BUSCAR
BUSCAR
Acolhimento

Perfil desejado por famílias trava adoção de crianças no RN

Desde 2019, RN registrou 391 adoções; Programa Pontes da Esperança oferece apoio e tenta aproximar adolescentes acolhidos de possíveis famílias adotivas
Redação
26/05/2026 | 05:27

O Brasil tem atualmente 36.428 crianças e adolescentes vivendo em situação de acolhimento institucional, segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento. No Rio Grande do Norte, são 266 jovens acolhidos. Os números foram lembrados nesta segunda-feira 25, Dia Nacional da Adoção, data voltada à conscientização sobre o direito à convivência familiar e os desafios enfrentados por crianças e adolescentes que aguardam uma família.

De acordo com os dados oficiais, o País possui 6.247 crianças e adolescentes aptos à adoção. No Rio Grande do Norte, esse número é de 45. Enquanto isso, existem 32.568 pretendentes habilitados para adoção em todo o Brasil, sendo 560 no RN.

adocao
Desde 2019, o Rio Grande do Norte registrou 391 adoções, de acordo com os dados oficiais do sistema nacional - Foto: Reprodução

Apesar da diferença entre o número de pretendentes e o de crianças disponíveis, especialistas apontam que o perfil desejado pelas famílias ainda representa um dos principais obstáculos para adoção. Crianças mais velhas, adolescentes, grupos de irmãos e jovens com necessidades específicas costumam permanecer mais tempo no sistema de acolhimento.

No Rio Grande do Norte, 41 pessoas ou famílias estão atualmente em processo de adoção. Desde 2019, foram registradas 391 adoções no Estado. Em todo o País, o número chegou a 33.559 adoções no mesmo período.

Em Parnamirim, um projeto criado pelo Ministério Público tenta ampliar as chances de adoção tardia. O programa Pontes da Esperança, desenvolvido com apoio do município desde setembro do ano passado, busca dar visibilidade protegida a adolescentes e crianças fora do perfil mais procurado pelos pretendentes cadastrados no sistema nacional.

“A intenção é dar uma visibilidade protegida às crianças e adolescentes que não têm um perfil tão fácil no sistema nacional de adoção. São crianças com demandas específicas de saúde, grupos de irmãos e adolescentes”, disse a promotora de Justiça Gerliana Lima em entrevista à TV Tropical.

promotora
Promotora de Justiça Gerliana Lima – Foto: Reprodução

Atualmente, três adolescentes aguardam adoção no município: duas meninas, de 15 e 16 anos, e um rapaz de 17 anos. Para os jovens que atingem a maioridade sem adoção, a cidade mantém políticas de apoio, como aluguel social, prioridade em programas habitacionais, incentivo ao primeiro emprego e bolsas integrais em universidades privadas parceiras.

“Nós temos uma lei que quando as fábricas, essas grandes indústrias se instalam aqui em Parnamirim, um percentual de vagas tem que ser destinado prioritariamente a estes adolescentes para conseguir primeiro emprego”, destaca a promotora.

O voluntário Emerson Luiz, integrante do grupo de apoio à adoção Abrace, contou que sua própria família foi construída pela adoção. Pai de dois filhos adotivos, ele afirmou que hoje atua ajudando pretendentes a entenderem os procedimentos legais e emocionais envolvidos no processo.

“Minha família foi constituída realmente pela via da adoção e, desde então, eu venho galgando esse tempo ajudando também aquelas pessoas no acesso à informação e à legalidade, que é o principal. A gente forma o pretendente para que ele trabalhe da forma correta e seja também nosso voluntário para trazer a informação no município para aquelas pessoas que precisam”, disse.

Encontro

O Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, através da Coordenadoria Estadual da Infância e da Juventude (Ceij), encerrou a 12ª Semana Estadual da Adoção promovendo um encontro entre 50 pretendentes e 33 crianças e adolescentes de vários municípios do RN aptos à adoção. A ação aconteceu na manhã do último sábado 23, na Arena das Dunas. A escolha do local foi para aliar esporte e recreação, objetivando motivar as crianças e adolescentes para que se sintam mais acolhidas e promover uma maior interação entre quem quer adotar e quem precisa de uma família. Além disso, contou a localização e proporcionar uma nova experiência para as crianças e adolescentes.

retranca encontro
Crianças e adolescentes participaram de encontro promovido pelo Judiciário – Foto: Divulgação/TJRN

O evento teve início com um passeio guiado pela Arena das Dunas. Os visitantes conheceram a zona mista com as camisas de times e seleções que jogaram no estádio em datas históricas e, em seguida, conheceram a área do gramado. Os pretendentes e as crianças e adolescentes também conheceram os vestiários das equipes, sala de aquecimento e finalizou zona mista, onde aconteceram atividades recreativas e lúdicas realizadas pela equipe de educadores físicos e pelo recreador João Paulo Targino, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Rio Grande do Norte (IFRN). Na sequência, foi serviço um lanche.

A Semana Estadual da Adoção é uma forma de aglutinar todos os órgãos que trabalham nessa área e também, e principalmente, chamar a sociedade para que possa participar junto e fortalecer, cada vez mais, esse instituto da adoção. “Cada adoção concedida no Brasil é uma família que está sendo fundada, garantindo a essa criança e a esse adolescente que não tem uma família natural, através da família substituta”, ressaltou o juiz Sérgio Maia, da 2ª Vara da Infância e Juventude de Natal.

Pai de quatro filhos adotivos, o professor do IFRN Gustavo Brito deixou um recado para os pretendentes a pais e mães adotivos. “Não desistam! Se o filho ou a filha não estiver nesse espaço aqui, ele está chegando!”, aconselhou. Ele contou sua experiência com a chamada adoção tardia. “Eu acho que é isso: abrir os horizontes, não se sintam pressionados, mas que essa seja a primeira oportunidade para vocês pensarem que podem ir além e que, no final, vai dar tudo certo. Tudo está encaminhado e é só esperar um pouquinho porque a nossa gestação às vezes é de dois anos, mas ela acontece”, compartilhou.

O casal de militares Elias Sousa e Elisângela Montez, ambos de 34 anos, é um exemplo do que o juiz Sérgio Maia acredita: que a adoção dá certo. Pai e mãe de uma menina adotiva, hoje com três anos de idade, eles estavam presentes na Arena das Dunas para conhecer um irmão para a filha. Elias contou que o casal sempre teve a vontade de adotar até que resolveram entrar no cadastro, fazer o curso e entrar na fila da adoção até surgir a menina, que no princípio não estava no perfil deles.

Mas o primeiro encontro com a menina foi de amor e hoje ela está com eles há sete meses. “A gente decidiu que não ia sair da fila e nem parar nela. Então, estamos aqui em busca de um irmãozinho para ela”, revelou. Elisângela contou que a adaptação está sendo feita com paciência e com amor. “Ela já está bem adaptada e hoje pede um irmão […] é importante eles crescerem juntos”, afirmou, dizendo que essa “é uma oportunidade para conhecer outras crianças, olhar para uma delas e sentir no coração: esse é meu filho, essa é minha filha”.