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Luto
Filha de Bussunda fala pela primeira vez: ‘Quando meu pai morreu, eu fiquei míope’
Júlia Besserman narra os percalços do luto e, em série sobre o humorista, morto na Copa de 2006, problematiza piadas politicamente incorretas feitas por ele no Casseta & Planeta: 'Vi e falei, nossa'
O Globo
16/06/2021 | 16:20

Quando era criança, Júlia Besserman acreditava que o pai, Bussunda, era um super-herói e que o poder dele vinha da enorme barriga. Também está relacionada a essa parte do corpo a primeira lembrança que ela guarda do pai. Ainda era bebê quando os dois tomaram um caldo “absurdo” no mar. Recorda a desorientação, a falta de ar, o desespero e… um objeto não identificado que cobriu o sol. Era ela novamente, a barriga de Bussunda, que fora lhe salvar.

Bussunda com a filha, Júlia Foto: arquivo / Arquivo pessoal
Bussunda com a filha, Júlia Foto: arquivo / Arquivo pessoal

Quase todas as memórias que Júlia tem do pai, como essas que ela conta no documentário “Meu amigo Bussunda”, que estreia na próxima quinta-feira 17, data dos 15 anos de morte do humorista), no Globoplay, são da praia. Ele a ensinou a pegar onda, jacaré, a saber a diferença entre vala e boca… Mandou até fazer uma prancha para que fizessem aulas em família no Havaí, mas não deu tempo. A prancha nunca mais saiu de casa e Júlia se distanciou do mar.

Poucos meses após a perda, aos 12 anos, ela ficou míope e deixou de enxergar as ondas. Nesta entrevista, a roteirista, professora de storytelling do Colégio São Vicente e diretora de um dos episódios da série sobre o pai, conta que fez de tudo para evitar lidar com o luto, mas a conta não tardou a chegar. Aos 27 anos, Júlia também prova que herdou o humor de Bussunda.

A turma do Casseta e Planeta em 1989. Bussunda morreu em junho de 2006, aos 43 anos, em Parsdorf, cidade próxima de Munique, onde participava de gravações especiais do programa humorístico Foto: Ana Branco / Agência O Globo
A turma do Casseta e Planeta em 1989. Bussunda morreu em junho de 2006, aos 43 anos, em Parsdorf, cidade próxima de Munique, onde participava de gravações especiais do programa humorístico Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Ator começou a fazer graça em um jornal na UFRJ, onde conheceu os colegas de programa Foto: Ricardo Chvaicer / Arquivo
Ator começou a fazer graça em um jornal na UFRJ, onde conheceu os colegas de programa Foto: Ricardo Chvaicer / Arquivo
Em 1984, Bussunda, Claudio Manoel, Helio de la Peña e a turma do jornal Casseta Popular Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo
Em 1984, Bussunda, Claudio Manoel, Helio de la Peña e a turma do jornal Casseta Popular Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo
Bussunda, ao centro, com Hubert, Marcelo Madureira, Beto Silva, Reinaldo, Hélio de la Peña e Cláudio Manoel: a equipe do “Casseta & Planeta urgente”. Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Bussunda, ao centro, com Hubert, Marcelo Madureira, Beto Silva, Reinaldo, Hélio de la Peña e Cláudio Manoel: a equipe do “Casseta & Planeta urgente”. Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Bussunda, Claudio Manoel e Maria Paula, em 1999. Dupla interpretava os icônicos Maçaranduba e Montanha no "Casseta e Planeta Urgente" Foto: Camilla Maia / Agência O Globo
Bussunda, Claudio Manoel e Maria Paula, em 1999. Dupla interpretava os icônicos Maçaranduba e Montanha no “Casseta e Planeta Urgente” Foto: Camilla Maia / Agência O Globo
Claudio Manoel, Bussunda e Hubert, em 1997 Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Claudio Manoel, Bussunda e Hubert, em 1997 Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Montanha, o amigo do pitboy
Maçaranduba (feito por
Claudio Manoel). Ator começou a fazer graça em um jornal na UFRJ, onde conheceu os colegas de programa Foto: Divulgação
Montanha, o amigo do pitboy Maçaranduba (feito por Claudio Manoel). Ator começou a fazer graça em um jornal na UFRJ, onde conheceu os colegas de programa Foto: Divulgação
Humorista Bussunda em gravação do "Casseta e Planeta Urgente", em 1992 Foto: Ivo Gonzalez / Agência O Globo
Humorista Bussunda em gravação do “Casseta e Planeta Urgente”, em 1992 Foto: Ivo Gonzalez / Agência O Globo
Bussunda caracterizado como o presidente Lula Foto: Lucíola Villela / TV Globo
Bussunda caracterizado como o presidente Lula Foto: Lucíola Villela / TV Globo
Bussunda carcterizado como o jogador Ronaldo, ao lado de Beto Silva Foto: Reprodução
Bussunda carcterizado como o jogador Ronaldo, ao lado de Beto Silva Foto: Reprodução
Bussunda engraxa os sapatos do escritor Paulo Coelho durante gravação do programa na Alemanha, em 2006 Foto: Divulgação
Bussunda engraxa os sapatos do escritor Paulo Coelho durante gravação do programa na Alemanha, em 2006 Foto: Divulgação
Bussunda e Maria Paula em cena do filme "A Taça do Mundo é nossa", em 2003 Foto: Divulgação
Bussunda e Maria Paula em cena do filme “A Taça do Mundo é nossa”, em 2003 Foto: Divulgação

Lembra o que passou pela cabeça ao receber a notícia da morte do seu pai?

Me perguntei: “Por quê?, Por que com a gente?”. Achei uma injustiça enorme. A sensação foi de um balde de água fria, que gela da cabeça aos pés. Imediatamente, comecei a chorar.

Na série, você conta que teve um problema na visão logo após a partida dele. Acha que teve a ver com a perda?

Quando meu pai morreu, eu fiquei míope. Meu avô era, tem genética aí. Tive convergência nos olhos antes, e o médico disse que eu, provavelmente, ia ser míope. Mas foi coisa de quatro meses depois da morte, acho que ela acelerou o processo.

Fez terapia?

No início, não quis fazer. Tive a sensação de que tinha que passar por cima dos meus sentimentos. Fiquei de luto por um mês, e voltei à escola na época das provas. Botei na minha cabeça que tinha sido suficiente. Aí, cheguei na faculdade muito mal. Claramente, não lidei com nada. Há dez anos faço terapia.

Que sentimentos teve que elaborar?

A revolta e um sentimento infundado de culpa. Pensava: “Se tivesse ligado no dia, talvez ele tivesse ido ao médico” ou “Se estivesse perto, não teria acontecido”. Essas fantasias que a gente cria.

No que a série ajudou?

Me forçou a revisitar a relação que tinha com ele e com o trabalho dele. Essa coisa da praia e da miopia eu também não tinha juntado até o documentário. Ele era meu parceiro de praia e, depois que morreu, fiquei míope e não fui muito mais à praia. Não vou sozinha, preciso ter alguém para saber se está seguro, porque mal enxergo as ondas. Ver o legado que deixou e a escola com o nome dele (um colégio municipal em Rio das Pedras) também foi bom.

A série mostra você diante do mar. Superou o trauma?

Superei um pouco. Nesse dia de gravação, consegui entrar na água com a prancha dele e senti como se fosse um fechamento. Ela nunca tinha ido para a água. Teve uma única vez em que ele tentou levá-la e brincou que ela tinha ficado com medo e não quis entrar… Mas, dessa vez, eu entrei ( ela se emociona).

No doc, você questiona piadas de Bussunda com mulheres e outros assuntos que, dificilmente, passariam pelo crivo de 2021. E procura a nova geração do humor para entendê-lo melhor. Conseguiu?

O saldo foi positivo. Eu fiquei um tempão sem revisitar o humor do meu pai, e, quando revisitei, nos tempos atuais, vi piadas que falei “Nossa”. Fiquei nessa dúvida se elas significavam algo maior sobre o que ele pensava. As conversas ajudaram, principalmente com a Noemia Oliveira (humorista entrevistada no doc), que fala sobre a relação com um pai que também errou.

Alguns humoristas criticam o politicamente correto. Onde seu pai estaria nessa discussão?

Tento não adivinhar para não ficar numa espiral de sempre pensar no que ele estaria achando sobre o que eu estou fazendo. Ele era uma pessoa que ouvia críticas e mudava de posição sem sofrimento, penso que aceitaria as mudanças. O máximo que falaria é que era outra época, havia outras regras no humor. O que ele gostava era fazer as pessoas rirem. Se soubesse que tinha magoado alguém, dificilmente defenderia a piada.

Como homem daquela geração, acha que ele estaria fazendo autocrítica do machismo?

Gostaria de acreditar que sim. Minha avó, a mãe dele, era muito feminista, minha mãe também. Difícil seria não fazer.

Se tivesse oportunidade de reencontrá-lo, o que lhe diria hoje?

Cheguei a um ponto do luto em que nem sinto mais pena por mim, mas pelo que ele não pôde presenciar. Minhas formaturas, eu virar professora… Ele não viu os filme da Marvel, adorava quadrinhos. Ia adorar Tik Tok, se amarraria em rede social por vídeo. A questão do humor eu não ia questionar, seria o último assunto que puxaria, não ia gastar o encontro com isso. Seria mais colocar o papo em dia sobre o mundo mesmo.

O que teria dito se soubesse que ele partiria tão cedo?

Aquele clichê sobre o quanto eu o amava. Queria que soubesse que foi um puta pai mesmo pelo tempo curto, que isso eu não por trocaria por nada.

Fisicamente você é parecida com ele. O que mais têm em comum? E de mais diferente?

Minha cara é do meu pai, mas meu superpoder não é minha barriga (risos). Meu humor é parecido com o dele, a timidez. Se me mandam mensagem de trabalho sábado, fico irritadíssima, como ele ficava. O apetite é diferente. Ele comia de tudo, eu sou chata para comer.

Depois do seu nascimento, ele, ateu convicto, passou a pedir para “alguém” que tudo desse certo. Como se sente ao ter despertado isso nele? Acredita que há algo além, que a morte precoce dele tem um significado?

É emocionante saber que só a nossa existência tocou alguém assim. Sou agnóstica, não sei se tem ou não. Tento ser positiva. Se tem algum significado a morte dele foi aproximar a mim e minha mãe ainda mais. A gente virou uma unidade. Tenho amigas e fãs do meu pai que dizem que sonharam com ele e acreditam que está precisando de algo. Eu já pedi a ele que, se estiver, venha aqui escrever com sangue na parede (risos). Mas acho que minha mãe ameaçou que, se ele escrever algo na parede, vai ter que limpar. Então, ele não quis (risos).

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