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Saúde

Dependência em bets cresce e impulsiona busca por tratamento especializado no RN

Centro terapêutico em Parnamirim acompanha crescimento de casos ligados a apostas online, enquanto especialistas alertam para impactos na saúde mental e nas finanças
Por O Correio de Hoje
17/07/2026 | 14:32

A expansão das plataformas de apostas esportivas e jogos online já reflete na procura por tratamento especializado no Rio Grande do Norte. Um centro terapêutico em Parnamirim mantém atualmente 30 pacientes acolhidos, quatro deles em tratamento por dependência em apostas, uma demanda considerada recente, mas que, segundo especialistas, vem crescendo e já configura um problema de saúde pública.

Segundo o responsável pelo centro terapêutico, Daniel Dumas, os pacientes permanecem em tratamento entre quatro e seis meses. Ele afirma que os casos chegam, em geral, após o agravamento dos prejuízos financeiros, familiares, emocionais e sociais provocados pela compulsão em jogos.

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Psicóloga Beth Varela fala sobre ludopatia / Daniel Dumas destaca alta de tratamentos - Foto: Reprodução

Embora o número de pessoas afetadas esteja aumentando, Dumas observa que poucos procuram ajuda por iniciativa própria. Na maioria das vezes, são familiares que buscam atendimento após perceberem o comprometimento da rotina e das relações do dependente. Para ele, a popularização das plataformas de apostas, aliada ao fácil acesso por meio dos telefones celulares e ao volume de publicidade, contribuiu para ampliar esse cenário.

A psicóloga Beth Varela explica que a dependência em jogos costuma permanecer invisível por mais tempo do que outros tipos de vício. Diferentemente do consumo de álcool ou drogas, a prática pode ocorrer discretamente pelo celular, dificultando que familiares e amigos percebam o problema. Segundo ela, sinais como ansiedade intensa, prejuízo nas atividades diárias, dificuldades financeiras e conflitos familiares indicam a necessidade de buscar ajuda especializada.

Outro aspecto apontado pela psicóloga é que a compulsão em apostas já é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno comportamental. Ela afirma que o quadro pode evoluir para depressão, crises de pânico e isolamento social, além de desencadear um ciclo contínuo de perdas financeiras.

Segundo Beth Varela, é comum que o dependente tente recuperar o dinheiro perdido realizando novas apostas, recorrendo a empréstimos e escondendo o comportamento da família. Esse processo, afirma, tende a ampliar os prejuízos emocionais e econômicos.

A psicóloga também avalia que mecanismos anunciados pelas plataformas, como limites de gastos e mensagens de “jogue com moderação”, não são suficientes para pessoas que já desenvolveram dependência. Segundo ela, o funcionamento cerebral do transtorno está relacionado à intensa liberação de dopamina provocada pela expectativa da recompensa.

“O nosso cérebro não gosta só de ganhar. Ele gosta da possibilidade de ganhar”, afirma.

Beth Varela também chama atenção para a influência exercida pela publicidade e por influenciadores digitais na popularização das apostas, principalmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade social. Segundo ela, a promessa de ganhos rápidos cria a falsa percepção de que os jogos representam uma oportunidade de melhorar de vida.

“Nada na vida vem fácil. A promessa, quando parece muito boa, ela só é boa para quem fez a promessa, não para quem acreditou”, afirma.

Daniel Dumas cita dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), segundo os quais o Nordeste concentra 54,3% dos possíveis casos problemáticos relacionados à dependência em jogos. Apesar disso, ele ressalta que os quatro pacientes atualmente internados por esse motivo não viviam em situação de vulnerabilidade social antes do adoecimento.

Segundo o terapeuta, muitos ingressam nas apostas não apenas em busca de dinheiro, mas como forma de aliviar questões emocionais, encontrando no jogo um ambiente de isolamento que favorece a repetição do comportamento.

O tratamento segue princípios semelhantes aos utilizados para a dependência química, com atendimento terapêutico e acompanhamento após a alta. Entretanto, segundo Daniel Dumas, a principal dificuldade está justamente no fato de que o objeto da dependência é um aparelho indispensável na vida cotidiana.

“O grande desafio de tratar pessoas com dependência em jogos é isso aqui: o telefone. Quem vive hoje sem o telefone?”

Para reduzir o risco de recaídas, o tratamento inclui acompanhamento psicológico, treinamento para estabelecer limites no uso dos dispositivos eletrônicos, reorganização da rotina e construção de novos hábitos. Os especialistas alertam que identificar precocemente os sinais da ludopatia e procurar atendimento especializado pode evitar o agravamento dos prejuízos financeiros, familiares e à saúde mental.