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Cinema

“Obsessão” leva amor ao limite

Longa acompanha jovem que recorre a magia para conquistar a garota dos sonhos, mas vê o romance
Por O Correio de Hoje
13/05/2026 | 12:22

A linha entre amor e obsessão ganha contornos cada vez mais perturbadores em “Obsessão”, novo longa do diretor Curry Barker, cineasta que chamou atenção de Hollywood após ganhar notoriedade no YouTube com curtas de terror e comédia. O filme, que estreia nos cinemas nesta semana, utiliza elementos sobrenaturais e psicológicos para construir uma história em que desejo, idealização e medo caminham juntos até atingir consequências extremas.

A trama acompanha Bear, personagem interpretado por Michael Johnston, um jovem incapaz de revelar seus sentimentos amorosos. Tudo muda quando ele descobre um feitiço capaz de transformar seu maior sonho em realidade. A partir desse momento, Nikki, vivida por Inde Navarrette, passa a corresponder ao romance de forma intensa e aparentemente perfeita.

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“Obsessão” transforma história de amor idealizado em terror psicológico marcado por paranoia, dependência emocional e feitiços Foto: Divulgação

O que inicialmente parece uma típica fantasia romântica rapidamente assume tons inquietantes. Conforme o amor de Nikki cresce de maneira descontrolada, Bear começa a perceber que o relacionamento está cercado por consequências perigosas. O encantamento sobrenatural transforma a convivência em uma experiência marcada por vigilância constante, dependência emocional e paranoia.

“Shakespeare escrevia tragédias. Elas são tão antigas quanto o tempo”, afirma Curry Barker. “Nem todos os personagens precisam de finais felizes. Basta que o público se importe. Eles podem amar, podem odiar, mas precisam se importar com eles.”

Ao longo do filme, Barker utiliza a relação entre os protagonistas para discutir temas ligados à dualidade humana, às máscaras sociais e à necessidade contemporânea de aceitação.

A obsessão de Nikki passa a alternar momentos de fragilidade emocional e comportamentos violentos. Em determinadas cenas, a personagem implora pelo fim da maldição; em outras, vigia o parceiro enquanto ele dorme. A narrativa explora justamente a dificuldade de separar paixão, controle e dependência psicológica.

“Eu e Curry discutimos muito sobre como Nikki deveria lutar por si”, conta Inde Navarrette. “Era importante entender quem ela seria por trás do desejo. Fiquei surpresa que a polícia não apareceu enquanto praticávamos os gritos.”

Segundo a atriz, a personagem foi construída como alguém constantemente à beira do colapso, quase como uma “boneca prestes a quebrar”.

Enquanto Nikki mergulha cada vez mais no comportamento obsessivo, Bear começa a projetar culpa sobre a própria situação. O personagem se incomoda com a incapacidade de ter espaço individual e passa a evitar encontros sociais, festas e até situações rotineiras de convivência.

O romance idealizado rapidamente abandona qualquer traço de fantasia adolescente tradicional. Beijos apaixonados e cenas românticas dão lugar a um clima crescente de desconforto psicológico.

Michael Johnston, conhecido pela participação na série “Teen Wolf”, afirma que Bear se tornou o personagem mais complexo de sua carreira. “Filmes de terror se tornaram mais humanos, já que a vida, muitas vezes, é um verdadeiro horror”, afirma o ator.

A declaração ajuda a explicar a proposta do diretor, que vem desenvolvendo uma assinatura própria ao unir horror psicológico, humor desconfortável e críticas ao comportamento contemporâneo.

Antes de chegar aos cinemas, Curry Barker construiu carreira na internet. Há cerca de cinco anos, ele criou ao lado de Cooper Tomlinson o canal “That’s a Bad Idea”, conhecido por misturar terror, humor absurdo e situações socialmente desconfortáveis.

Os primeiros vídeos traziam esquetes curtas envolvendo fantasmas, assassinos atrapalhados e situações grotescas. Com o tempo, os projetos ganharam narrativas mais elaboradas.

Um dos trabalhos que ajudou a consolidar o diretor foi “The Chair”, curta-metragem de quase meia hora sobre a deterioração de um relacionamento causada por uma cadeira amaldiçoada. O filme recebeu prêmios em festivais independentes e abriu espaço para produções mais ambiciosas.

No ano passado, Barker lançou “Milk & Serial”, produção disponibilizada no YouTube que acompanha influenciadores digitais especializados em pegadinhas agressivas. Ao longo da história, um dos personagens revela traços psicológicos cada vez mais perturbadores.

Para Barker, existe uma conexão direta entre suas histórias e a forma como as pessoas constroem a própria imagem nas redes sociais. “Todos parecem nervosos com a forma como são vistos, sejam famosos ou não”, diz o diretor. “As vidas se tornaram mais públicas do que nunca.”

Apesar das origens ligadas ao conteúdo viral e digital, Barker afirma não ter interesse em adaptar seu estilo às demandas atuais de velocidade ou estímulos constantes. Segundo ele, “Obsessão” foi pensado como uma experiência mais gradual e desconfortável, em que a transformação emocional da protagonista acontece aos poucos.

O sucesso recente abriu novas portas para o cineasta. Barker revelou que trabalha atualmente em um longa sobre influenciadores digitais que fingem investigar fenômenos paranormais para gerar audiência nas redes sociais. Além disso, o diretor também prepara uma releitura de “O Massacre da Serra Elétrica”, clássico do terror independente lançado nos anos 1970.

Segundo Barker, a nova versão pretende preservar o clima brutal e realista do original. “Farei algo com minha cara. Nada modernoso demais e que deixará o realismo do original de lado”, afirma. Refazer o clássico envolvendo o personagem Leatherface, um dos maiores ícones do terror, é tratado pelo diretor como um sonho pessoal.

Enquanto isso, “Obsessão” chega aos cinemas apostando justamente naquilo que transformou Barker em um nome promissor do horror contemporâneo: relações humanas desconfortáveis, personagens emocionalmente frágeis e uma sensação permanente de que o amor pode facilmente ultrapassar os limites do saudável.

Michael Johnston admite que o tema da obsessão também gera situações curiosas fora das telas. “Me sinto honrado de ser a obsessão de alguém. Só peço para que não apareçam na porta da minha casa!”, brinca o ator.