O planeta registrou os 11 anos mais quentes da história recente de forma consecutiva, segundo o relatório Estado do Clima 2025, divulgado nesta segunda-feira, 23, pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). Ao apresentar o documento, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a repetição dos recordes já não pode ser tratada como coincidência.
O relatório reúne evidências de um sistema climático cada vez mais desequilibrado e introduz um novo indicador: o desequilíbrio energético da Terra, que mede a diferença entre o calor recebido do Sol e o liberado de volta ao espaço. Segundo Guterres, “nosso planeta está retendo calor mais rapidamente do que consegue liberá-lo”.

A principal causa do aquecimento global segue sendo a emissão de gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis. O documento aponta que o fenômeno já configura a maior crise global desde a pandemia e tem efeitos que devem perdurar por séculos. “As atividades humanas estão perturbando cada vez mais o equilíbrio natural, e viveremos com essas consequências por centenas e até milhares de anos”, afirmou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.
O ano de 2025 foi confirmado como o segundo ou terceiro mais quente já registrado, com temperatura média global 1,43°C acima dos níveis pré-industriais. O recorde segue com 2024, que atingiu 1,53°C. Os últimos três anos concentram os maiores níveis de aquecimento desde o início das medições, há 176 anos.
O novo indicador de desequilíbrio energético atingiu seu maior nível desde 1960. Segundo a OMM, cerca de 91% do calor excedente foi absorvido pelos oceanos, que passaram a aquecer em ritmo duas vezes mais acelerado nas últimas duas décadas. Esse acúmulo de energia — estimado entre 11 e 12,2 zeta-joules por ano — equivale a cerca de 18 vezes o consumo energético anual da humanidade.
O aquecimento dos oceanos está diretamente associado à intensificação de eventos extremos, como enchentes, tempestades e ondas de calor. Em 2025, esses fenômenos causaram milhares de mortes, afetaram milhões de pessoas e geraram prejuízos bilionários.
Além dos oceanos, o excesso de energia também impacta outros sistemas do planeta. Apenas 1% do calor acumulado aquece diretamente a atmosfera, enquanto 5% é absorvido pelos continentes e 3% contribui para o derretimento das massas de gelo.
As camadas de gelo da Antártida e da Groenlândia registraram perdas significativas em 2025, enquanto o gelo marinho do Ártico atingiu uma das menores extensões desde o início das medições por satélite, em 1979. O derretimento contribui para a elevação do nível do mar, que já está cerca de 11 centímetros acima do observado em 1993.
O relatório também destaca a aceleração da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, que registrou em 2024 o maior aumento desde o início das medições modernas, em 1957. Parte desse CO2 é absorvida pelos oceanos, processo que intensifica a acidificação das águas e compromete ecossistemas marinhos e a produção de alimentos.
Entre os impactos sociais, a OMM aponta que cerca de 1,2 bilhão de trabalhadores — mais de um terço da força de trabalho global — estão expostos a riscos relacionados ao calor extremo, especialmente em setores como agricultura e construção civil.
Diante do cenário, Guterres reforçou a necessidade de acelerar a transição energética. “O caos climático está se acelerando. Atrasar [a transição para as energias renováveis] é mortal”, afirmou.