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Música

“A arte foi a primeira religião que conheci”, diz Padre Fábio

Novo disco do sacerdote mistura reflexões sobre depressão, solidão e busca por sentido em meio à exposição pública
Por O Correio de Hoje
13/05/2026 | 12:16

Padre Fábio de Melo volta a transformar experiências pessoais, espiritualidade e conflitos humanos em música no álbum “Adoece: A Fama é um Roubo, uma Ilusão”, novo trabalho que será lançado nesta sexta-feira. Conhecido por unir religiosidade, filosofia, literatura e canção popular em seus projetos, o sacerdote afirma que o disco nasce de um período de intensa reflexão sobre sofrimento emocional, solidão, exposição pública e busca por sentido.

Em entrevista, o padre, escritor, filósofo e cantor revisitou momentos decisivos da própria trajetória e revelou como a arte esteve presente em sua formação muito antes da religião. “A arte foi a primeira religião que conheci”, afirmou.

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Padre Fábio de Melo lança o álbum “Adoece: A Fama é um Roubo, uma Ilusão”, projeto que aborda sofrimento emocional, espiritualidade e os impactos da fama Foto: Divulgação

Segundo ele, o contato com manifestações artísticas começou ainda na infância, no interior de Minas Gerais, onde cresceu cercado por referências culturais ligadas à música, à arquitetura barroca e à religiosidade popular. O artista relembra que o fascínio pela estética veio antes mesmo de qualquer compreensão teológica mais profunda.

“Antes de ser padre e religioso que conheci. Cristo mesmo só fez sentido porque encontrei atributos artísticos que tornavam uma realidade visível: beleza, verdade, justiça. Entendo que a arte foi uma espécie de abertura para o mistério”, declarou.

Padre Fábio de Melo afirma que a música e outras expressões artísticas sempre funcionaram como instrumento de aproximação espiritual e emocional. Para ele, religião e espiritualidade não necessariamente ocupam o mesmo espaço.

“Religião e espiritualidade não são a mesma coisa”, disse. Segundo o sacerdote, há contextos religiosos que podem inclusive afastar as pessoas da experiência espiritual. Ele defende uma compreensão menos institucionalizada da fé e mais conectada à dimensão humana.

“O contexto do ateísmo e ter profundidade espiritual pode aproximar. E a religião pode embrutecer”, afirmou. O novo disco mergulha justamente nessa tentativa de discutir dores contemporâneas, fragilidade emocional e a sensação crescente de vazio social.

Ao longo da entrevista, Padre Fábio de Melo também falou sobre episódios de depressão e síndrome do pânico enfrentados nos últimos anos. “Quem me levou sou eu”, declarou ao comentar momentos em que precisou lidar com crises emocionais profundas.

O sacerdote relatou que conviveu durante muito tempo com ansiedade intensa e episódios depressivos ligados tanto à predisposição genética quanto ao acúmulo de sofrimento emocional. Segundo ele, um dos acontecimentos mais traumáticos de sua vida foi o suicídio da irmã.

“Foi logo após o suicídio da minha irmã”, contou ao recordar períodos mais difíceis. Padre Fábio revelou ainda que precisou se afastar temporariamente das atividades públicas em 2017, após sofrer uma crise de pânico dentro de um avião. “Eu me vi muito deprimido. Naquele momento ninguém ficou imune. Quando entendi que, por mais que estimulada por alguém, a luta é dentro de mim… Precisei encontrar recursos para sobreviver a mim mesmo”, afirmou.

Ele também refletiu sobre como a fama e a exposição permanente podem agravar sentimentos de solidão. “O risco de achar mais importante é enorme”, disse ao comentar os efeitos da visibilidade pública sobre artistas e personalidades.

Padre Fábio de Melo criticou a lógica de superexposição das redes sociais e a transformação da vida privada em espetáculo permanente. Segundo ele, a sociedade atual vive uma epidemia de solidão, agravada por relações superficiais e pela necessidade constante de validação.