A participação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro segue travada por divergências familiares e políticas. Segundo lideranças do PL, Michelle condicionou sua entrada na campanha a um gesto público de retratação por parte dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, com quem mantém uma relação marcada por atritos nos últimos meses.
A cobrança ocorre em um momento de queda de Flávio nas pesquisas eleitorais, cenário que levou dirigentes do partido a atuar nos bastidores para tentar reaproximar a ex-primeira-dama da campanha. A avaliação dentro do PL é que Michelle ainda possui forte influência sobre o eleitorado bolsonarista e poderia fortalecer a candidatura do senador. O argumento apresentado por aliados é que uma eventual vitória de Flávio também abriria caminho para buscar uma reversão da situação jurídica de Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar.

Apesar das tentativas de conciliação, interlocutores afirmam que Michelle só pretende participar ativamente da campanha após receber um pedido público de desculpas dos enteados. Até o momento, porém, Flávio e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro não demonstram disposição para fazer esse gesto.
O desgaste entre Michelle e os filhos do ex-presidente tem origem nas disputas internas pelo protagonismo no campo bolsonarista. A relação com Eduardo se rompeu depois que ele rejeitou publicamente a possibilidade de a ex-primeira-dama disputar a Presidência ou ocupar a vice em uma chapa nacional, defendendo a candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto.
Já o distanciamento com Flávio se agravou após o senador classificar Michelle como “autoritária” durante uma divergência sobre a estratégia eleitoral no Ceará. A crítica veio depois que a ex-primeira-dama se posicionou contra o apoio do PL a Ciro Gomes na disputa pelo governo estadual, defendendo o nome do senador Eduardo Girão. Posteriormente, Flávio afirmou ter pedido desculpas à madrasta, mas o episódio não foi suficiente para reaproximá-los.
Desde dezembro, quando Flávio anunciou ter sido escolhido por Jair Bolsonaro como representante do grupo político na corrida presidencial, Michelle se mantém afastada da pré-campanha. Na semana passada, ao ser questionada sobre quando participaria da mobilização eleitoral, respondeu que, neste momento, “quem precisa dela é Jair Bolsonaro”.
A ex-primeira-dama também reduziu sua participação nas articulações políticas após indicar que poderia disputar uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. Em março, afirmou que permaneceria distante das movimentações eleitorais enquanto o ex-presidente se recuperava.
Novos episódios contribuíram para ampliar o desconforto entre Michelle e os filhos de Bolsonaro. Em maio, durante a crise envolvendo Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Carlos Bolsonaro e Eduardo demonstraram insatisfação com a ausência de uma defesa pública mais enfática da ex-primeira-dama. Michelle evitou comentar o caso e afirmou que os questionamentos deveriam ser dirigidos “ao próprio Flávio”.
O mal-estar aumentou no mesmo evento, quando Michelle se referiu ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes como “irmão em Cristo”, ao comentar a autorização concedida para que Jair Bolsonaro recebesse um cabeleireiro durante o período de prisão domiciliar.
Nos bastidores do PL, a postura é interpretada como uma tentativa de preservar o capital político da ex-primeira-dama diante das incertezas sobre o futuro da direita nas eleições. De acordo com informações divulgadas pelo colunista Lauro Jardim, Michelle e Flávio ainda não se encontraram pessoalmente neste ano, mantendo contato apenas por meio de interlocutores, entre eles o senador Rogério Marinho, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e a senadora Damares Alves.