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Cinema

Filme retrata histórias de recomeços em Brasília

Longa “Pequenas Criaturas”, estrelado por Carolina Dieckmann, retrata uma família que enfrenta mudanças pessoais enquanto o Brasil vive o início da redemocratização
Por O Correio de Hoje
29/07/2026 | 17:07

Vencedor do Troféu Redentor de melhor filme de ficção no Festival do Rio 2025, “Pequenas Criaturas” estreou nos cinemas brasileiros propondo uma reflexão sobre família, mudanças e esperança em meio ao processo de redemocratização do país. Ambientado em Brasília, em 1986, o longa acompanha Helena, personagem interpretada por Carolina Dieckmann, que precisa reconstruir a própria vida ao lado dos dois filhos após descobrir um segredo envolvendo o marido, Luiz, vivido por Michel Melamed.

Enquanto o pai viaja a trabalho, Helena enfrenta o desafio de se adaptar à nova cidade juntamente com André (Théo Medon), adolescente marcado pela melancolia, e Dudu (Lorenzo Mello), o filho mais novo, que ameniza a tensão da narrativa com o olhar espontâneo da infância. Ao longo da trama, a rotina da família é atravessada por novos encontros e situações que revelam diferentes facetas dos personagens, tendo como pano de fundo um Brasil em transformação política.

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Além de protagonizar o filme, Carolina Dieckmann assina a produção associada de “Pequenas Criaturas” - Foto: divulgação

Além de protagonizar o filme, Carolina Dieckmann atua como produtora-associada da obra. A atriz afirma que interpretar Helena exigiu transmitir emoções contidas, muitas vezes sem recorrer às palavras.

“Interpretar no silêncio vai muito do que você tem de equalizar. Se está muito perto, pode ficar muito; se está muito longe, pode não ficar nada. Você depende do trabalho da direção para se achar”, comentou a atriz. “Eu saí exausta porque tinha de estar o tempo inteiro preenchida de tudo o que não ia dizer, de tudo o que a personagem engole e silencia.”

Apesar da carga dramática, o elenco afirma que o filme preserva uma mensagem otimista. Para Théo Medon, que interpreta André, a narrativa mostra personagens enfrentando dificuldades sem abrir mão da esperança. “Ele fala sobre uma densidade emocional grande, mas mantém a esperança na vida, nos laços e de que as dificuldades vão passar”, afirmou.

A diretora Anne Pinheiro Guimarães explica que o ritmo mais contemplativo da produção acompanha o estado emocional dos personagens e dialoga com a própria arquitetura de Brasília.

“É um filme de espaços amplos e de sentimentos grandes, porém muito contidos. Existe essa dicotomia do grande e do pequeno”, resume Anne Pinheiro. “Temos de sentir como aquilo é difícil para os personagens que vivem em uma Brasília com códigos diferentes, onde você se sente um estrangeiro, um alienígena chegando. O ritmo do filme é importante para sentirmos o que o personagem sente.”

Embora a história se passe durante a redemocratização, o contexto político permanece em segundo plano. Em vez de abordar diretamente os acontecimentos históricos, o roteiro concentra-se nas transformações individuais, nas incertezas diante do futuro e nas relações familiares.

Segundo Théo Medon, o filme trata justamente da expectativa em relação ao que está por vir. “No filme, falamos do futuro de maneira temerosa, sem saber o que vai acontecer, e o final dá a sensação de que o futuro pode ser melhor do que esperamos.”

Carolina Dieckmann acredita que a principal mensagem do longa está na capacidade de seguir em frente mesmo após momentos difíceis. “Acho o filme muito esperançoso na vida. Se esses personagens, dentro de tudo o que passaram, conseguem ter esse olhar para a vida, qualquer um pode ter.”

Para Anne Pinheiro Guimarães, “Pequenas Criaturas” ocupa um espaço particular dentro do cinema nacional ao priorizar questões humanas em vez de temas tradicionalmente associados às produções brasileiras. “No panorama da produção nacional, ele é diferente porque não traz as temáticas habituais, mas sim temas universais.”

Além dos prêmios de melhor filme de ficção e melhor direção de arte no Festival do Rio 2025, a produção também foi exibida no Göteborg Film Festival, na Suécia, e no Festival Internacional de Cinema de Cartagena, na Colômbia. Segundo Théo Medon, o público estrangeiro demonstrou interesse pela paisagem da capital federal. “Na Suécia, o público ficou encantado com a paisagem de Brasília e a fotografia. Tinha curiosidade sobre como é esse lugar tão diferente”, contou.

Apesar da boa recepção internacional, Anne afirma que o principal objetivo sempre foi dialogar com o público brasileiro. “Não tive a pretensão ou pensei nele para ir para fora. Gostaria que as pessoas fossem ao cinema no Brasil assistir e sentir junto com os personagens.”

A diretora espera que os espectadores deixem a sala de cinema com a mesma sensação vivida pelos protagonistas. “É uma experiência desse grupo — uma família ampliada com amigos e conhecidos — que passa por algo que só eles viveram juntos. Isso os une de uma forma especial.”