A dificuldade para dormir tem levado um número cada vez maior de americanos a recorrer a suplementos, medicamentos e compostos alternativos em busca de noites mais tranquilas. Um relatório divulgado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) mostrou que um em cada oito adultos no país utiliza regularmente algum tipo de auxiliar do sono para conseguir adormecer ou permanecer dormindo.
Os dados fazem parte de uma pesquisa baseada em entrevistas realizadas com dezenas de milhares de adultos americanos ao longo de 2024 e revelam o avanço do consumo de produtos voltados ao sono, incluindo melatonina, magnésio, medicamentos vendidos sem receita, remédios prescritos e até compostos derivados da cannabis.

Especialistas em medicina do sono, no entanto, alertam que o uso frequente desses produtos pode esconder problemas de saúde mais complexos e acabar retardando o diagnóstico adequado de distúrbios que comprometem a qualidade do descanso.
Sujay Kansagra, especialista em sono do Centro Médico da Universidade Duke, afirma que muitas pessoas buscam soluções rápidas para um problema que, na maioria das vezes, exige investigação clínica mais profunda.
Segundo ele, os resultados do levantamento mostram que parte da população procura um “atalho” para dormir melhor, acreditando que suplementos como melatonina ou magnésio funcionem como “uma pílula mágica”. Para o especialista, o mais indicado seria trabalhar junto a um médico para identificar e tratar a origem da insônia.
O relatório também reforça outra preocupação já observada por especialistas: a privação de sono continua elevada entre os americanos. Um segundo levantamento citado no estudo apontou que quase um terço da população adulta dos Estados Unidos não consegue atingir as sete horas mínimas de sono por noite recomendadas pelos médicos.
As análises mostraram ainda que o consumo de auxiliares do sono cresce conforme o avanço da idade. Mulheres também aparecem com maior probabilidade de relatar dificuldades para dormir e, consequentemente, maior tendência ao uso de produtos voltados ao descanso.
Entre os itens mais utilizados estão medicamentos vendidos sem receita médica, citados por cerca de 6% dos entrevistados. Em seguida aparecem os remédios prescritos, utilizados por pouco mais de 5% da população analisada. Compostos como canabidiol (CBD), derivado não psicoativo da cannabis, e a própria maconha também foram mencionados por aproximadamente 4% dos participantes.
Apesar da popularização desses produtos, especialistas afirmam que as evidências científicas sobre parte deles ainda são limitadas. O magnésio, frequentemente comercializado nas versões glicinato ou treonato, é um dos suplementos mais associados à melhora do sono nas redes sociais e no mercado de bem-estar. Ana Krieger, diretora médica do Centro de Medicina do Sono da Weill Cornell Medicine e do NewYork-Presbyterian, explica que há poucos estudos conclusivos sobre sua eficácia direta no sono.
Segundo ela, o suplemento pode ajudar especialmente pessoas que enfrentam dificuldades para dormir em razão de tensão muscular, câimbras ou síndrome das pernas inquietas. A especialista também faz ressalvas sobre alguns tipos do mineral, recomendando evitar o óxido de magnésio, que pode causar desconforto intestinal, e alertando que o citrato pode ter efeito laxativo em algumas pessoas.
Ela também afirma manter ceticismo sobre os benefícios da melatonina, hormônio naturalmente produzido pelo corpo durante a noite para induzir a sonolência. Algumas pesquisas sugerem que o uso do suplemento pode fazer com que a pessoa adormeça alguns minutos mais rápido, mas outros estudos indicam que o efeito não supera o placebo.
Para Kansagra e outros especialistas, o maior risco do uso indiscriminado de suplementos é fazer com que problemas médicos importantes passem despercebidos. Condições como apneia do sono, ansiedade e transtornos emocionais podem comprometer profundamente a qualidade do descanso sem que o paciente perceba a origem real da dificuldade.