A Prefeitura do Natal planeja a construção de três reservatórios subterrâneos em Ponta Negra para reduzir a formação dos espelhos d’água na faixa de areia da praia após chuvas fortes. A intervenção é tratada pela Secretaria Municipal de Infraestrutura de Natal como obra complementar à drenagem da engorda e deve custar R$ 21 milhões. A abertura da licitação está marcada para 27 de maio, com prazo estimado de cinco meses para execução após a conclusão do processo. O projeto foi detalhado em primeira mão em reportagem de O CORREIO DE HOJE.
A secretária municipal de Infraestrutura, Shirley Cavalcanti, afirma que a nova etapa busca reter parte da água ainda no bairro, antes que ela desça para a praia. “A gente tomou a atitude de avançar com esse estudo de novos reservatórios. Vamos fazer esses reservatórios na rua, três grandes reservatórios que começam a reter essa água lá em cima”, afirmou na manhã desta segunda-feira, em entrevista ao programa Contraponto, da 96 FM, apresentado pelo jornalista Diógenes Dantas, também colunista do jornal Agora RN.

Um reservatório ficará na Rua Praia de Pirangi, próximo à Avenida Praia de Ponta Negra; outro na Francisco Gurgel, na descida da rotatória em direção à praia; e o terceiro por trás do restaurante Old Five, perto do Morro do Careca. A estrutura da Praia de Pirangi deve segurar parte da água que vem desde a região do Frasqueirão. Já a intervenção da Francisco Gurgel atuará antes da chegada ao dissipador 9, apontado pela secretária como o ponto que recebe cerca de 70% da contribuição da bacia.
A obra tenta responder ao principal desgaste da engorda de Ponta Negra. Desde a conclusão da intervenção, a nova faixa de areia passou a acumular água em períodos chuvosos, formando poças extensas que geraram críticas de moradores, comerciantes, frequentadores e órgãos de controle. O Ministério Público Federal moveu ação civil pública cobrando obras emergenciais, manutenção, limpeza e reestruturação do sistema de drenagem, apontando riscos à saúde pública, ao turismo, ao Morro do Careca e à própria faixa de areia.
Shirley Cavalcanti afirmou que a Prefeitura não nega o problema, mas sustenta que os espelhos d’água já eram uma possibilidade prevista no projeto de drenagem escolhido para a engorda. Segundo ela, chuvas acima de 40 milímetros já podem provocar acúmulo de água na praia, e Ponta Negra chegou a registrar precipitação de 120 milímetros, volume que amplia o problema. “A formação dos espelhos d’água já estava nesse projeto dos dissipadores”, disse. “A gente já sabia que eles iriam se formar com água de chuva.”
A secretária também apontou a água servida que desce do bairro como agravante. Segundo ela, essa contribuição sempre existiu, mas antes seguia diretamente para o mar porque não havia faixa de areia ampliada. “As pessoas só não viam aquela água suja. Ela descia para a maré direto”, afirmou. Com a engorda, a água passou a ficar mais visível na areia.
A drenagem original da obra foi baseada em 16 dissipadores de energia, estruturas de concreto usadas para reduzir a velocidade da água que desce do bairro até a praia. Shirley Cavalcanti explicou que, durante os estudos da engorda, foram avaliadas três alternativas: emissários submarinos, lagoas ou reservatórios e dissipadores. Segundo ela, o emissário submarino exigiria licenciamento complexo, audiências públicas e investimento próximo de R$ 100 milhões. As lagoas, por sua vez, dependeriam de áreas que Ponta Negra não teria disponíveis para reter o volume da bacia, estimado em até 200 milhões de litros em chuvas intensas.
A opção inicial, portanto, foi pelos dissipadores. “Eles seguram essa força da água e essa água desce mais lentamente para a faixa”, explicou. Para a secretária, o sistema funciona, mas se mostrou insuficiente diante de chuvas mais fortes e da presença de água servida. “Está funcionando plenamente? Está funcionando. Está positivo? Não. A gente está vendo o que está negativo e essa obra complementar vem para isso”, afirmou.
A gestora também rebateu críticas ao relatório do Ministério Público Federal e negou a existência de “tubulação falsa” na obra. Segundo ela, uma tubulação foi reposicionada por decisão técnica para impedir que a água vinda do calçadão entrasse nos dissipadores. Shirley Cavalcanti disse ainda que canos de PVC no dissipador 16, perto do Morro do Careca, fazem parte do projeto e servem para espalhar a água mais lentamente, evitando erosão. Outro ponto questionado, segundo ela, foi interpretado como lona, mas seria manta geotêxtil, material usado em obras de drenagem para reter sedimentos sem barrar a passagem da água.
A crise também chegou à Câmara Municipal de Natal. A vereadora Brisa Bracchi (PT) pediu a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para apurar a engorda. Shirley Cavalcanti afirmou que a Prefeitura não teme investigação e que todos os esclarecimentos serão prestados caso a comissão avance. Disse, porém, que o prefeito Paulinho Freire (União) tem maioria na Casa e que os vereadores já receberam informações técnicas sobre a obra.
A secretária negou que a engorda tenha sido executada às pressas. Segundo ela, a solução dos dissipadores estava definida desde 2022, foi discutida em audiência pública e constava no processo de licenciamento ambiental. Para a Prefeitura do Natal, os novos reservatórios não representam correção de uma obra sem drenagem, mas uma etapa complementar para reduzir o impacto visual e sanitário da água acumulada na praia.