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Rejeição

Governo Lula se divide sobre reação após rejeição de Jorge Messias

Base aliada discute reação após derrota histórica no Senado e avalia impactos na relação com Davi Alcolumbre
Por O Correio de Hoje
30/04/2026 | 16:34

A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado desencadeou um debate interno no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a estratégia a ser adotada diante do revés. Integrantes da base aliada passaram a discutir se o Palácio do Planalto deve adotar uma postura de confronto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ou se deve manter uma linha mais cautelosa para preservar a tramitação de projetos considerados prioritários.

A derrota, considerada histórica por aliados do governo, agravou o ambiente político entre Executivo e Legislativo em um momento sensível, a menos de seis meses das eleições. Interlocutores do presidente avaliam que o episódio inviabiliza qualquer tentativa de aproximação com Alcolumbre no curto prazo.

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Rejeição de Jorge Messias ao STF amplia tensão entre governo Lula e Senado - Foto: Fabio R Pozzebom / Agência Brasil

Antes da votação, Lula já havia sinalizado a pessoas próximas que não indicaria outro nome ao STF caso a indicação de Messias fosse rejeitada. A posição foi reforçada por aliados no Congresso. O senador Weverton Rocha afirmou que não há expectativa de nova indicação no horizonte imediato. “Até a eleição, acredito que não deve mais falar sobre isso”, declarou o parlamentar, que foi relator da indicação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Dentro do governo, porém, não há consenso sobre os próximos passos. O ministro responsável pela articulação política, José Guimarães, adotou tom mais moderado ao comentar o resultado. Segundo ele, o governo “respeita a decisão soberana dos senadores”. Já o presidente do PT, Edinho Silva, criticou a postura da Casa legislativa e afirmou, em nota, que o Senado cometeu um “grave erro” e que a decisão “gera uma importante instabilidade institucional”.

Entre governistas, a avaliação predominante é de que a derrota teve influência direta da atuação de Alcolumbre, que desde o início demonstrou resistência ao nome de Messias e defendia outra indicação para a vaga no STF. Sem mencionar nomes, a deputada Gleisi Hoffmann atribuiu o resultado a um movimento político articulado. Em publicação nas redes sociais, afirmou que houve um “grande acordão entre a oposição bolsonarista e outros com objetivos eleitoreiros e pessoais dos que se sentem ameaçados pelas investigações de escândalos financeiros e contra o crime organizado”.

Nos bastidores, aliados de Messias relataram que tentaram contato com Alcolumbre ao longo do dia da votação, mas não obtiveram retorno. A expectativa inicial entre governistas era de uma vitória apertada, o que aumentou o impacto político da rejeição.

Diante do cenário, parte da base aliada passou a defender medidas de retaliação ao presidente do Senado, incluindo ações políticas no Amapá, estado de origem de Alcolumbre, além de um possível rompimento institucional. Entre as sugestões discutidas estão o bloqueio de emendas parlamentares, revisão de indicações para cargos e até a retomada de discursos críticos ao Congresso.

Outra ala do governo, no entanto, avalia que o momento exige cautela. Esses interlocutores lembram que o Executivo depende do Congresso para aprovar pautas consideradas estratégicas, como propostas de impacto social e econômico que podem influenciar o cenário eleitoral. A preocupação é que uma escalada de tensão comprometa a governabilidade.

O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, buscou reduzir a dimensão da crise. Segundo ele, episódios de derrota legislativa já ocorreram em outros momentos e não alteraram a relação institucional entre os Poderes. A avaliação é de que o mesmo padrão deve se repetir agora.

Apesar das tentativas de contenção, aliados do presidente reconhecem que o episódio representa o momento mais delicado para o governo desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Também há preocupação com os efeitos políticos do revés, que pode fortalecer adversários no cenário nacional. Com o impasse instalado, o governo ainda não definiu qual será a estratégia adotada nas próximas semanas.