O Rio Grande do Norte perdeu, entre janeiro e 20 de julho deste ano, cerca de 24% da capacidade de geração de energia eólica e solar em razão das limitações impostas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Os cortes, determinados para preservar o equilíbrio da rede diante da insuficiência da infraestrutura de transmissão e do excesso momentâneo de oferta de energia, ampliam um problema que o setor enfrenta desde 2023 e já acumula prejuízos bilionários.
Para o diretor-presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, que concedeu entrevista ao jornalista Diógenes Dantas, da Rádio 96 FM, no programa Contraponto e colunista do Agora RN, o cenário compromete novos investimentos, reduz a atratividade do Estado para projetos de geração renovável e evidencia a necessidade de uma política de industrialização baseada na energia produzida no Nordeste.

Segundo Santos, a limitação da geração ocorre porque o sistema de transmissão não acompanha a expansão da capacidade instalada de fontes renováveis. “A gente não consegue escoar toda a energia produzida porque ainda falta capacidade de conexão e transmissão. Isso já acontece desde 2023 e, este ano, já perdemos entre 24% e 25% da nossa energia renovável”, afirmou. O dirigente calcula que os prejuízos acumulados até o fim de 2025 alcançaram entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões, valor que já foi igualado ao longo deste ano. Além da perda de receita para os empreendedores, o impacto alcança arrecadação tributária, geração de empregos e novos projetos. “Isso impede, por exemplo, a instalação de novos parques e dificulta a contratação de mão de obra”, disse.
Na prática, os cortes significam a interrupção compulsória da produção de energia por determinação do operador do sistema. Segundo o presidente do Cerne, há casos em que parques permanecem desligados durante grande parte do mês. “O ONS liga para o parque e diz: desligue as máquinas, porque você não pode gerar de tal hora até tal hora. Tivemos meses em que parques ficaram quase 80% do tempo desligados”, afirmou. O resultado, segundo ele, é a devolução de projetos vencedores de leilões federais por empresas que desistiram de investir diante da ausência de perspectiva para escoamento da energia produzida. Esse movimento, iniciado em 2025, ganhou intensidade ao longo deste ano.
O Rio Grande do Norte permanece entre os maiores produtores de energia eólica do país, com aproximadamente 320 parques em operação e capacidade instalada estimada entre 11 e 12 gigawatts. A elevada participação na matriz elétrica nacional faz com que o Estado também concentre parcela expressiva dos cortes de geração. Além disso, sua posição geográfica, na extremidade da rede de transmissão, amplia a dependência de investimentos em novas linhas de conexão. Para a energia solar de grande porte, a situação é ainda mais sensível. Segundo Santos, como a produção ocorre concentradamente durante o dia, exatamente quando outras usinas também geram em elevada intensidade, o sistema enfrenta maior dificuldade para equilibrar a oferta e a demanda.