Um novo livro coloca em análise o uso da religião como ferramenta política por setores da extrema direita no Brasil, tomando como ponto de partida episódios associados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A obra Diálogos em Tempos Difíceis, organizada a partir de debates entre pesquisadores, reúne reflexões sobre a relação entre fé, identidade e poder no cenário contemporâneo.
O livro surge a partir de discussões entre o teólogo e pastor evangélico Ronilso Pacheco e a jornalista Ana Luiza Albuquerque, com contribuições adicionais de pesquisadores como o sociólogo Michel Gherman. A publicação busca compreender como elementos religiosos vêm sendo mobilizados no discurso político e quais os efeitos dessa estratégia na sociedade brasileira.

Um dos episódios que motivaram a análise remonta a 2017, quando Bolsonaro, então deputado federal, participou de um evento no Rio de Janeiro e fez declarações direcionadas a comunidades quilombolas. “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada!”, disse à época. Na mesma ocasião, também afirmou: “Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa”, em discurso direcionado a integrantes da comunidade judaica.
Segundo os autores, esse tipo de posicionamento ajudou a impulsionar reflexões sobre a forma como discursos políticos incorporam referências religiosas e identitárias. Para Michel Gherman, o fenômeno envolve uma disputa de narrativas dentro do próprio campo religioso. “Bolsonaro se transforma em racista no clube judaico usando referências típicas do nazismo”, afirma o professor da UFRJ.
A obra argumenta que há um processo de apropriação simbólica que atravessa diferentes tradições religiosas. De um lado, setores da extrema direita mobilizam elementos do judaísmo e do evangelicalismo; de outro, há críticas à forma como a esquerda historicamente tratou a religião, muitas vezes com distanciamento ou preconceito.
“Emparedados entre a extrema direita, que coloniza o judaísmo e o evangelismo no Brasil, e a esquerda, que ainda guarda uma visão preconceituosa ou condescendente sobre a religião”, afirma o texto ao descrever o cenário analisado. Outro conceito abordado é o de um novo tipo de antissemitismo, descrito como “filossemita”. A ideia, segundo os autores, refere-se a uma visão idealizada de Israel e do povo judeu, que passa a ser utilizada como referência simbólica, ao mesmo tempo em que o judaísmo histórico é ignorado ou combatido.
A publicação também discute a relação entre religião e pensamento político moderno, apontando tensões entre perspectivas iluministas e interpretações religiosas. Para Ronilso Pacheco, a tentativa de separar completamente religião e política não se consolidou no Brasil. “É muito difícil você imaginar uma grande revolução, um grande movimento disruptivo popular, especialmente do povo negro, que não seja atravessado pela religião”.
Os autores analisam o papel das emoções no comportamento eleitoral. “O voto não passa por ideologia, passa por afeto. Como é que eu chego a esse sentimento?”, questiona Gherman. A partir dessa perspectiva, o livro sugere que narrativas políticas que mobilizam identidade e pertencimento tendem a ter maior alcance. Enquanto Pacheco avalia que ações antidemocráticas podem enfraquecer o bolsonarismo, Gherman sustenta que o movimento permanece ativo.