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IA

“Nada substitui o coração humano”

Especialistas alertaram para mudanças profundas no mercado de trabalho, mas descartaram substituição total das pessoas pelas máquinas
Por O Correio de Hoje
15/05/2026 | 12:56

Os impactos da inteligência artificial sobre o trabalho, a criatividade e a vida cotidiana dominaram os debates da São Paulo Innovation Week (SPIW), evento realizado na capital paulista e voltado à inovação, tecnologia e transformação digital. Em meio às discussões sobre automação e mudanças no mercado profissional, especialistas defenderam que a sociedade precisará se adaptar rapidamente às novas ferramentas tecnológicas, mas ressaltaram que características humanas continuarão insubstituíveis.

Um dos destaques do encontro foi a participação do filósofo e ex-ministro da Educação da França, Luc Ferry, que afirmou que a inteligência artificial não deve ser tratada como uma ameaça absoluta à humanidade. Segundo ele, existe um exagero em torno da ideia de que máquinas seriam capazes de substituir integralmente o pensamento humano.

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IA, mercado de trabalho e futuro da humanidade foram temas dos debates na SPIW Foto: reprodução / redes sociais

“Há quem diga que a IA comete erros. Isso não é verdade”, afirmou o filósofo durante painel do evento. Ferry argumentou que os sistemas atuais operam com enorme capacidade de processamento de dados e, em diversas áreas, já apresentam desempenho superior ao humano.

Apesar disso, ele rejeitou a ideia de que a inteligência artificial tornará as pessoas inúteis. Para o filósofo, a tecnologia deve substituir principalmente tarefas repetitivas e operacionais, enquanto atividades ligadas à criatividade, emoção e relações humanas continuarão dependendo das pessoas.

“Se você vai a versões sofisticadas de apps, que custam aproximadamente US$ 200 por mês, não há erros. Nem em Medicina, nem em História, nem em Matemática. A IA vai nos superior, mesmo aos humanos mais inteligentes e cultos”, declarou Ferry.

O ex-ministro destacou que a sociedade atravessa uma transformação comparável à Revolução Industrial. Segundo ele, o avanço da IA exigirá mudanças profundas na forma como profissionais se qualificam e se posicionam no mercado de trabalho. “O desafio é saber lidar com esse novo cenário sem cair na passividade”, disse um dos participantes do evento ao defender maior preparação tecnológica da população.

Os debates do SPIW também abordaram o risco de dependência excessiva das ferramentas digitais. Especialistas alertaram que a automação não pode eliminar aspectos essenciais das relações humanas, principalmente em áreas ligadas à educação, saúde e criatividade.

Um dos painéis mais acompanhados trouxe reflexões sobre o papel da sensibilidade humana diante do crescimento da inteligência artificial generativa. Os participantes defenderam que habilidades emocionais, pensamento crítico e criatividade continuarão sendo diferenciais importantes mesmo em um cenário de ampla automação. “Nada substitui o coração e a alma de um ser humano”, resumiu um dos temas centrais apresentados no encontro.

Durante o evento, pesquisadores ressaltaram que a inteligência artificial já vem alterando processos produtivos em diferentes setores, desde indústria e agronegócio até serviços financeiros, saúde e entretenimento. O avanço das plataformas automatizadas também tem impulsionado discussões sobre produtividade e substituição de funções.

Luc Ferry afirmou que, ao contrário do que muitos imaginam, a IA não “pensa” de forma autônoma como um ser humano. Segundo ele, os sistemas atuais funcionam por meio de probabilidades matemáticas e cruzamento massivo de dados.

O filósofo também criticou discursos alarmistas que tratam a tecnologia como ameaça inevitável à humanidade. Para ele, o principal desafio está na adaptação social e educacional diante da velocidade das transformações digitais.

Outro ponto discutido no evento foi o impacto da hiperconectividade sobre saúde mental e comportamento social. Especialistas alertaram para aumento de ansiedade, isolamento e excesso de estímulos digitais, principalmente entre jovens.

Os participantes defenderam que a inovação precisa ser acompanhada de responsabilidade ética e desenvolvimento humano. A avaliação é que ferramentas de IA devem servir como apoio à atividade humana, e não como substitutas completas das relações sociais.

Além da inteligência artificial, o SPIW reuniu debates sobre transformação digital, economia criativa, robótica, educação, sustentabilidade e inovação empresarial. O evento contou com empresários, pesquisadores, executivos e representantes do setor público.

Na área econômica, especialistas destacaram que o Brasil ainda enfrenta desafios para ampliar competitividade tecnológica. A necessidade de qualificação profissional e modernização da educação apareceu como uma das principais preocupações dos participantes.

Luc Ferry afirmou que profissões repetitivas e operacionais tendem a sofrer maior impacto da automação nos próximos anos. Em contrapartida, áreas ligadas à criatividade, inovação, relações humanas e tomada de decisão complexa deverão ganhar ainda mais importância.

“O homem não é apenas inteligência. Há emoções, cultura, criatividade e sensibilidade que as máquinas não possuem”, reforçou o filósofo em outro momento do debate.

Os painéis também discutiram o uso crescente da IA na medicina. Especialistas afirmaram que ferramentas automatizadas já conseguem analisar exames, interpretar imagens e identificar padrões clínicos com rapidez elevada. Ainda assim, médicos e pesquisadores defenderam que o contato humano continuará indispensável no atendimento aos pacientes.

No setor educacional, participantes alertaram que escolas e universidades precisarão reformular métodos de ensino para preparar estudantes para profissões que ainda nem existem. A adaptação tecnológica foi apontada como inevitável.

A programação do SPIW incluiu ainda apresentações sobre inovação urbana, mobilidade, startups e tendências digitais. Shows de drones e experiências imersivas também fizeram parte da estrutura do evento.

Apesar do avanço acelerado da inteligência artificial, a mensagem predominante nos debates foi a de que a tecnologia deve ser encarada como ferramenta complementar. Para os especialistas presentes, o futuro dependerá da capacidade humana de usar inovação sem abrir mão de criatividade, ética e relações sociais.