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Saúde

Mosquitos treinados passaram a buscar vítimas com repelente

Pesquisa com Aedes aegypti indica que algumas fêmeas passaram a associar o DEET à obtenção de alimento, mas cientistas reforçam que produto continua eficaz
01/06/2026 | 13:34

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Tours, na França, e da Virginia Tech sugere que o mosquito Aedes aegypti pode modificar seu comportamento diante de determinados repelentes após experiências anteriores de alimentação. Os resultados foram publicados na última quinta-feira 28 na revista científica Journal of Experimental Biology e apontam que algumas fêmeas da espécie foram capazes de associar o repelente DEET à obtenção de sangue, passando a demonstrar interesse por alvos protegidos pelo produto.

O Aedes aegypti é o principal vetor de doenças como a Dengue, a Chikungunya, a Zika e a Febre amarela. Por isso, qualquer descoberta relacionada ao comportamento do mosquito desperta interesse da comunidade científica e das autoridades de saúde.

close up mosquito sucking blood from human arm
Fêmeas do Aedes aegypti gostam de repelente - Foto: Freepik

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que os resultados foram obtidos em condições controladas de laboratório e não significam que populações de mosquitos em ambientes naturais estejam desenvolvendo resistência ao repelente. O estudo também não altera as recomendações atuais de proteção individual.

O trabalho foi liderado pelo entomólogo Claudio Lazzari, professor da Universidade de Tours e pesquisador visitante da Fundação Oswaldo Cruz entre 2013 e 2015. Segundo ele, os resultados não devem ser interpretados como motivo para abandonar o uso de repelentes.

O objetivo dos pesquisadores era investigar se a aversão ao DEET — principal ingrediente utilizado em repelentes ao redor do mundo — é uma resposta totalmente inata ou se poderia ser influenciada por experiências anteriores dos insetos.

Para isso, os cientistas dividiram fêmeas do Aedes aegypti em grupos experimentais. Um dos grupos recebeu pequenas quantidades de sangue enquanto era exposto ao DEET. Outro grupo teve contato com uma solução açucarada durante a exposição ao composto químico. Posteriormente, os mosquitos foram novamente apresentados ao repelente, desta vez aplicado sobre a mão de um pesquisador.

Os resultados mostraram uma mudança significativa de comportamento. Entre as fêmeas previamente condicionadas à associação entre sangue e DEET, cerca de seis em cada dez demonstraram tentativa de picar a mão protegida pelo repelente. O comportamento foi diferente daquele observado em mosquitos que não haviam passado pelo treinamento, que continuaram evitando a substância.

Os cientistas interpretam os resultados como evidência de um processo de aprendizado capaz de alterar o significado biológico atribuído ao odor do repelente.

Tradicionalmente, estudos sobre repelentes concentraram esforços na identificação dos mecanismos químicos responsáveis por afastar os mosquitos. A maior parte das pesquisas buscava compreender quais receptores sensoriais detectam substâncias como o DEET e de que forma essa detecção interfere no comportamento dos insetos.

O novo trabalho sugere que a resposta pode envolver não apenas fatores químicos, mas também aspectos relacionados à experiência acumulada pelo animal.

“Por muito tempo, acreditou-se que o mecanismo de ação dos repelentes era exclusivamente devido às suas propriedades químicas: ou por serem tóxicos, ou por bloquearem a capacidade [dos mosquitos] de detectar humanos. No entanto, nossas descobertas sugerem que essa reação pode ser modificada pela experiência”, disse Lazzari.

Segundo os pesquisadores, o odor do repelente pode adquirir significados diferentes dependendo das experiências anteriores vividas pelo mosquito. Em vez de representar apenas um sinal de perigo ou desconforto, a substância poderia ser associada à obtenção de alimento em determinadas circunstâncias.

Desenvolvido na década de 1940, o DEET é considerado o principal composto utilizado em repelentes contra mosquitos em todo o mundo. Conhecido cientificamente como N-dimetil-meta-toluamida ou N,N-dietil-3-metilbenzamida, o produto é amplamente empregado na prevenção de doenças transmitidas por insetos.

Embora seu mecanismo de ação ainda seja alvo de estudos, sabe-se que o composto funciona como repelente químico. Após aplicado, ele evapora gradualmente e cria um ambiente que os mosquitos tendem a evitar.

Por décadas, o DEET tem sido considerado o padrão-ouro da proteção individual contra picadas de mosquitos. Claudio Lazzari reforça que o estudo não coloca em dúvida sua eficácia.

Os resultados também levantam novas questões para futuras pesquisas. Uma das hipóteses levantadas pelos autores é a possibilidade de que experiências anteriores com baixas concentrações do repelente possam influenciar o comportamento futuro dos insetos.

Segundo Lazzari, a descoberta amplia a compreensão sobre a relação entre comportamento e estímulos químicos.

“Em outras palavras, o comportamento de um inseto pode ser influenciado tanto pelo que ele aprendeu quanto pela própria substância química. Acreditamos que isso represente uma mudança significativa em nossa compreensão sobre repelentes, trazendo evidências de que os repelentes atuam na estimulação da mesma via sensorial de compostos de plantas”, explicou.

A pesquisa sugere que os repelentes podem atuar em mecanismos sensoriais mais complexos do que se imaginava anteriormente. Para os cientistas, compreender esses processos pode contribuir para o desenvolvimento de novas tecnologias de proteção contra mosquitos transmissores de doenças.

“Ainda não entendemos completamente como os repelentes funcionam”, disse o pesquisador.