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Violência

Psicóloga alerta para avanço da violência digital contra crianças e adolescentes

Especialista afirma que crimes virtuais como grooming, sextorsão e cyberbullying têm provocado autolesão, depressão e tentativas de suicídio
Por O Correio de Hoje
29/05/2026 | 14:45

A psicóloga Débora Sampaio alertou para o avanço da violência digital contra crianças e adolescentes e afirmou que muitos pais ainda não reconhecem situações virtuais como formas de violência. Em entrevista à rádio 96 FM, nesta sexta-feira 29, ela destacou que crimes como grooming, sextorsão, cyberbullying e estupro virtual têm provocado impactos psicológicos graves, incluindo autolesão, depressão e tentativas de suicídio.

“Esse é um tema extremamente necessário porque a violência migrou para as telas e muitos pais, muitos adultos, muitas crianças e adolescentes ainda não reconhecem muitas vezes essas situações como violência”, afirmou.

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Psicóloga Débora Sampaio alerta para o uso da IA em imagens falsas - Foto:

Segundo Débora Sampaio, crianças e adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis dentro do ambiente digital porque acreditam que as interações online não representam perigo. Ela explicou que muitos crimes começam pela construção de uma relação de confiança entre agressor e vítima.

“A maioria desses crimes, como o grooming e sextorsão, iniciam na construção de uma relação de confiança. Por exemplo, é um adulto que se passa por uma criança ou uma adolescente, cria um perfil falso, começa a conversar, às vezes através de uma plataforma de jogos, às vezes através de uma rede social, e vai compartilhando, criando amizade, até que chega um determinado momento que ele ou ele envia uma foto para esse adulto ou esse adulto solicita dele uma foto íntima, por exemplo”, relatou.

A psicóloga afirmou que, após o envio do conteúdo íntimo, inicia-se um ciclo de ameaças e chantagens. “O ciclo muda, começa um ciclo de chantagem e ameaça, que é a violência que vai acontecendo muitas vezes. Nós não conversarmos com as crianças e adolescentes sobre isso, elas não se dão conta de que isso é um crime e não compartilham com ninguém. Então sofrem em silêncio, chegando muitas vezes a se autolesionar, a se submeter a situações de extrema violência, como estupro virtual, por exemplo, e às vezes ao extremo, que é tentar tirar a própria vida”, disse.

Débora também afirmou que existe desconhecimento por parte dos adultos sobre os riscos digitais. “Nós somos a última geração analógica educando uma geração completamente digital. Estamos com a geração alfa, de adolescentes, e a geração beta, que iniciou ano passado, 2025, que é uma geração que já vem também crescendo dentro de um novo elemento que é a inteligência artificial”, declarou.

Ela citou o “ECA digital” como um avanço na regulamentação da proteção de crianças e adolescentes no ambiente online. “É a lei que vai trazer toda uma regulamentação nessa proteção de crianças e adolescentes também no mundo digital, porque o antigo ECA é de 1990”, explicou.

Segundo a psicóloga, o enfrentamento da violência digital exige atuação conjunta de famílias, escolas, plataformas e poder público. “O próprio ECA digital traz que essa responsabilidade precisa ser compartilhada. Famílias, escolas, sociedade como um todo, o poder legislativo e as plataformas. A gente está agora tendo um movimento de maior atenção na proteção das crianças e dos adolescentes”, afirmou.

Ao explicar o conceito de grooming, Débora definiu a prática como um “aliciamento digital”. Ela ressaltou que os crimes geralmente acontecem por meio de vínculos afetivos e de atenção emocional. “Todos esses crimes dos predadores sexuais acontecem por meio de uma relação de confiança e afeto”, afirmou.

A psicóloga defendeu que pais acompanhem o conteúdo acessado pelos filhos. “Às vezes os pais se preocupam muito com a questão do tempo de tela dos filhos, e muito mais do que o tempo é o conteúdo. E aí fica uma pergunta: você sabe o que o seu filho acessa? O que é que ele gosta? Que jogo? Que plataforma?”, questionou.

Ela afirmou que determinados níveis de privacidade não devem existir em algumas faixas etárias. “Hoje nós temos estatísticas que mostram, por exemplo, que criança tem primeiro contato com pornografia aos 9 anos de idade. Na hora que a gente entrega um dispositivo eletrônico, um celular, um tablet, com internet, para uma criança, nós precisamos orientá-las”, disse.

Entre as recomendações dadas pela especialista está o monitoramento do uso noturno de celulares e tablets. Débora relatou que os dispositivos eletrônicos têm sido uma das principais causas de conflitos familiares. Ao abordar a autoridade dos pais sobre o uso dos aparelhos, a psicóloga afirmou que a supervisão é necessária.

Débora também explicou o funcionamento da sextorsão, crime baseado em chantagem com conteúdos íntimos. Ela ressaltou que o crime pode ser denunciado. Outro ponto abordado foi o uso da inteligência artificial na manipulação de imagens. Segundo a psicóloga, criminosos conseguem criar “nudes falsos” para ameaçar vítimas.

Débora afirmou que criminosos utilizam informações pessoais para aumentar o terror psicológico. A psicóloga destacou que as delegacias já possuem protocolos específicos para crimes digitais. A psicóloga afirmou que muitas vítimas têm medo de procurar ajuda e orientou que famílias não apaguem conversas ou mensagens ao descobrirem os crimes, para evitar a perda de provas.