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Investigação

Contratado por produtora de Dark Horse é apontado como membro do PCC

Polícia investiga possível desvio de recursos de contrato de R$ 108 milhões firmado pela Prefeitura de São Paulo com ONG presidida por produtora do filme sobre Jair Bolsonaro
Redação
26/06/2026 | 15:31

A empresa Favela Conectada, que tem como sócio Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado por investigações como suposto integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), recebeu cerca de R$ 12 milhões em contratos firmados com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização investigada por suspeita de desvio de recursos públicos destinados à instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades da cidade de São Paulo.

O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, firmou contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para implantar 5 mil pontos de internet gratuita em áreas periféricas da capital paulista. Segundo investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), parte dos recursos pode ter sido desviada.

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Investigação apura repasses milionários a empresa ligada a homem apontado como suposto integrante do PCC em contrato de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo - Foto: Reprodução

Uma das linhas investigativas apura se recursos do contrato teriam sido utilizados para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A produtora responsável pelo longa é a Go Up Entertainment, que também tem Karina Gama entre suas sócias.

De acordo com autoridades do Ministério Público, Alex Leandro Bispo teria se aproximado da facção criminosa durante o período em que cumpriu pena em unidades prisionais dominadas pelo PCC, incluindo a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista. Ele nega qualquer vínculo com a organização criminosa.

Alex Leandro possui três condenações por roubo e cumpriu cerca de 13 anos de prisão em regime fechado, passando por pelo menos 13 unidades prisionais. Entre os crimes pelos quais foi condenado está o sequestro de um sobrinho do deputado estadual Eduardo Suplicy.

Em dezembro do ano passado, Alex voltou a ser preso, acusado de jogar do décimo andar de um prédio sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva. Durante a investigação, a polícia obteve um vídeo em que ele teria afirmado possuir o “escorpião do PCC”, expressão que, segundo investigadores, faz referência a um símbolo associado à facção criminosa.

Na decisão que tornou Alex Leandro réu, a juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro, da 5ª Vara do Júri, mencionou que o acusado já havia sido condenado anteriormente e que existiam relatos de que ele “vangloriava-se em ser ‘escorpião do PCC’ e em ter ‘irmãos'”, circunstâncias que, segundo a magistrada, poderiam indicar vínculo com a organização criminosa.

Contrato sob investigação

A Favela Conectada foi contratada pelo Instituto Conhecer Brasil para realizar serviços de instalação e manutenção dos pontos de internet, recebendo R$ 712 mensais por ponto instalado.

Segundo a investigação, em uma das operações financeiras analisadas, a empresa recebeu o equivalente a 12 mensalidades de manutenção referentes a 218 pontos instalados entre os dias 22 e 28 de abril de 2025, embora o contrato tivesse vigência apenas até 30 de junho daquele ano.

Os investigadores apontam que, enquanto a Prefeitura de São Paulo pagou aproximadamente R$ 2,7 milhões ao ICB pela manutenção desses pontos, o custo efetivo do serviço prestado teria sido de cerca de R$ 273 mil.

A Favela Conectada foi contratada para instalar 2 mil pontos de acesso à internet. Documentos obtidos pela investigação mostram que o contrato foi assinado apenas com o primeiro nome “Alex” e parte do CPF do contratado. Posteriormente, o nome completo de Alex Leandro Bispo dos Santos aparece em documentos complementares assinados também por Maria Katiane Gomes da Silva.

Segundo a investigação, a empresa funciona no mesmo prédio de um escritório cujo aluguel era pago pelo Instituto Conhecer Brasil com recursos do contrato público.

Operação aponta superfaturamento

A investigação conduzida pela Polícia Civil, denominada Operação Sem Wi-Fi, aponta que a Prefeitura de São Paulo pagou valores até 230% superiores aos praticados no mercado para a instalação e manutenção dos pontos de internet.

De acordo com os investigadores, enquanto a empresa municipal Prodam cobrava R$ 306 pela instalação, além de R$ 200 mensais de manutenção por ponto, o contrato firmado com o ICB previa pagamento fixo de R$ 1.800 por ponto.

Em nota enviada à imprensa, a Prefeitura de São Paulo afirmou que o custo estimado da parceria para 2026 corresponde a R$ 1.280 por ponto ao mês, valor que, segundo a administração municipal, é inferior às propostas recebidas em 2022, que variavam entre R$ 2.026,26 e R$ 5.092,14 por ponto mensal.

Principais suspeitas investigadas

Entre os pontos apurados pela investigação estão:

  • suposta falta de capacidade técnica do Instituto Conhecer Brasil para executar serviços de telecomunicações;
  • possível superfaturamento nos valores contratados;
  • descumprimento das metas de instalação previstas no contrato;
  • celebração de aditivos contratuais para justificar atrasos;
  • antecipação de aproximadamente R$ 26 milhões sem comprovação da prestação dos serviços;
  • pagamento por 3.200 pontos de internet quando, segundo a investigação, apenas seis estariam em funcionamento em determinado período.

As investigações seguem em andamento na Polícia Civil e no Ministério Público de São Paulo.