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Literatura

Sina leva suspense ao interior do RN em estreia de escritor potiguar

Primeiro romance de Tony Lucas acompanha o retorno do filho de um homem que massacrou fiéis em uma igreja e explora culpa, destino e heranças familiares no interior do Rio Grande do Norte.
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
10/08/2026 | 15:59

Dez anos depois de um massacre dentro de uma igreja, uma cidade continua vivendo como se o tempo não tivesse passado. Há silêncios que permanecem nas casas, lembranças que ninguém toca e um filho tentando entender até onde vai a culpa herdada do pai. É desse cenário que parte Sina, obra em que o potiguar Tony Lucas combina suspense, realismo mágico e referências da cultura nordestina para contar uma história sobre memória, destino e as marcas que atravessam gerações.

Nascido em 1996, em Currais Novos, Tony Lucas vive entre Tangará e Natal. Jornalista, tarólogo, escritor e doutorando em Estudos da Mídia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pesquisa representações do Nordeste, literatura e arte queer. Ao definir a si mesmo como “sonhador, criativo e persistente”, resume características que ajudam a explicar a trajetória até a publicação de Sina. Depois de cerca de um ano entre a escrita e a revisão do manuscrito, apresentou ao público, neste sábado 8, seu primeiro livro de ficção longa. A obra chega após ser finalista do concurso Livros do Futuro, promovido pelo TikTok, na categoria Suspense.

Capa do livro “Sina”, de Tony Lucas, aparece ao lado de retrato do autor em área próxima ao mar
Tony Lucas, jornalista, tarólogo, escritor e doutorando em Estudos da Mídia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), atualmente vive entre Tangará e Natal - Foto: reprodução

A história começa antes mesmo de Samuel, o protagonista, aparecer. Em uma pequena igreja do interior do Rio Grande do Norte, Antônio Lázaro entra durante um culto, mata todos os fiéis e, em seguida, tira a própria vida. Quando a narrativa avança dez anos, o leitor percebe que o massacre não ficou no passado. Filho do homem responsável pela tragédia, Samuel retorna à cidade onde cresceu e reencontra uma comunidade marcada pelo acontecimento.

Enquanto tenta reconstruir a relação com a família, passa a ser perseguido por sonhos inquietantes, visões inexplicáveis e cartas de tarô que parecem antecipar novos acontecimentos. O suspense deixa de girar apenas em torno do massacre que abre o livro e passa a acompanhar as consequências deixadas por ele. A cada capítulo, o passado invade o presente e conduz Samuel por uma busca em que mistério, memória e acontecimentos difíceis de explicar caminham lado a lado.

Tony conta que essa sequência inicial foi planejada para prender o leitor desde as primeiras páginas. A inspiração veio de um recurso recorrente dos filmes de terror. “Sou muito fã de filmes de terror e normalmente nesse tipo de filme há quase sempre uma sequência de abertura, onde acontece algum crime brutal. Foi minha homenagem ao gênero. Além disso, acho que a cena faz com que o leitor fique muito curioso para o desenrolar da história.”

Depois desse primeiro impacto, a narrativa desacelera e passa a acompanhar o protagonista em sua tentativa de reconstruir os laços com a família. Conforme revive lembranças que tentava deixar para trás, os acontecimentos sobrenaturais passam a dividir espaço com conflitos humanos, conduzindo a história muito mais pelas marcas do trauma do que pelo crime que a inaugurou.

Para Tony, acompanhar a história pelo olhar de Samuel permitia explorar um tema que sempre chamou sua atenção. “Quis brincar com essa ideia de que nós carregamos o peso das ações dos nossos pais. Sem falar em todas as possibilidades psicológicas que dava para explorar a partir do trauma de Samuel.”

Essa herança é o que move o romance. O sobrenatural não aparece isolado dos conflitos humanos, ele amplia dúvidas que Samuel carregava muito antes de voltar para casa. Em diversos momentos, o leitor passa a questionar se existe uma força invisível conduzindo os acontecimentos ou se tudo nasce da culpa, do medo e das marcas deixadas pelo massacre.

Embora o mistério seja um dos motores da narrativa, Tony admite que o que mais gosta de escrever não são necessariamente as reviravoltas. “Ouvir dos leitores que eles ficaram muito envolvidos e curiosos com a história ou que se surpreenderam com os plot twists me deixa bastante animado para escrever outros mistérios ainda mais mirabolantes, mas, sem dúvidas, o que mais gosto de escrever é sobre os conflitos humanos.”

Outro elemento que diferencia Sina é a escolha de ambientar toda a história em Tangará. Em vez de recorrer a um cenário fictício, o autor preferiu colocar uma cidade que conhece de perto no centro da narrativa. “Eu nunca li um livro que se passasse aqui. Eu brinco com meus amigos que minha cidade é só conhecida pelo pastel, então queria mostrar que tem outras coisas na cidade.”

Tangará também ajuda a construir a atmosfera do livro. As ruas, o modo de falar, as comidas típicas e pequenos hábitos do interior surgem naturalmente ao longo da história, sem interromper a trama para explicar costumes ao leitor.

Na revisão final, Tony conta que acrescentou detalhes que considerava importantes para tornar aquele universo mais reconhecível para quem vive no Nordeste. “As mudanças foram mais para deixar o texto mais fluido. Mas acrescentei algumas coisas, como descrever a capa da garrafa de café e dizer que no interior costuma ter carro avisando a morte dos outros. Foram detalhes que quis colocar para deixar o livro mais fiel ao Nordeste que conheço.”

Essa preocupação também aparece em referências espalhadas pela obra. Além de comidas típicas e objetos característicos da interior, o autor cita lugares conhecidos do Rio Grande do Norte e até uma loja de discos de Natal que costuma frequentar. “Eu tentei ser bem fiel às minhas experiências enquanto potiguar, então quem é daqui vai se identificar facilmente e quem não for vai conhecer melhor a nossa cultura.”

A ideia de escrever Sina surgiu durante o mestrado, quando Tony pesquisava a representação do Nordeste na literatura e no BookTok. Ao mesmo tempo, continuava consumindo filmes de terror e trabalhando como tarólogo. Aos poucos, percebeu que muitos dos livros que gostaria de ler simplesmente não existiam.

“A ideia surgiu a partir da minha pesquisa do mestrado, do meu interesse por filmes de terror e suspense e da minha experiência enquanto tarólogo. Fui preenchendo as lacunas que notava na literatura, em especial a potiguar, e juntando tudo o que eu gostaria de ver em um livro.”

O tarô acabou se tornando muito mais do que um elemento da trama. Toda a estrutura do livro foi construída a partir das cartas. “Como o livro segue a dinâmica de cada capítulo ser uma carta de tarô, eu já tinha estabelecido os acontecimentos de cada capítulo pensando na referência direta ou indireta ao arcano. Basicamente já estava tudo detalhado e planejado antes de começar a escrever.”

Entre as influências assumidas pelo escritor estão Enquanto eu não te encontro, de Pedro Rhuas, e A cabeça do santo, de Socorro Acioli. O segundo, inclusive, inspirou o nome do protagonista. “Pedro Rhuas foi um dos principais nomes que me influenciou a escrever Sina. Ele foi o primeiro autor que li escrevendo uma história LGBTQIAPN+ ambientada no Rio Grande do Norte e me fez perceber o quão importante é ter autores gays nordestinos fazendo histórias sobre gays nordestinos.”

Para Tony, o suspense e o terror ambientados no Nordeste ainda têm muito espaço para crescer. “Tenho notado que o interesse das pessoas por esse tipo de obra vem aumentando. Acredito que essa demanda logo mais será atendida e teremos várias histórias de terror nordestinas por aí. Estou bem feliz de fazer parte desse movimento.”

Embora marque sua estreia na ficção longa, Sina representa a retomada de um sonho antigo. Em 2016, Tony publicou o conto Miguel & Manuela e, no ano seguinte, lançou a coletânea de poemas O garoto que só queria ser amado. Depois disso, acabou se afastando da literatura por um período. “Eu costumo dizer que era um escritor frustrado porque já tinha tentado emplacar antes e não tinha conseguido.”

Foi quando Sina se tornou finalista do concurso Livros do Futuro, promovido pelo TikTok Brasil, que ele decidiu voltar a acreditar no projeto. “Foi por causa do concurso que eu voltei a acreditar em mim mesmo e no potencial das minhas histórias.”

Publicar o livro foi apenas uma parte do trabalho. Como autor independente, precisou cuidar praticamente de todas as etapas da produção. “Fazer tudo sozinho é muito difícil. Tem revisão, capa, divulgação. Eu tive uma série de problemas com a primeira capista e depois veio a parte que considero mais desafiadora: fazer as pessoas conhecerem o livro. Como já tinha gastado muito dinheiro, fiz uma divulgação sem gastar nada e me recusei a usar IA em qualquer etapa desse livro. Felizmente muitas pessoas têm comprado o meu barulho e me ajudado a espalhar a palavra de Sina por aí.”

O lançamento também marca o início de novos projetos. Tony já pesquisa um segundo romance, outro suspense ambientado no Rio Grande do Norte, desta vez em Natal. Também prepara um conto de horror e o relançamento de obras anteriores. Já uma continuação de Sina não está nos planos. “Não pretendo escrever continuação, mas tenho planos de lançar outros livros seguindo a estrutura das cartas de tarô.”

Antes disso, porém, ele quer acompanhar a caminhada do livro, que passou cerca de um ano entre a primeira página e a publicação. “Confesso que é um misto entre orgulho e ansiedade pelo que vem por aí. Fico me perguntando o que as pessoas vão achar do livro, se vão gostar, se vão odiar. Tenho muito carinho por Sina, então bate aquele medinho do livro não ser bem recebido. Mas estou muito feliz por finalmente tê-lo soltado para o mundo.”

Tony diz que espera que o leitor leve algo consigo depois de fechar a última página. Mais do que solucionar o mistério, gostaria que permanecesse a lembrança dos personagens e do universo que construiu. “Quero que o leitor fique com aquele gostinho de quero mais e sinta saudade dos personagens e do universo que criei”, conclui.

Sina está disponível para compra na Amazon, exclusivamente no formato eBook Kindle.