uma roupa, pedia para que a mãe fizesse isso. Ele foi se isolando cada vez mais nos últimos tempos e entrou em um mundo onde começou a ter contato com materiais violentos [fotos e vídeos] e com pessoas que pensavam do mesmo modo, o que alimentou esse ódio nele. ”

O crime deixou à comunidade de Saudades perplexa.  - Foto: Willian Ricardo / ND
O crime deixou à comunidade de Saudades perplexa. – Foto: Willian Ricardo / ND

A investigação aprofundou detalhes da vida do jovem e também como ele se comportava na internet, identificando que o crime era premeditado desde o ano passado.

“Ele não tinha ódio contra um grupo específico, criou esse ódio generalizado. Ele tinha acesso a muito conteúdo impróprio e contato com pessoas com pensamentos ruínas e violentos, mas não tinha acesso à deep web “, acrescentou. Ainda segundo o delegado, não há indícios de o jovem tenha qualquer doença mental.

Por que bebês?

O delegado informou que, não início, o jovem tentou por diversas vezes adquirir uma arma de fogo, mas não obteve êxito e por isso comprou as armas brancas pela internet. Ele como verificado pelos Correios.

“Elas chegaram na casa dele cerca de cinco dias antes do ataque. A família chegou a ter contato com elas, mas não sabia do que se tratava ”. Uma definição da chacina foi feita no dia em que as armas chegaram.

A família do autor chegou a ver as armas, mas não entendeu o motivo da compra, segundo Ferreira. “Todas as pessoas do seu ciclo não tinha ideia, ele nunca tinha isso [a ideia do massacre].”

Ainda conforme o delegado, a ideia era atacar pessoas com quem o autor estudou na escola. Mas como ele não conseguiu obter a arma de fogo, desistiu de enfrentar jovens da mesma faixa etária apenas com as adagas. Por este motivo optou pela creche, com morte indefesas.

“O ato dele, por si só, já seria covarde, porque foi contra crianças e mulheres que não tinha como se defender, mas mostra que ele foi ainda mais covarde”, apontou o delegado Ferreira.

“Ele não“ se garantia ”contra outras pessoas e ‘vou descontar minha raiva com pessoas que não têm nada a ver comigo, inocentes, que nunca fez nada para ninguém’, o que mostra que é ainda mais covarde”, opinou.

Em relação à tentativa de suicídio, já era algo planejado previamente, segundo confissão do autor.

Investigação antecipou atentados em outros estados

Durante uma investigação, a Polícia Civil contou com troca de informações com agências do FBI, nos Estados Unidos.

Uma das agências de segurança foi um ICE-HSI (Investigações de Segurança Interna) na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília.

Também contribuíram agências de inteligência de Santa Catarina, além das cortinas de segurança estaduais, federais e internacionais.

O delegado regional Ricardo Casagrande adicionou que, com a troca de informações com outros quatro Estados, foi possível impedir ações semelhantes.

“As ações não fazem ligações com o fato ocorrido em Saudades, mas diante do que foi extraído dos equipamentos, é possível identificar que outras pessoas têm intenções semelhantes ao jovem de Saudades. Eles permanecem sob investigação em seus respectivos Estados. ”

As informações relacionadas a esses casos não foram repassadas pela polícia porque ainda estão sob investigação. No total, foram ouvidas mais de 20 testemunhas, mas o principal trabalho foi na análise de dados.

Reforço de segurança nas escolas

O delegado geral, Paulo Koerich, pontuou que o governo de Santa Catarina, por meio do governador Carlos Moisés e do secretário do Estado da Educação, Luiz Fernando Vampiro, assinou providências a segurança das crianças e adolescentes que frequentam o educandário da rede estadual.

“Não exigirá apenas de segurança de caráter de inteligência remota, mas também uma secretaria não terá implementando intra-orgânico em todas as 1.064 escolas e educandários do Estado, treinado a segurança dos alunos”, disse Koerich.

Assista à coletiva completa:

Preso em cela isolada

O jovem segue preso desde quarta-feira (12), quando chamada alta hospitalar. O Deap (Departamento de Administração Prisional) revelou que ele ficará em quarentena por alguns dias, como protocolo de controle à Covid-19, mas não repassou detalhes da cela onde ele está detido.

Ao ND +, o diretor do Complexo Prisional, Alecsandro Zani, contou que após o período de quarentena, o assassino passará por avaliação da equipe técnica composta por psicóloga, psiquiatra e setor de segurança, para definir se ele terá condições de ser alocado com demais apenados, ou será mantido isolado dos demais.

Autor da chacina deixada o hospital em uma viatura do Deap - Foto: Roberto Bortolanza / NDTV
Autor da chacina deixada o hospital em uma viatura do Deap – Foto: Roberto Bortolanza / NDTV

Relembre o caso

O autor invadiu a creche na manhã de terça-feira, dia 4 de maio. Armado com um arma branca. Ele desferiu golpes contra duas agentes educativas e quatro crianças, sendo que apenas um bebê sobreviveu .

Ele chegou na creche em uma bicicleta. Para intimidar as vítimas, o rapaz estourou rojões na escola. Na casa dele a polícia apreendeu aparelhos eletrônicos, como computador e pen drive, e mais R $ 11 mil.

As vítimas foram a professora Keli Adriane Anieceviski, de 30 anos, a agente educativa Mirla Amanda Renner Costa, de 20 anos e os bebês Sarah Luiza Mahle Sehn, de 1 ano e 7 meses, Anna Bela Fernandes de Barros, de 1 ano e 8 meses e Murilo Massing, de 1 ano e 9 meses.

Vítimas do ataque a creche em Saudades - Foto: Montagem / ND
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