A Copa do Mundo de 2026 é disputada em meio a uma preocupação que vai além das questões técnicas e táticas dentro de campo. O calor extremo previsto para diversas cidades-sede do torneio levou a Fifa a adotar, pela primeira vez, um protocolo obrigatório de pausas para hidratação em todas as partidas da competição, numa tentativa de reduzir os riscos à saúde dos atletas diante das condições climáticas previstas para o Canadá, Estados Unidos e México.
A medida foi implementada após alertas de especialistas em clima, saúde e esporte, que apontaram a possibilidade de uma parcela significativa dos jogos ocorrer sob condições de estresse térmico consideradas preocupantes. Embora pausas para hidratação já tenham sido utilizadas em outras competições, a decisão sempre dependia da avaliação da arbitragem. Agora, a interrupção tornou-se obrigatória independentemente da temperatura registrada nos termômetros.

Pelo novo protocolo, cada partida contará com duas pausas de três minutos, uma em cada tempo de jogo, conhecidas como cooling breaks. A mudança representa uma alteração importante na condução das partidas e retira da arbitragem a responsabilidade de avaliar quando a interrupção deve ocorrer.
“O árbitro levava em consideração o que julgasse necessário, como temperatura ou eventualmente umidade. O que a Fifa fez foi desvincular isso da arbitragem”, explica Fernando Hess, médico especialista em exercício e esporte e coordenador do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa).
A adoção da medida ocorre após a divulgação de uma carta aberta elaborada por cientistas especializados em clima, saúde e esporte. O grupo analisou os cenários meteorológicos previstos para as 104 partidas do Mundial e concluiu que uma parcela expressiva dos confrontos poderá ser disputada sob níveis elevados de estresse térmico.
Segundo o estudo, aproximadamente um quarto dos jogos deverá ocorrer em condições iguais ou superiores a 26°C WBGT, índice internacional utilizado para medir o impacto do calor sobre o organismo humano durante atividades físicas. Em pelo menos cinco partidas, a previsão é que o indicador ultrapasse 28°C WBGT, patamar considerado perigoso para a saúde.
A médica do esporte Carla Tavares, coordenadora do serviço de medicina esportiva da Rede Mater Dei de Saúde, avalia que a medida oferece uma proteção mínima diante da diversidade de cenários que serão encontrados ao longo do torneio.
Os jogos da Copa ocorrerão em diferentes cidades, com características distintas de altitude, umidade e temperatura, além de horários variados. Para a especialista, a padronização do protocolo reduz a dependência de avaliações subjetivas e amplia a proteção dos atletas.
A preocupação dos especialistas não está relacionada apenas à temperatura ambiente. O principal parâmetro utilizado pelas entidades esportivas internacionais é o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), considerado mais preciso para estimar os riscos do calor durante exercícios físicos.
O indicador leva em conta uma combinação de fatores ambientais, incluindo temperatura do ar, umidade relativa, radiação solar e velocidade do vento.
“Na prática, ele estima o quanto o corpo consegue perder calor durante o exercício”, resume Carla.
A preocupação se justifica porque o organismo humano produz uma grande quantidade de calor durante atividades de alta intensidade. Segundo Paulo Zogaib, médico do esporte do Hospital Sírio-Libanês, apenas cerca de 30% da energia produzida pelo corpo é efetivamente utilizada para gerar movimento. O restante transforma-se em calor e precisa ser dissipado para evitar sobrecarga fisiológica.
Quando as condições climáticas dificultam esse processo, o risco aumenta. Um dos fatores mais preocupantes é a umidade elevada, que reduz a evaporação do suor e compromete o principal mecanismo natural de resfriamento do organismo.
“A temperatura alta é nociva, atrapalha. Mas a umidade do ar, às vezes, é mais prejudicial”, alerta Hess.
Além da umidade, a incidência direta de radiação solar e a baixa circulação de vento podem ampliar o estresse térmico, tornando ainda mais difícil a manutenção da temperatura corporal dentro de níveis seguros durante uma partida.
Nesse contexto, as pausas para hidratação funcionam como uma ferramenta para reduzir o impacto fisiológico do calor. Durante os intervalos, os atletas podem ingerir líquidos, receber orientações médicas e utilizar técnicas de resfriamento corporal.
Entre as estratégias mais adotadas estão a aplicação de toalhas geladas em regiões de grande circulação sanguínea, como pescoço e virilha, além do simples repouso temporário.
“O organismo para a atividade. Com isso, diminui a produção de energia e, portanto, diminui a produção de calor”, afirma Zogaib.
As pausas também oferecem uma oportunidade para que as equipes médicas monitorem sinais precoces de problemas relacionados ao calor.
“São uma oportunidade para a equipe médica observar sinais precoces de exaustão, tontura, confusão, câimbras ou queda anormal de rendimento”, afirma Carla.
Os efeitos do calor não se limitam ao desgaste físico. Especialistas destacam que o aumento da temperatura corporal e a desidratação podem afetar diretamente funções cognitivas fundamentais para o desempenho esportivo.
“Quando temos um aumento de temperatura do corpo e dificuldade de reidratar, as decisões ficam mais lentas, a precisão de um passe é reduzida, o tempo de reação acaba sendo mais alto”, explica Hess.
A discussão entre os especialistas, entretanto, não se encerra na adoção das pausas. Ainda existe debate sobre a duração ideal dessas interrupções.
Embora reconheçam que os três minutos ajudam a reduzir os riscos de fadiga excessiva, câimbras e quadros mais graves relacionados ao calor, alguns profissionais apontam que intervalos mais longos poderiam ampliar a dissipação térmica.
“O que sabemos é que pausas mais longas permitem maior dissipação de calor e potencialmente reduzem o risco de hipertermia”, afirma Carla.
A especialista ressalta, porém, que a proteção dos atletas depende de um conjunto de ações, incluindo aclimatação adequada, monitoramento constante do índice WBGT, hidratação planejada, utilização de técnicas de resfriamento ativo e, em situações extremas, até mudanças nos horários das partidas ou adiamento dos jogos.
Zogaib tem avaliação semelhante. Para ele, os três minutos previstos pela Fifa oferecem benefícios importantes, embora não representem necessariamente o cenário ideal para enfrentar condições climáticas severas.
A preocupação também se estende para fora das quatro linhas. Especialistas alertam que os torcedores estarão igualmente expostos aos efeitos do calor, especialmente aqueles que permanecerem por longos períodos em áreas abertas, filas, concentrações públicas e arquibancadas sem proteção adequada.
Com experiência adquirida durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, Fernando Hess avalia que os atendimentos médicos relacionados ao calor podem se tornar frequentes durante o Mundial.
“Eu vislumbro que teremos algumas situações de desmaios, de muitos atendimentos nas arquibancadas, como já tivemos em outros eventos.”
Diante desse cenário, médicos recomendam que tanto atletas quanto torcedores mantenham atenção constante à hidratação, busquem proteção contra a exposição prolongada ao sol e respeitem os sinais de alerta do organismo.
A Copa do Mundo de 2026 promete ser marcada não apenas pela disputa esportiva, mas também por um desafio crescente enfrentado pelo esporte global: a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas e das temperaturas cada vez mais extremas.